sexta-feira, 29 de junho de 2012

Teologia do Capeta


“O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém”.
William Shakespeare

A ironia no desenvolvimento de um pensamento teológico é quando alguém defende seu ponto de vista – insistindo ser bíblico -, citando autores humanos e raciocínios desenvolvidos no decorrer dos anos. Isso é um tiro no próprio pé.

Por quê?

Não apenas porque os detentores de tais raciocínios eram seres humanos, mas também, porque nós somos homens interpretando outros homens como se de alguma forma estivéssemos lendo Deus – Fechando todas as possibilidades de alguém discordar.

O perigo de tal pressuposto?

Criarmos hierarquias de pensamento ao qual, como reis e rainhas, nos da licença para determinarmos qualquer diabo que seja – Velha história: Não é uma questão de quem está certo ou errado, é uma questão de quem tem os melhores argumentos e a melhor política. Não é uma questão de buscar a multiface do amor, mas de buscar o que interpreto por amor.

Sério? O Criador do Universo está envolvido nisso?

Com certeza muitos possuem um argumento para dizer que sim.

Constantino, Hitler e muitos outros, achavam que estavam fazendo o trabalho de Deus em suas épocas. Que a interpretação que faziam era suficientemente lógica para agirem como agiram. Não me admira o crescimento do número de ateus hoje em dia. Não estamos vendendo salvação novamente? Não estamos vendendo sucesso, dinheiro, e a mente de Deus de alguma forma?

Como resolver então os impasses teológicos da era?

Voltando-se ao amor, e a necessidade de comunhão entre os homens. Buscar uma abordagem bíblica fundamentada no simples fato que, debaixo de nossa pele somos todos iguais. A Bíblia não foi escrita por reis e rainhas ou para reis e rainhas, mas, para pessoas comuns como eu e você; que não necessita de anos de treinamento para interpretar algum versículo, mas só de aprender como praticar o amor. Enfim, ajudar a sociedade a descobrir a divindade que está disponível em cada ser humano.

Texto de Nelson Costa Jr.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fé e lucidez ainda poderão comungar?


Passo pouquíssimo tempo frente à tv. Algumas vezes, enquanto procuro documentários, filmes ou noticiários, deparo-me com alguns canais religiosos. Fico ali, parado, inerte, "bobolhando", pensando em nada.

Minha esposa sempre disse: "Por que você assiste a esses programas, meu amor? Isso não te faz bem." E delicamente, toma o controle de minha mão e troca de canal - geralmente por outro semelhante: comédia ou drama. Sou agradecido porque o conteúdo e qualidade mudam radicalmente.

Pronto, meu amor. Cheguei aonde pretendia: já não consigo assistir a nenhum programa evangélico na TV. E quando digo nenhum, digo nenhum mesmo. Já consigo, sozinho, trocar o canal (isso sem tomar remédios e nem visitas ao psicanalista ou pastor - consegui sozinho mesmo, eis meu testemunho de cura e libertação). E hoje, pela tarde, foi a última vez, prometo. Não assistirei aos programas nem pra rir, nem pra chorar ou pra análise do discurso religioso. Não mais. Conto o motivo, que é pequeno, mas fora a gota d’água.

Certa mãe ligou para um programa - até então desconhecido para mim (meu Deus, mais um!). O bispo atendeu e divulgou a concentração de fé em São Paulo que será no final de semana; deu espaço para que a sua cliente fizesse o pedido de oração:
- "Meu filho teve um acidente. A perna dele está inchada."
O bispo, prontamente respondeu:
-"Vamos orar...” e ora.

Não tenho estômago para descrever a oração e dos tantos demônios do inchaço que ele cita. (Trata-se de uma cartilha generosa de demônios do inchaço, vocês não têm noção.)

Prezados leitores, será que algum dia a fé e a lucidez poderão unir suas mãos? Minha pergunta é retórica e respondo um sonoro NÃO.

Caminhamos para trás, para uma fé da magia, do engano, do inimigo do tempo e da natureza; de uma fé belicosa contra a medicina, contra a ciência, contra o fato, contra o real. Meu Deus! Como conseguem lutar contra a realidade? Por que desejar em oração o sumiço repentino do inchaço de uma perna acidentada?

O grande problema é que esse sumiço vai acontecer. É problema porque esse maldito inchaço será curado pelo próprio tempo com a ajuda de uma pomada barata; e a mãe desesperada será escrava de um sistema de fé longe, bem longe da lucidez. Ela acreditará e fará com que seus familiares creditem ao bispo, bem como à denominação, todo o louvor. Será ainda crido e divulgado que o bom negócio é lá, que a boa fé é lá, que o real e a lucidez não importam quando o brado de vitória é decretado.

Não só a igreja evangélica, mas muitos cristianismos continuam (atentem: continuam) vivendo uma fé que desconhece a lucidez.

E o que seria fé e lucidez?

Em primeiro momento, fé e lucidez para um não é o mesmo que fé e lucidez para o outro. Não comungam da mesma ideia. Enquanto um se julga lúcido, o outro condena e vice-versa.

Numa síntese, creio que a "boa fé" é daquele que tem o poder de criticá-la com lucidez. E não podemos nos esquecer que o cristianismo é a única religião secularizada. Significa que temos plenas condições de criticar a nós mesmos através dos fatos, da realidade que a Modernidade viu e nos mostrou.

Rogo a Deus para que essa autocrítica tenha espaço na mente de cada indivíduo. Só assim, teremos condições de criticar (o que nos distingue dos animais é o poder da crítica) e não mais enriquecer um império que cresce absurdamente no Brasil – esse império sim, um verdadeiro “demônio do inchaço”.

Descoberto em Nelson Lellis.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Cristãos dos quais não me envergonho: Henry Nouwen



Henry Nouwen foi um sacerdote católico, de origem holandesa. Ensinou nas Universidades de Harvard e de Yale, escreveu 40 livros, publicados em 20 idiomas, com mais de 20 milhões de cópias vendidas. Mas seu maior legado foi deixado pelo seu trabalho na comunidade Daybreak, nos arredores de Toronto, no Canadá, onde Nouwen desenvolveu suas atividades pastorais por oito anos.

De acordo com seus relatos, a coisa mais importante que Nouwen fazia na Daybreak era cuidar de Adam.

“Adam é um homem de 25 anos de idade”, disse Nouwen, “que não consegue falar, não consegue vestir-se, nem tirar a roupa, não pode andar sozinho, não pode comer sem ajuda. Ele não chora nem ri. Apenas às vezes faz contato com os olhos. As costas são deformadas. Os movimentos dos braços e das pernas são distorcidos. Ele sofre de severa epilepsia e, apesar de pesada medicação, raros dias se passam sem ataques do grande mal. Às vezes, quando fica subitamente rígido, emite um gemido imenso. Em algumas ocasiões já vi uma grande lágrima rolar por sua face. Levo cerca de hora e meia para acordar Adam, dar-lhe medicação, carregá-lo até ao seu banho, lavá-lo, barbeá-lo, escovar seus dentes, levá-lo à cozinha, dar-lhe o café da manhã, colocá-lo na sua cadeira de rodas e levá-lo até ao lugar onde passa a maior parte do dia com exercícios terapêuticos”.

Philip Yancey, jornalista e escritor, conta que jamais esqueceu o dia em que acompanhou a rotina de Nouwen na Daybreak. Seu relato começa com uma confissão corajosa. “Devo admitir que tive uma dúvida passageira quanto a ser aquele o melhor emprego da sua vida”, diz Yancey. “Eu ouvira Henri Nouwen falar e lera muitos dos seus livros. Ele tinha muita coisa a oferecer. Outra pessoa não poderia assumir a tarefa servil de cuidar de Adam?”.

“Quando cautelosamente mencionei o assunto com o próprio Nouwen”, diz Yancey, “ele me informou que eu interpretara de todo erradamente o que estava acontecendo”. Veja como Nouwen encarava seu relacionamento com Adam.

“Não estou desistindo de nada. Sou eu, não o Adam, quem recebe os principais benefícios de nossa amizade. As horas passadas com Adam deram-me uma paz interior tão satisfatória que fez com que a maioria de suas outras tarefas intelectuais parecessem enfadonhas e superficiais por contraste. No começo, quando me assentava com esse homem-criança desamparado, percebia como a busca do sucesso na academia e no ministério cristão era obsessiva e marcada pela rivalidade e pela competição. Adam me ensinou que o que nos torna humanos não está na nossa mente, mas no nosso coração, não é a nossa capacidade de pensar, mas a nossa capacidade de amar“.

Texto de Ed René Kivitz.

sábado, 23 de junho de 2012

Onde estão os cristãos?



Por João Pereira Coutinho

Bento 16 é um diplomata: na sua mensagem de Páscoa, o papa apelou ao fim dos confrontos na Síria. E, com cautelas mil, teve ainda uma palavra de preocupação pelos cristãos do mundo inteiro, que sofrem pela sua fé e são perseguidos pelas autoridades locais.

O papa fez bem em levantar o véu. Mas um leitor interessado nos pormenores sórdidos da vaga anti-cristã --nomes, números, crimes etc.-- deve ler a edição pascal da revista "The Spectator". Que, dessa vez, dedica uma especial atenção aos cristãos do Oriente Médio. Primeira conclusão: os cristãos da zona não estão a gostar da "primavera árabe".

Pelo contrário: para muitos deles, a primavera virou inverno e a sobrevivência deixou de ser uma certeza. Conta a "Spectator": nos inícios do século 20, os cristãos árabes representavam 20% da população total. Hoje, andam pelos 5%.

Existem casos para todos os gostos. No Iraque, por exemplo, a invasão americana de 2003 encontrou uma comunidade robusta de 1,4 milhões de cristãos. Passaram-se quase dez anos --e, em dez anos, aconteceu de tudo: a destruição de igrejas (70); a morte de fiéis (cerca de 1000); e a fuga de 800 a 900 mil do país. Hoje, dos 1,4 milhões iniciais, restarão uns 400 mil.

Na Síria, a situação não é melhor. Não apenas porque o país está envolvido numa guerra civil "de facto"; mas porque os rebeldes islamitas aproveitam o momento de luta contra o regime de Bashar al-Assad para fazerem outro tipo de limpezas religiosas. Só em Homs, 50 mil cristãos foram expulsos da cidade nos últimos dois meses de confrontos. Um número impressionante?

Nem por isso. No Egito, e só em 2010, 200 mil cristãos deixaram as suas casas em Alexandria, Luxor ou no Cairo. Esses foram os afortunados. Os menos afortunados foram mortos na passagem do ano em Alexandria (21) ou na capital (mais 27).

Claro que, perante este quadro negro, há motivos de esperança. Se os cristãos são perseguidos, massacrados ou expulsos dos países árabes, isso não significa que não encontrem abrigo na região. O leitor é capaz de adivinhar qual o pedaço do Oriente Médio onde a população cristã subiu 2.000% nas últimas seis décadas?

Se o leitor pensou na tolerante Gaza (ou na Cisjordânia), lamento desapontá-lo. Em Gaza, e desde 2007, metade da comunidade cristã também resolveu fazer as malas para não ter problemas com o Hamas. E, sobre a Cisjordânia, os 15% de cristãos estão hoje reduzidos a uns míseros 2%.

O país que tem servido de abrigo para a comunidade cristã é, acredite se quiser, Israel. Aliás, não apenas para os cristãos --mas para outras minorias perseguidas do Oriente Médio.

Eis o supremo paradoxo: Israel é um estado tão racista e intolerante que, na hora do aperto, é a escolha nº 1 das vítimas do racismo e da intolerância.

Descoberto na Folha.

Problema que já tinha sido levantado por Joel Pinheiro (leia aqui).

terça-feira, 19 de junho de 2012

Les Églises protestantes : les Églises pentecôtistes




Qui sont les pentecôtistes ? Dans le Guide de l'identité protestante, Jean-Luc Mouton et Antoine Nouis expliquent l'origine de cette branche du protestantisme.

En 1968, le théologien américain Harvey Cox écrit un livre intitulé La cité séculière, dans lequel il décrit le caractère inéluctable de la sécularisation. Trente ans plus tard, il écrit un livre intitulé Retour de Dieu, dans lequel il affirme qu’il s’est trompé : la sécularisation du monde s’est inversée et on assiste à un renouveau religieux marqué dans le christianisme par l’essor des Églises pentecôtistes. C’est grâce à ces Églises que le christianisme est en croissance dans le monde.

Les Églises pentecôtistes naissent au début du XXe siècle et comptent plus de cinq cent millions de membres cent ans plus tard. Si les courbes se poursuivent, le pentecôtisme sera majoritaire dans le christianisme, devant l’Église catholique, avant la moitié du XXIe siècle.

La théologie pentecôtiste souligne, comme son nom l’indique, l’expérience de Dieu vécue à la Pentecôte. Elle insiste sur l’importance de la narration et des témoignages. Elle développe une spiritualité qui accorde une attention aux rêves et aux visions et qui insiste sur la prière de guérison. Elle croit en l’existence de forces spirituelles qui peuvent être bonnes ou mauvaises.

Les Églises pentecôtistes se développent surtout dans les pays du Sud, où leur théologie entre en résonance avec la culture locale.

Lido em Réforme.

domingo, 17 de junho de 2012

Descartes et la précarité du monde


propos recueillis par Henri de Monvallier - publié le 06/04/2012

Rédacteur en chef du site Actu Philosophia et docteur en philosophie, Thibaut Gress publie, après son essai introductif Apprendre à philosopher avec Descartes, un nouvel ouvrage intitulé Descartes et la précarité du monde (CNRS Éditions). Cet essai entend proposer une interprétation d’ensemble inédite de la philosophie cartésienne. Thibaut Gress a bien voulu répondre à nos questions sur les rapports du philosophe et de l’homme Descartes avec Dieu et la religion.



Pouvez-vous en deux mots expliquer l’expression de « précarité du monde » qui donne son titre à votre essai. En quoi Descartes fait-il l’expérience de la « précarité du monde » et comment la question de Dieu vient-elle s’inscrire dans cette problématique ?
La notion de « précarité » vise à réinterpréter le sens de la méthode au sein de l’œuvre de Descartes ; le doute a, traditionnellement, été présenté par les commentateurs dans une perspective exclusivement méthodologique, c’est-à-dire comme un artifice intellectuel destiné à révoquer progressivement en doute la croyance que je pouvais accorder à un certain nombre de réalités : réalités sensible extérieure, proprioceptive (la perception que j’ai de mon corps propre), et intellectuelle. À l’issue de la révocation en doute, apparaissaient les deux seules réalités indubitables : l’ego (moi) et Dieu, réalités conçues comme certaines pour le seul esprit. À cet égard, l’usage du doute était conçu comme un outil intellectuel destiné à découvrir une vérité première, c’est-à-dire à balayer les impuretés qui venaient parasiter l’évidence de mon existence et de celle de Dieu. Or, contre cette lecture dominante, j’ai essayé de montrer que, loin d’être un simple outil exclusivement méthodologique, le doute disait aussi quelque chose du monde lui-même ou, mieux encore, exprimait l’intrinsèque précarité du monde. En d’autres termes, c’est parce que le monde est ontologiquement précaire qu’il peut être révoqué en doute et c’est parce que mon existence et celle de Dieu sont ontologiquement consistantes qu’elles peuvent résister à ce même doute et être démontrées.

J’essaie donc de montrer que Descartes a sans doute éprouvé cette étrange expérience par laquelle l’évidence même de l’existence de Dieu révèle par contraste la précarité du monde qui l’entoure et son inconsistance fondamentale. Contre l’attitude naïve, Descartes nous rappelle que l’immédiateté du monde n’est pas le gage de sa réalité ; inversement, l’éloignement divin ne contredit nullement le fait que Dieu est ce que j’éprouve intimement avec le plus de certitude.

Le fait de vouloir prouver l’existence de Dieu de manière rationnelle et démonstrative est-il compatible avec une attitude de foi ?
Descartes associe en effet démonstration et ontologie : est démontrable ce qui est au sens fort du terme. C’est la raison pour laquelle Dieu est démontrable, comme si l’Être coïncidait avec sa saisie rationnelle la plus rigoureuse. En revanche, le monde, dont je prétends qu’il est précaire, n’est précisément pas démontrable (par la raison) quant à son existence ; il n’est guère que prouvable (par l’expérience), cette preuve étant de surcroît indirecte puisque reposant sur l’exigence que Dieu ne soit pas trompeur. Vous avez donc raison de soulever la question de la foi, dans la mesure où le rapport à Dieu, chez Descartes, est d’abord d’ordre rationnel, puisque démonstratif. Trois démonstrations étayent en effet l’existence de Dieu, les deux premières montrant que seul Dieu peut mettre en moi l’idée que j’ai de lui, la troisième interrogeant la raison pour laquelle l’idée que j’ai de Dieu me le représente comme nécessairement existant, et établissant que c’est l’existence réelle de Dieu qui me contraint à le concevoir ainsi, c’est-à-dire comme existant. Loin de déduire la réalité de Dieu à partir de ma pensée, Descartes établit au contraire que c’est la réalité de Dieu qui détermine la manière dont je puis le penser.

Néanmoins, il faut nuancer par deux fois le sens de ces démonstrations rationnelles. D’une part, Descartes est toujours attentif à la distinction entre philosophie et théologie : il ne condamne en rien la foi, considère qu’elle constitue un domaine légitime, mais refuse de l’aborder puisque tel n’est pas son domaine. D’autre part, Descartes est toujours plus rusé qu’il n’y paraît : l’épître aux doyens de la Sorbonne qui ouvre les Méditations est un chef-d’œuvre d’ironie car, sollicitant l’approbation des théologiens, il leur dérobe du même geste l’objet habituel de leurs spéculations, puisqu’il y affirme avoir toujours estimé « que les deux questions, de Dieu et de l’âme, sont les principales de celles qui doivent plutôt être démontrées par les raisons de la philosophie que de la théologie ». Si vous retirez à la théologie Dieu et l’âme pour les confier à la raison philosophique, que reste-t-il d’essentiel à la foi ? La question doit rester ouverte.

Qu’en est-il de la foi de Descartes sur le plan biographique ? Quelle était la nature de son rapport à la religion ?
C’est là une question difficile et polémique, Descartes ayant fait l’objet d’attaques pluriséculaires quant à la sincérité de sa foi. Pourtant, tous les témoignages dont nous disposons tendent à décrire un Descartes profondément catholique et, plus encore, profondément pieux. Le Père François Viogué, peu suspect de sympathie excessive envers Descartes, remit lui-même un rapport sur la pratique catholique de celui-ci, dont je vous cite un court extrait qui parle de lui-même : « pendant qu’il fut en santé (or il y fut toujours, excepté neuf jours avant sa mort) il ne manqua jamais d’assister tous les dimanches et Fêtes à la Sainte Messe ; à la prédication ; et l’après-dîner à Vêpres. Il s’est confessé et a communié avec grands sentiments de la religion chrétienne, apostolique et romaine, avec beaucoup d’édification des assistants. » Biographiquement, Descartes est donc assurément catholique ; mais, puisque tout est toujours subtil avec lui, cela ne signifie pas pour autant que le Dieu qu’il dépeint dans ses œuvres soit le Dieu catholique ; en d’autres termes, les croyances personnelles de Descartes sont une chose, le Dieu de ses écrits en est une autre. Le Dieu cartésien, c’est-à-dire le Dieu dont l’existence est accessible à la raison, est un Dieu de puissance infinie – ce que j’appelle l’ens ut potentia (l’être en tant qu’il détient la puissance) – qui n’a de chrétien que l’épreuve de l’intimité avec l’esprit humain qu’Il suscite à qui prend le temps de sonder le sens de ses propres idées.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O mais escandaloso ato


O cristianismo, vede bem, não é uma simples escola de saber, da purificação e justiça, ou uma explicação nobre e racional da vida; ou um código nobre de comportamento; ou uma terapêutica evasionista; ou um conjunto de perguntas; ou um ato de submissão diante do Único. É muito mais e mais distinto: é o ensinamento de Cristo, ou seja, do amor e do poder salvador de perdoar. Nenhuma religião concebe o corrigir dos pecados por outro modo senão pelo caminho da lógica da compensação; apenas na religião em que Deus não recebe sacrifícios, mas se sacrifica Ele mesmo, pôde aparecer a esperança da limpeza total e instantânea dos pecados, pelo mais atemorizador e anticontabilista – portanto o mais escandaloso – ato.

[Nicolae Steinhardt, monge ortodoxo romeno, 1912 – 1989]

Descoberto em Ed René Kivitz.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Cristãos dos quais não me envergonho: Blaise Pascal


"O coração tem razões que a própria razão desconhece". O autor dessa conhecida frase foi Blaise Pascal, um matemático brilhante, filósofo e pesquisador.

O pai de Pascal, Étienne, era um magistrado da "nobreza de toga" francesa em Clermont, isto é, pertencia à rica burguesia que conquistara postos públicos de destaque. Tinha vastos interesses culturais e era inclinado aos estudos científicos e matemáticos.

Quando Blaise tinha 3 anos, ficou órfão de mãe. O pai decidiu abandonar a carreira jurídica e se dedicar à educação do filho. Mudou-se para Paris, com o menino e as duas filhas. Na capital francesa entrou em contato com cientistas e matemáticos e Blaise o acompanhava nessas reuniões. Mas Étienne havia decidido que o filho não estudaria latim antes dos 12 anos, nem matemática antes de completar os 15 anos.

Para isso, tirou de casa todos os textos matemáticos. Mas o menino era curioso e começou a estudar Geometria sozinho, aos 12 anos. Ele descobriu que a soma dos ângulos de um triângulo era igual a dois ângulos retos: era a 32ª proposição de Euclides. Quando seu pai tomou conhecimento disso, desistiu da idéia inicial e deu a Blaise o livro "Os Elementos", de Euclides.
Pascal continuou a se revelar precoce.

Aos 19 anos, vivendo com a família em Rouen, inventou a máquina aritmética, uma calculadora mecânica, que permitia a qualquer um somar, subtrair, dividir e multiplicar - sem saber aritmética. Levou dois anos para produzir a máquina, trabalhando com artesãos. Seu objetivo era ajudar o pai, que na época trabalhava como coletor de impostos.

Blaise Pascal tinha completado 23 anos quando conheceu dois religiosos ligados ao jansenismo. Tratava-se de um movimento religioso que tentava restaurar a intensidade da fé católica e uma disciplina religiosa severa, a "perfeição da moral cristã" dos primeiros séculos do cristianismo.

Esse encontro teve resultados na formação do jovem Pascal, que se tornou profundamente religioso. Foi nessa época que tomou conhecimento da experiência de Torricelli (1608-1647) com a pressão atmosférica e começou uma série de experimentos, que o levariam a provar a existência do vácuo.

O filósofo Descartes, que visitou Pascal, não acreditou na descoberta do rapaz. Depois de debater com ele por dois dias, foi embora e escreveu uma carta para Huygens, dizendo que Pascal "tinha muito vácuo em sua cabeça".

Pascal também pesquisou problemas matemáticos relacionados aos jogos de dados. Esses estudos o levaram a formular o cálculo das probabilidades, Aleae Geometria (Geometria do acaso). Outro resultado dessas pesquisas com jogos foi o Triângulo de Pascal, uma tabela numérica.

Depois do falecimento de Étienne Pascal, Blaise escreveu a uma de suas irmãs discorrendo sobre o sentido cristão da morte. Essas idéias formaram a base de um trabalho filosófico que ele publicaria anos depois, "Pensamentos". Nessa obra, Pascal afirma: "Se Deus não existe, não se perde nada acreditando nele, mas se ele existe, perde-se muito não acreditando".

Pascal aplicou-se nos estudos de matemática e física escrevendo, em 1653, o "Tratado do Equilíbrio dos Líquidos", no qual explicou a lei da pressão. Foi uma importante contribuição para a física. Ele também produziu importantes teoremas em geometria progressiva. Outra obra sua é o "Tratado sobre as Potências Numéricas", em que trata da questão dos "infinitamente pequenos".

Continuando a estudar o tema, investigou como calcular a área de ciclóide, a curva traçada por um ponto da circunferência que rola sem deslizar sobre uma reta. O método criado por ele para estabelecer essa área tornou possível descoberta do cálculo integral, anos mais tarde, por Leibniz, matemático alemão, e Isaac Newton, físico inglês.

Texto de UOL Educação.

sábado, 9 de junho de 2012

Aquela distinção apaixonada


Mas enquanto a maioria dos filósofos e comentaristas contemporâneos saudava essa grande nivelação da cultura como sinal da democratização da sociedade, Kierkegaard acreditava que ela poderia representar um declínio na coesão social, um festim de reflexão interminável e desinteressada, o triunfo de um curiosidade intelectual infinita mas rasa que acabaria impedindo um compromisso profundo, significativo e espiritual com qualquer questão particular.

“Nem mesmo um dos que pertencem ao público tem um compromisso essencial com o que quer que seja”, Kierkegaard observava amargamente em seu diário. De repente as pessoas começavam a interessar-se por tudo e por nada ao mesmo tempo; todos os assuntos, não importava quão ridículos ou sublimes, estavam sendo equalizados de tal modo que nenhuma causa importava mais o bastante para se morrer por ela. A terra estava se tornando plana, e Kierkegaard odiava a ideia. Para ele, todas as conversas produzidas nos cafés só estavam levando “à abolição daquela distinção apaixonada entre ficar quieto e falar”. E o silêncio para Kierkegaard era importante, porque “só a pessoa essencialmente capaz de ficar quieta é capaz de falar de modo essencial”.

Para Kierkegaard, o problema com a crescente conversação – epitomada pela “absolutamente desmoralizante existência da imprensa diária” – era que ela existia do lado de fora das estruturas políticas e exercia muito pouca influência sobre elas. A imprensa forçava as pessoas a desenvolver opiniões veementes a respeito de todos os assuntos, mas raramente motivava o impulso de agir em conformidade com elas. Com frequência as pessoas encontravam-se tão inundadas de opiniões e de informação que acabavam adiando indefinidamente qualquer decisão importante.

A falta de compromisso, ocasionada pela multiplicidade de possibilidades e pela fácil disponibilidade de rápidos paliativos espirituais e intelectuais, é que era o verdadeiro alvo da crítica de Kierkegaard. Ele acreditava que era só fazendo compromissos – um de seus termos favoritos – arriscados, profundos e autênticos; que era só discriminando entre diferentes causas e lidando com os triunfos e os desapontamentos dessas escolhas e aprendendo com as experiências resultantes, que as pessoas alcançavam a sabedoria e enchiam suas vidas de significado. “Se você é capaz de ser um homem, o perigo e o severo julgamento de existir irrefletidamente irá ajudá-lo a tornar-se um” é como ele resumia a filosofia que viria a ser conhecida como existencialismo.

Não é difícil imaginar o que Kierkegaard teria pensado da cultura da internet dos nossos dias, dominada por um ciclo de 24 horas de sabichonice e de um compromisso fluido com ideias e relacionamentos. “O que Kierkegaard via como a consequência de uma cobertura irresponsável e descomprometida por parte da imprensa alcançou sua plena concretização na internet”, escreve Hubert Dreyfus, filósofo da Universidade da Califórnia em Berkeley. Um mundo em que professar o comprometimento pessoal com a justiça social não requer mais do que redigir um status socialmente consciente de Facebook teria despertado em Kierkegaard o mais profundo rancor.

Evgeny Morozov, em The Net Delusion

Descoberto na Bacia das Almas.

terça-feira, 5 de junho de 2012

La laïcité en France, un athéisme d'Etat ?


Propos recueillis par Matthieu Mégevand - publié le 30/01/2012

A l’occasion de la sortie de son dernier livre, La laïcité falsifiée (Editions La Découverte), rencontre avec Jean Baubérot, professeur honoraire de la chaire histoire et sociologie de la laïcité à l’Ecole pratique des hautes études.

Jean Baubérot © Bertrand Guay / AFP

Pourquoi, selon vous, la laïcité telle qu'elle est comprise aujourd'hui ne correspond pas à la laïcité "historique" de 1905 (et donc en quoi est-elle "falsifiée")?
La laïcité, et notamment la laïcité historique, est une réalité assez complexe, puisqu’elle met en jeu, à la fois la neutralité de la puissance publique avec la loi Jules Ferry, et la séparation des Eglises et de l’Etat avec la loi de 1905. Les fondateurs de la laïcité ont toujours expliqué qu’il s’agissait-là de moyens, d’instruments, en vue de réaliser la liberté de conscience de chacun comme liberté publique, et l’égalité de tous les citoyens devant la loi. Pourtant, la tendance de l’opinion a souvent été de réduire la laïcité à un problème, non pas du point de vue social mais de celui de l’actualité.

Depuis 1989, la tendance est de réduire la laïcité à la visibilité de la religion dans l’espace public et à une neutralité qui ne s’applique plus seulement à l’Etat mais aussi aux individus, ou en tout cas à certains d’entre eux. Evidemment, tout ceci est lié à l’augmentation des flux migratoires et aux craintes que cela inspire, ainsi qu’au fait que l’islam soit devenu la deuxième religion de la métropole. Le problème, c’est qu’on hypertrophie désormais la neutralité de l’espace public et qu’on interprète autrement la loi de 1905 en limitant la liberté de conscience. On l’a vu lors d’une dernière décision du tribunal administratif sur des femmes faisant de l’accompagnant scolaire et qui portaient le foulard, indiquant qu’il n’y avait pas [en leur interdisant le port du voile] d’atteinte "excessive" à la liberté de conscience. Cela constitue un glissement très net par rapport à la loi de 1905 qui dit que la République "assure" la liberté de conscience des citoyens. Plus grave encore, on a quitté cette égalité devant la loi de manière structurelle en demandant au Haut Conseil à l’Intégration (HCI) de faire des propositions en matière de laïcité, ce qui signifie symboliquement que la laïcité s’applique d’abord aux immigrés et descendants d’immigrés, et pas à tous les citoyens.

En quoi cette "nouvelle laïcité" stigmatise-t-elle, selon vous, la minorité musulmane?
Lorsque l’on dit que la loi de 1905 doit être constitutionnalisée, mais qu’il n’est pas question de l’appliquer aux alsaciens-mosellans, on voit bien qu’on est arrivé à un point où quand on pense laïcité on ne pense plus à toute la population. Car il faut bien comprendre que, pour le moment, l’Alsace-Moselle est la dérogation la plus importante à la laïcité, puisque les alsaciens-mosellans n’ont ni la loi Jules Ferry (l’école n’est pas laïque), ni la loi de 1905 (pasteurs, prêtres et rabbins sont payés par l’Etat). Cela montre bien que l’on ne pense pas global quand on pense laïcité. On peut bien sûr avoir des débats sur le degré de laïcité qui doit être le meilleur, car la laïcité n’est jamais absolue - ne serait-ce que parce qu’il faut articuler les différents principes, neutralité, séparation, liberté de conscience, égalité des citoyens.

On peut donc avoir des opinions différentes sur quel degré de laïcité convient le mieux. Mais, ce qui ne convient pas, c’est quand la laïcité est dure pour les uns et tendre pour les autres. La laïcité doit être égale pour tous, or le HCI, - qui ne va évidemment pas s’intéresser par exemple à la bioéthique et au débat sur la séparation entre loi civile et morale religieuse, ou à l’Alsace-Moselle - ne va envisager la laïcité que par rapport aux immigrés et aux descendants d’immigrés. De plus, la Haute autorité de lutte contre les discriminations a été supprimée, et celle-ci veillait à ce que la laïcité soit la même pour tous. Cela finit logiquement par cibler une catégorie de la population, et il y a donc, de fait, une véritable discrimination institutionnalisée, ce qui est très grave.

Vous dites qu'il y a aujourd'hui une confusion entre laïcité et sécularisation, pourquoi?
En 1905, le catholicisme dominant était ce que les historiens appellent un catholicisme intransigeant. Or la loi de 1905 n’a pas du tout dit que le catholicisme devait se "républicaniser", devenir un catholicisme modéré, libéral etc. Il a simplement été stipulé que le catholicisme n’était plus la religion officielle en France, et que chacun devait vivre sa foi comme il l’entendait, dans le respect des autres et de la tolérance civile. L’évolution de la religion dépendait donc de la compréhension de chacun et d’un processus interne de l’Eglise catholique, et ce n’est pas la République qui décidait de quoi que ce soit. La meilleure preuve c’est que l’Etat a refusé d’interdire le port de la soutane dans l’espace public, et ce sont les prêtres eux-mêmes qui ont, pour la plupart, après Vatican II, abandonné la soutane. La République n’a donc rien imposé.

La laïcité, et ce jusqu’à aujourd’hui, est censée permettre de vivre, dans la paix sociale, des rapports différents à la sécularisation selon qu’on soit proche ou distancié de la religion dans son cœur doctrinal, rituel etc. La laïcité n’a donc pas à imposer aux gens de se séculariser car cela devient une atteinte à leur liberté de conscience. Or, actuellement, on confond laïcité et sécularisation, et le Haut Conseil à l’Intégration le revendique d’ailleurs fièrement puisqu’il déclare que "dans une société sécularisée il n’est pas possible de faire ceci ou cela". Cela est totalement anormal, ce n’est plus de la laïcité mais quelque chose qui comporte des éléments d’un athéisme d’Etat. On veut donc forcer certaines populations à se séculariser, ce qui d’une part est totalement inefficace puisque l’histoire montre que chaque fois qu’on a voulu porter atteinte à la liberté de religion on a produit des raidissements chez les gens, et d’autre part cela est une mécompréhension totale de l’intention de laïcité, et va même à l’encontre de la loi de 1905.

A lire :

Jean Baubérot, La laïcité falsifiée, Editions La Découverte, 17 €., 212 p.


domingo, 3 de junho de 2012

"Grec est celui qui croit en Jésus"



Alors que la Grèce traverse la pire crise économique et financière de son histoire moderne, les exemptions d’impôts dont bénéficie la puissante Eglise grecque orthodoxe - avec un patrimoine estimé à 3 milliards d’euros - provoquent de vives controverses. Ces privilèges fiscaux, que peu d’hommes politiques osent remettre en question, s’expliquent par les liens étroits entretenus entre l’Eglise et l’Etat qui ne sont pas séparés. L’un des premiers articles de la Constitution grecque, dont le préambule invoque la Sainte Trinité, reconnaît l’existence d’une "religion dominante" (epikratousa thriskia), celle de l’Eglise chrétienne orthodoxe orientale.

"Les Grecs ont un rapport fusionnel avec l‘Eglise"

La première Constitution du pays, rédigée en 1822, indique que "Grec est celui qui croit en Jésus". L’Eglise orthodoxe grecque est nationale et autocéphale. La religion est l’un des éléments fondateurs de l’identité grecque. L’Eglise a joué un rôle important lors de la guerre d’indépendance (1921-1930) et a contribué à la formation de l‘Etat. "Les Grecs ont un rapport fusionnel avec l‘Eglise qui est trop liée à l’histoire et à la mémoire collective du pays pour que son rôle politique et ses privilèges fiscaux puissent être remis en question", analyse l’historienne Meropi Dumont, enseignante chercheuse à l’Inalco (Institut national des langues et civilisations orientales).

Influent dans la vie sociale et politique du pays, le clergé bénit les prestations de serments de chaque nouveau gouvernement. Ou les élèves, qui apprennent le catéchisme à l'école, lors des rentrées scolaires. Les salaires des prêtres, considérés comme des fonctionnaires, sont pris en charge par l’Etat. Si les revenus de l’Eglise et les biens qu’elle exploite commercialement sont imposables, l’institution bénéficie de nombreuses exonérations fiscales. Et ne paie pas de taxe foncière alors que sa fortune foncière et immobilière est estimée à près de 1 milliard d'euros.

"Pallier les déficiences de l’État"

L’Eglise répond aux critiques en invoquant ses activités de charité qui se sont accrues avec la crise. " Si l’Etat avait géré ses comptes comme l’Eglise, il n’ y aurait pas eu de crise. Il vaut mieux que cet argent aille à l’aide aux plus démunis plutôt qu’il ne serve à rembourser la dette", s’insurge Jean Nouri, catéchèse à la cathédrale orthodoxe Saint Stéphane de Paris. " L’Eglise , qui a joué un rôle crucial depuis le début de la crise, pallie réellement les déficiences de l’État dans le domaine social ", estime Elisabeth Diamatopoulou, sociologue grecque spécialiste de l’orthodoxie.

Dans les seules 74 paroisses de l’archevêché d’Athènes, 10 000 repas sont distribués chaque jour. Plusieurs centaines d’hospices, de maisons de retraite et d’orphelinats sont gérés par l’Eglise. Qui a, selon un rapport interne, dépensé 96,2 millions d'euros pour assurer le fonctionnement de son réseau d’œuvre philanthropique en 2010. L’institution n‘a pas pris de position officielle concernant les plans d’austérité successifs appliqués en Grèce.

Mais l’Archevêque d’Athènes et de toute la Grèce, a mis en garde les responsables européens, dans une lettre adressé au président de la commission européenne José Manuel Barroso en octobre 2011, contre "l’irrespect de la dignité humaine, et l’absurdité d’un nouveau modèle social qui n’a rien en commun avec l’histoire de l’Europe". "Sans faire de la politique partisane, l’Eglise s’oppose à un système de financiers et de technocrates qui prennent des mesures asphyxiantes pour la population", estime Alexis Chryssostalis, enseignant à l’Institut de théologie Saint-Serge de Paris et producteur de l’émission "Orthodoxie" sur France culture.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

"Os desigrejados: procura-se uma boa igreja. Procuram-se bons pastores"


Falar de catolicismo no Brasil é falar de pelo menos duas importantes categorias: os católicos praticantes e os católicos não praticantes. Segundo levantamento da PNAD, corroborado pelo Censo, e pela vivência que experimentamos no cotidiano, a maioria dos católicos não vivencia sua fé com muita regularidade. Pelo menos nos grandes centros, a assiduidade se limita a eventos marcantes, ritos de passagem, como o são o batismo, a primeira comunhão, a crisma e o casamento.

Em termos de mundo protestante/evangélico, no entanto, para além dos ritos de passagem que sempre lotam as igrejas, uma categoria de análise a mais se nos apresenta: temos os evangélicos diretamente ligados a uma igreja (praticantes), temos os afastados (não praticantes), desiludidos por conta de alguma decepção eclesiástica, quase sempre ligada a problemas de relacionamento, e temos os que agora parecem estar bem mais “na moda”; os desigrejados (praticantes, mas sem líderes e sem um ambiente formal de prática).

Os desigrejados não são pessoas que se afastaram da fé. Não são pessoas que decidiram “chutar o balde”, caindo na gandaia do mundão, e fazendo tudo o que a igreja chama de pecado ou desvio da fé e conduta cristã. Não, os desigrejados não são pessoas que estão abandonando os ensinos de Jesus Cristo, bem como não são pessoas decepcionadas com Deus ou com a Bíblia. Os desigrejados são simplesmente ovelhas que não têm pastor; é gente séria, procurando igreja séria, mas sem qualquer sucesso nesta empreitada.

Tais desigrejados surgem no início do século XXI, como resposta à polarização que se efetivou com muita força no mundo evangélico brasileiro da última década. Cansados de um neopentecostalismo avassalador – e de sua teologia da prosperidade – de um lado, e de um moralismo castrador, de igrejas demasiado conservadoras, de outro, os desigrejados formaram o grupo mais interessante do movimento evangélico contemporâneo, haja vista ter fomentado – e estar fomentando – uma série de reflexões acerca da caminhada da igreja evangélica brasileira.

Justamente por conta de uma séria reflexão sobre o seu lugar na igreja e no mundo, este grupo tem chamado bastante a atenção, uma vez que, ávidos por uma mensagem bíblica profunda e sincera (daquelas que não partem da premissa de que os ouvintes são idiotas alienados), aliada a uma relevância social num mundo deveras desigual e corrompido, os sem igreja se nos apresentam como um importante grupo a se conquistar.

Os desigrejados não estão em busca de prosperidade material e nem de milagres sem limites e a qualquer custo. Em geral, é gente com boa condição financeira e de saúde. Além disso, por conta da formação que conseguiram ter e pela reflexão que desenvolvem, essas pessoas pedem bem pouco de uma igreja e de um pastor. Assim, nem é tão difícil responder às suas demandas, pois rapidamente se pode enxergar a essência do cristianismo naquilo que tal grupo pleiteia, já que nossos irmãos pedem apenas um pastor que tenha ouvidos realmente interessados em ouvir e ombros realmente interessados em suportar o peso de uma ovelha, como quer o Evangelho.

Talvez já estejam em curso as estratégias para reintegrar tal grupo a uma comunidade de fé. No entanto, dogmatismos e intolerâncias sem limites não ajudarão em nada, pois a maioria dos pastores não tem a formação e as informações de que dispõem os desigrejados. Do mesmo modo, promessas mirabolantes não estão na ordem do dia, já que, para um desigrejado, papo de Malafaia, Valdemiro, Macedo, Miguel Ângelo, dentre outros, já se tornou, no mínimo, mensagem de procedência maligna.

liberdade, beleza e Graça...