Pra quem anda confundindo o Evangelho com discursos
ideológicos
Por Hermes C. Fernandes
Definitivamente, não existem ideologias perfeitas.
Todas têm suas virtudes e vicissitudes. Cada qual tem seu altar e seu
sacrifício. O comunismo, por exemplo, sacrifica a liberdade de seus cidadãos no
altar da justiça social. O capitalismo faz o inverso, sacrifica a justiça
social no altar da liberdade.
Ora, se não há ideologias perfeitas, o que nos dá o
direito de sacralizá-las? Não podemos diluir a mensagem do Evangelho,
transformando-o num discurso ideológico. Ainda que cada uma delas tenha um
ponto ou mais que coincidam com a proposta do Evangelho. Diluir uma gota de
Evangelho num balde de ideologia acaba por corromper completamente seu conteúdo
e subversividade originais.
Deus não é de esquerda, nem de direita. Se o
Evangelho promove a justiça social, também não prescinde da liberdade
individual.
Quando sacralizamos uma ideologia, geralmente,
demonizamos as demais. Foi o que aconteceu com o comunismo a partir do golpe
militar em 1964. Pregadores fizeram vista grossa às atrocidades cometidas pelo
governo militar, enquanto identificavam o comunismo com o próprio diabo. Houve
quem enxergasse um viés político-ideológico até na passagem em que Jesus
descreve o juízo final, quando a humanidade será dividida em dois grupos. Os da
esquerda, destinados à condenação, seriam os comunistas, enquanto que os da
direita, destinados à vida eterna, seriam as nações que adotassem a ideologia
importada dos EUA, a saber, o capitalismo. Igualmente, dos dois ladrões
crucificados com Jesus, somente o da direita foi salvo.
Qualquer pregador que ousasse questionar a ditadura
militar, corria o risco de ser preso, acusado de subversão. Há quem diga que
muitos desapareceram...
Não devemos nutrir uma visão romântica de nenhuma
ideologia. Em nome de todas elas, atrocidades foram cometidas.
Vamos focar as duas principais ideologias vigentes
neste novo século, a saber, o comunismo (que resiste bravamente na China e em
Cuba), e o capitalismo.
O comunismo, em sua essência, defende que os bens de
uma sociedade deveriam ser partilhados igualmente entre todos os seus cidadãos.
Isso parece coincidir com a proposta do Evangelho. Eu disse, parece. Teria o
Estado o direito de apropriar-se de bens privados?
Temos um exemplo disso na Bíblia, quando um rei
malévolo desejou acampar a vinha de um cidadão de Israel. Acabe conspirou
contra Nabote, a fim de tomar-lhe a propriedade. É óbvio que Deus jamais
apoiaria tal atitude. O mandamento que diz que não devemos cobiçar o bem
alheio, bem como o mandamento que nos proibe o roubo, são uma indicação de que
a vontade de Deus é que a propriedade privada seja respeitada. Também
encontramos nas Escrituras leis que regulam a hereditariedade de bens
(Pv.13:22).
Entretanto a Bíblia incentiva a partilha de bens,
desde que seja voluntária, fruto de uma consciência grata e generosa. Foi isso
que aconteceu na igreja primitiva. O que vemos ali está longe de ser uma
amostra grátis do que seria uma sociedade comunista. Em vez disso, trata-se de
uma demonstração de como funciona uma sociedade erigida ao redor do Trono da
Graça. Trata-se, portanto, de reinismo, em vez de comunismo. A partilha jamais
foi compulsória, mas provinha do fato de todos terem um só coração (At.4:32).
Não havia imposição por parte dos apóstolos. Tudo era voluntário. Portanto,
diferente do que propõe regimes comunistas, a partilha dos bens deve ser
voluntária, tanto quanto o celibato, equivocadamente exigido pelo Vaticano aos
seus sacerdotes.
Chamamos “reinismo” a ideologia que deve reger a
sociedade construída a partir de uma cosmovisão do reino de Deus. Reinismo,
portanto, deveria ser o modus vivendis
de toda comunidade legitimamente cristã.
De acordo com Paulo, o cidadão do Reino deve
trabalhar, “fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com
o que tiver necessidade” (Ef. 4:28). Bem diferente da proposta do capitalismo
que é fazer do trabalho um meio para adquirir e concentrar bens, no reinismo
somos instados a trabalhar para ter o que repartir. Assim como o comunismo, o
reinismo também valoriza o trabalho muito mais que o capital. Porém, cada qual
deve desfrutar do resultado de seu próprio trabalho, e não usufruir ociosamente
do trabalha alheio. Somente aqueles que estiverem impossibilitados de
trabalhar, ou que houver sido vítimas de alguma injustiça, devem desfrutar da
partilha comunitária. “Se alguém não quiser trabalhar, que também não coma”,
sentencia Paulo (2 Ts.3:10-12).
Um Estado regido pela ideologia comunista tende a ser
totalitário, intrometendo-se em questões que deveriam ser mantidas na esfera
privada.
Qual seria o papel do Estado de acordo com a Bíblia?
“Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores;
porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram
ordenadas por Deus. Por isso quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus;
e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. Porque os magistrados
não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal.
Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela;
porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme,
pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira
contra aquele que pratica o mal. Pelo que é necessário que lhe estejais
sujeitos, não somente por causa da ira, mas também por causa da consciência.
Por esta razão também pagais tributo; porque são ministros de Deus, para
atenderem a isso mesmo.”
Romanos 13:1-6
De acordo com este texto, o Estado recebeu de Deus
autoridade para punir os malfeitores, ao mesmo tempo em que incentiva toda e
qualquer boa iniciativa. Leis civis são implementadas para regulamentar a vida
social. Quando estas leis são transgredidas, o Estado tem o direito de punir os
transgressores. Mas não pára aí. O Estado também tem a obrigação de “louvar”
quem faz o bem, o que pode ser interpretado como incentivar qualquer iniciativa
que vise o bem comum. Isso pode incluir incentivos fiscais, como aqueles dados
à cultura. Se o Estado extrapola sua esfera de atuação, seus cidadãos têm o
direito de resisti-lo, denunciando-o e buscando sua reforma. O Estado deve
servir como um facilitador de boas obras, oferecendo à sua população meios para
tal. Desde infraestrutura para escoamento da produção, passando por incentivos
fiscais, segurança, educação, saúde, saneamento básico, etc.
Já no Liberalismo/capitalismo, valoriza-se o capital
em detrimento do trabalho. O consumo é incentivado a todo custo, a fim de
manter a máquina a pleno vapor. Trata-se, portanto, de um sistema
retroalimentado. O consumo estimula a produção, que por sua vez, promove a
abertura de postos de trabalho. Segundo seus defensores, o resultado desta
equação é a prosperidade da sociedade como um todo. Tudo parece muito bonito,
até que nos deparamos com as palavras de Jesus: “Acautelai-vos e guardai-vos de
toda espécie de cobiça; porque a vida do homem não consiste na abundância das
coisas que possui.” (Lc. 12:15). Como, então, poderíamos endossar o espírito
consumista que justifica a ideologia capitalista? Um sistema erigido sobre esta
ideologia só poderia está fadado a ruir.
No capitalismo a concentração de renda também é
valorizada, em franca dissonância com os princípios da Palavra de Deus.
“Ai dos que ajuntam casa a casa, dos que acrescentam
campo a campo, até que não haja mais lugar, de modo que habitem sós no meio da
terra!” Isaías 5:8
A justiça do reino de Deus nos impele à distribuição
de renda, e não à sua concentração. Cartéis, monopólios, oligarquias, são
alguns dos efeitos colaterais deste sistema capaz de corromper os valores
essenciais da vida em nome do ganho.
O capitalismo também promove a exploração do
trabalhador. Apesar do discurso afirmar que todos saem ganhando, não é isso que
constatamos. Quem lucra, nunca se dá por satisfeito. Os detentores dos meios de
produção, bem como os banqueiros e donos dos veículos de comunicação querem
sempre mais, e mais, e mais.. E ao mesmo tempo, reduzir gastos, o que pode
significar redução de salários, substituição de mão-de-obra humana por
máquinas, etc. Investe-se em publicidade e lobby político, ao passo que
reduz-se o gasto com aqueles que mantém a máquina, os empregados. Tudo em nome
da eficiência e da otimização dos lucros. Não é à toa que grandes empresas de
países ricos têm se mudado para países do terceiro mundo, por saberem que lá
pagarão salários menores a seus empregados. O preço pago a médio e longo prazo
será incalculável. E já começou a ser pago. Vide o altíssimo índice de
desemprego nesses países.
Se por um lado o capitalismo promove competitividade,
fazendo com que serviços e bens de consumo sejam aprimorados, por outro lado,
atravancam o desenvolvimento. Dificilmente empresas petrolíferas apoiarão
iniciativas que desenvolvam veículos movidos à água, por exemplo. A menos que
descubram uma maneira de tirar proveito disso. Muita coisa já foi inventada,
patentizada, porém, jamais chegou às mãos do consumidor, pois ameaçam produtos
já consagrados. Eu mesmo conheci um professor universitário que já nos anos 80
havia desenvolvido um motor à água. Resultado: foi demitido e teve seu projeto
abortado pela Universidade, que por sua vez recebeu uma enorme soma em doação
da parte de certa empresa petrolífera. No sistema capitalista, tudo é movido
pela ânsia do lucro.
Governos pautados nesta ideologia estão construindo
sobre areia movediça. Bem fariam em dar ouvidos à advertência bíblica:
“Ai daquele que edifica a sua casa com iniqüidade, e
os seus aposentos com injustiça; que se serve do trabalho do seu próximo sem
remunerá-lo, e não lhe dá o salário.” Jeremias 22:13
Tragicamente, esta ideologia demoníaca tem encontrado
amparo no seio da igreja evangélica. A teologia da prosperidade é sua filha caçula.
Sua mensagem, resultado da mistura de um gota de Evangelho com uma caixa d’água
de discurso ideológico, tem sido responsável por tornar a igreja numa importante
engrenagem do sistema, incentivando a alienação.
Todos as ideologias e seus respectivos sistemas estão
fadados a desaparecer (1 Co.15:24-25; Hb.12:27-28). Por isso, perde tempo quem
tenta conciliar a verdade do Evangelho com qualquer uma delas. Bom seria se
déssemos ouvidos a Paulo, analisando tudo e retendo somente o que for bom. Nada
de pacotes fechados!
Assim como não podemos sacralizar qualquer que seja a
ideologia, também não podemos demonizá-la. Dos dois lados da trincheira
ideológica há gente de bem, lutando pela justiça e pela verdade. Quem gosta de
rotular os outros de maneira tendenciosa e preconceituosa está à serviço da
discórdia, disseminando o ódio entre irmãos. Posso condenar uma linha de
pensamento, mas isso não me dá o direito de sentenciar ou fomentar suspeitas
sobre pessoas que pensem diferente de mim.
Cristãos que cerraram fileiras com a ala direita
certamente o fizeram por identificarem naquela ideologia alguns elementos
comuns ao Evangelho. O mesmo podemos falar dos que cerraram fileiras com a
esquerda. Ambas as ideologias têm coisas em comum com a proposta do Evangelho,
como também têm disparates que não podem ser ignorados. Há santos e pecadores
de ambos os lados. Não sejamos tão severos... Nem tão ingênuos...
Em vez de lutarmos em nome de uma ou de outra,
digladiando-nos uns com os outros, que tal lutarmos pela liberdade e pela
justiça preconizadas na mensagem do Reino de Deus?
Descoberto em Cristianismo Subversivo.
Apesar de alguns equívocos, a idéia é boa. Sacralizar
a política é um erro.
Interessante... Acho que minha última tentativa foi identificar o cristianismo com o anarquismo. Há muitas passagens que apontam para isso, como a repreensão de Deus aos israelitas quando eles decidiram que queriam ter um rei como os outros povos; a ressignificação que Jesus faz do templo - não como instituição, sinagoga, mas na forma do seu próprio corpo; a crítica à propriedade privada e outros elementos da igreja primitiva (em Atos). Enfim... mas o autor citou um trecho em que se fala do respeitos às autoridades, de modo que talvez ainda seja necessário deixar em aberto uma conclusão a respeito da relação entre política e cristianismo (prefiro não abandonar a reflexão)...
ResponderExcluirAcho meio perigoso identificar cristianismo com política. Sem dúvida, qualquer coisa que tenha relevância para a humanidade vai ter conseqüências políticas, mas isso é diferente de igualar religião e política. Afinal de contas, uma das conquistas da modernidade é justamente a independência das esferas, inclusive a política. Eu, por exemplo, não sou muito fã do pensamento de esquerda, se fôssemos conversar sobre isso estaríamos falando de política e não de cristianismo. É claro que podemos discutir se determinada posição política é a melhor em cumprir o mandamento de Jesus de amor ao próximo, mas nem por isso o cristianismo seria o objeto primordial da conversa. Não sei, mas me parece que justamente porque Jesus não veio, propriamente, fazer política (evitando se prender a determinada tendência política que pode deixar de ser efetiva em determinada situação histórica), mas mudar nosso relacionamento com Deus, e, conseqüentemente, nosso relacionamento com os outros que reside seu caráter escandaloso. Me parece que é essa a razão de seu “ame a Deus e aos outros” ser tão devastador e tão amplo. Enfim, me parece que a melhor coisa é não abandonar a reflexão...
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