quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Quando a fé se torna idolatria

Nunca (4) foi uma boa tendência - e ela aparece em vastas áreas do protestantismo mais recente - elevar a fé à condição de termo central, de cárater ôntico, e, passando para o segundo plano o objeto essencial da teologia, fazer da fé, como verdadeiro evento salvífico, o tema da teologia, ou seja, querer compreender e praticar a teologia como pisteologia, isto é, como ciência e doutrina da fé cristã. Quem faz isso busca na Bíblia e na história eclesiástica primariamente só testemunas da fé e, quiça, heróis da fé, assume tudo o que seria preciso considerar e dizer com vistas à obra e à palavra de Deus tão-só como reflexões ou enunciados da fé, elimina - de forma tácita, ou então mediante expressa desqualificação - o que parece subtrair-se a tal método, como se no Credo da Igreja o termo credo ["creio"] como tal fosse a verdadeira confissão. Como se a pessoa, ao invés de crer em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, tivesse de crer na fé da Igreja, expressa em tais termos sublimes, e, em última análise, em sua própria fé e como se tivesse de confessar a esta! [...] A fé é a conditio sine qua non ["condição indispensável"], mas não é (como poderia chegar a sê-lo?) o objeto nem, portanto, o tema da ciência teológica. Seu verdadeiro objeto requer a fé, mas resiste à tentativa de fazê-la dissolver-se em reflexões e enunciados da fé. Quem não quiser reconhecer este fato não deverá se admirar da infrutífera labuta que, em conseqüência, se lhe tornará o trabalho teológico.

Dentre as muitas "habilidades" humanas, a capacidade de criar ídolos é uma das mais surpreendentes. A todo momento procuramos uma maneira de fugir de Deus. Até mesmo coisas que parecem totalmente ligadas a Deus podem nos afastar dele. No fim da década de 1960, Karl Barth chamava a atenção para o fato da fé se colocar no lugar do Senhor. Sem dúvida, é um pequeno deslize, mas é o bastante para que abandonemos o "objeto" de nossa adoração. Daí o interesse se voltar quase que exclusivamente para "heróis da fé'.

A partir disso, é mais fácil entender coisas como a teologia da prosperidade. Afinal de contas, quando se substitui Deus pela fé (um ídolo forjado por mãos humanas), quando não estamos mais diante do Inefável, não se teme mais usar a fé em favor de dinheiro sem fim.

Ao que me parece, boa parte do cristianismo brasileiro sofre dessa idolatria. Um exemplo perfeito e recente dessa situação é a música  do grupo Renascer Praise.


Clovis Pinho e Bpa. Sonia Hernandes e Esdras Gallo

Fé é a certeza do que não pode  se  ver
A esperança que do céu vem para acender
Chama viva em nós, que move o coração de Deus
E traz à existência até o impossível.
Fé que muda a historia de quem crê
E o tempo faz até retroceder
Pela fé tenho forças para tocar em   Deus
(Refrão)
Pela fé eu posso ver o impossível
Já me enxergo no milagre, que eu sei que vou viver
É a fé que me protege do inimigo
Pela fé eu vou eu vou lutar pela fé eu vou vencer
Pela fé em Ti Jesus, vou viver!
Aleluia Aleluia Aleluia


Por fim, pense você mesmo: este é realmente um louvor que produz temor ao Senhor? Nossa adoração realmente está voltada para Deus?