terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Uma filosofia do cogito ferido: Paul Ricoeur

"Ora, como o observa Olivier Mongin, cujas pequenas notas editoriais são sempre elucidativas, a pecha de filósofo cristão foi, e é, um dos motivos mais freqüentemente alegados para rejeitar – aliás geralmente sem estudá-la minimamente – a reflexão de Ricoeur. Rejeitado como criptoteólogo por alguns, reivindicado como pensador cristão por outros, Ricoeur teve de lutar em ambas as frentes: contra seus críticos, mostrar que sua filosofia não se reclama, na sua argumentação interna, de sua fé; contra seus admiradores, que seu pensamento filosófico não oferece fundamentação racional para crença alguma. Pelo contrário, afirma que sempre tratou de distinguir cuidadosamente entre seus trabalhos mais teológicos (sobretudo de exegese bíblica) e filosóficos, que ele sempre quis e quer “manter, até à última linha, [como] um discurso filosófico autônomo”. Continua ele, no prefácio a Si mesmo como um outro, citado por Mongin na nota editorial do terceiro volume das Leituras: “Observar-se-á que esse ascetismo do argumento, que marca, creio eu, toda a minha obra filosófica, conduz a uma filosofia da qual a nominação efetiva de Deus está ausente e na qual a questão de Deus, enquanto questão filosófica, permanece em um suspense (melhor: ‘em suspensão’) que podemos chamar de agnóstico”. Em outras palavras: a fé cristã (que Ricoeur nunca negou professar) não intervém como fundamento religioso-mágico, como Deus ex machina ou, numa vertente mais refinada, como o Deus dos filósofos. A reflexão de Ricoeur poderia ser chamada, segundo sua bela expressão sobre seu amigo Pierre Thévenaz, o filósofo suíço prematuramente morto, uma “filosofia sem absoluto”".

A arquitetura dos tecidos

"Depois do boom de estudos sobre o genoma e as proteínas, os pesquisadores das ciências biológicas voltam agora sua atenção para os processos de diferenciação celular envolvidos no desenvolvimento de cada indivíduo, desde o embrião até a fase adulta".


Veja mais em A arquitetura dos tecidos.

Os pastores feiticeiros e seu evangelho pagão

O (neo)pentecostalismo há anos tem se mostrado uma gritante deturpação do evangelho de Cristo, apesar disso seu crescimento é notório. Por vezes, alguns (neo)pentecostais nem ao menos se dão conta de que o são. Isso acontece porque, às vezes, alguns casos por demais grotescos não são endossados por todos os (neo)pentecostais; a partir disso eles acreditam estar defendendo o evangelho de Cristo e negam a alcunha de (neo)pentecostais. Estes casos, contudo, na maior parte das vezes não estão em discordância com a crença geralmente proclamada como verdadeira por esta seita. Vejamos um exemplo.


"Pastores da Igreja Universal do Reino de Deus inovam. Pela TV, em Brasília, prometem bom desempenho em concursos públicos. O fiel só precisa levar caneta ou comprovante de inscrição ao templo para ser ungido.

O discurso? “Se Deus te iluminar, te der a direção, nada dá errado”". Extraído de Estadão.

"O pior dessa notícia é que tem uma lógica danada. Literalmente, a lógica é danada. É dos quintos dos infernos. Mas faz todo o sentido dentro da cosmovisão religiosa popularmente identificada como cristã, isto é, da subcultura sociologicamente definida como segmento religioso que se pretende cristão. Senão, observe.

. Para quem crê em um Deus intervencionista, que se mete no cotidiano da vida humana vindo de fora (de outro mundo, da sala do trono, ou sei lá de onde), qual é o problema de pedir a Deus que favoreça um dos seus filhos em um concurso público?

. Para quem acredita em unção como ritual litúrgico, e sai por aí passando óleo e azeite em portas e janelas, carros, pessoas, animais de estimação, propriedades, galpões empresariais e escritórios, e outras coisas mais, qual é o problema de ungir ritualisticamente uma caneta ou uma ficha de inscrição para um concurso público?

. Para quem acredita que Deus revela segredos aos seus filhos, fala pela boca dos profetas e dá palpite na vida dos outros, qual é o problema em pedir uma iluminação ou uma direção, tipo informação privilegiada, como ajuda para o êxito num concurso público?

. Para quem acredita que o templo é a Casa do Senhor, e que os pastores, bispos, apóstolos e patriarcas são Servos do Senhor, pessoas especiais, com uma unção especial de Deus, qual é o problema de participar dessa unção ritualística no Templo Sede Internacional e receber a benção do homem de Deus antes de atravessar o desafio de um concurso público?

. Para quem faz promessas de subir escadas de joelhos, realiza peregrinações carregando cruz nas costas, amarra fitinhas de santos no pulso, pendura no pescoço colares benzidos nos terreiros, carrega santinhos na carteira, ou participa de correntes da fé em busca de bençãos materiais e soluções para problemas circunstanciais, qual é o problema de ungir a caneta ou a inscrição para o concurso público?

Em síntese, apesar de grotesca e de causar espanto, respeitada a lógica religiosa popular cristã, não há nada de errado nessa prática noticiada pela Agência Estado. O desafio é responder se essa lógica expressa de fato o Evangelho de Jesus Cristo". Extraído de Ed René Kivitz.

É preciso dizer mais?

sábado, 28 de janeiro de 2012

O poeta do castelo (1959)


Documentário de Joaquim Pedro de Andrade. Elenco: Manuel Bandeira.

Versos de Manuel Bandeira, lidos pelo poeta, acompanham e transfiguram os gestos banais de sua rotina em seu pequeno apartamento no centro do Rio; a modéstia do seu lar, a solidão, o encontro provocado por um telefonema, o passeio matinal pelas ruas de seu bairro.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Se ele era inocente


Jesus era do ponto de vista do Sumo Sacerdote um herege e um impostor, do ponto de vista dos comerciantes um agitador e um comunista. Do ponto de vista imperialista dos romanos era um traidor, do ponto de vista do senso comum um louco perigoso. Do ponto de vista do esnobe, que exerce sempre grande influência, era um vagabundo sem um tostão.

Do ponto de vista da polícia ele era obstruidor das vias públicas, pedinte, aliado de prostitutas, apologista de pecadores e depreciador de juízes; seus companheiros eram vadios que tinham sido seduzidos de seus ofícios regulares para uma vida de vagabundagem. Do ponto de vista dos devotos Jesus era um violador do sábado, negador da eficácia da circuncisão, advogado do rito estranho do batismo, glutão e bebedor de vinho. Era odiado pela classe médica por praticar a medicina sem qualificação, curando as pessoas por curandeirismo e sem cobrar pelo tratamento.

Ele era contra os sacerdotes, contra o judiciário, contra os militares, contra a cidade (tendo declarado que era inconcebível que um rico entrasse no reino do céu), contra todos os interesses, classes, principados e potestades, convidando a todos que abandonassem essas categorias e o seguissem.

Por todos os argumentos legais, políticos, religiosos, do costume e da polidez, Jesus foi o maior inimigo da sociedade do seu tempo já colocado atrás das grades. Era culpado de cada acusação feita contra ele, e de muitas outras que não ocorreu a seus acusadores levantar. Se ele era inocente, o mundo inteiro era culpado. Inocentá-lo seria atirar pela janela a civilização e todas as suas instituições. A história confirma o litígio contra ele, pois nenhum Estado jamais constitui-se sobre os seus princípios ou tornou possível viver de acordo com os seus mandamentos; os Estados que assumiram o nome dele foi para usá-lo como credencial que os habilitasse a perseguir os seus seguidores de modo mais plausível.

Bernard Shaw, no prefácio de On the rocks (1933)

Sabedoria e mortalidade

"O mesmo fruto que nos deu o dom da sabedoria (porque, na história, o conhecimento do bem e do mal é uma coisa boa, um verdadeiro dom e atributo de Deus) nos vedou o acesso à imortalidade. O preço de ser sábio é ser mortal, e a compensação de ser mortal é ser sábio. É menos a história da queda do que a história das contradições da condição humana.

De certo modo, essa história fundacional de Gênesis antecipa o que acabaram concluindo antropólogos, psicólogos e pensadores existencialistas muito tempo depois: a angústia da condição humana e sua simultânea glória reside no fato de sabermos que nossos dias estão contados. Os animais não chegarão a ser sábios porque não sabem que vão morrer".

Veja mais em Sabedoria e mortalidade.

Sobre a qualidade de vida para a cidade de São Paulo

Fernando Henrique Cardoso mostra como a cidade de São Paulo se desenvolveu e sobre o momento de se promover os próximos passos rumo à qualidade de vida na cidade de São Paulo. Ex-presidente fala do orgulho pela cidade onde vive durante discurso de lançamento da plataforma Sua Metropole no anfiteatro da Fundação Armando Alvares Penteado.



Por que não sou calvinista

"Um desejo deslocado de honrar a “ Sagrada Escritura” leva muitos calvinistas a ler a Bíblia como um livro de declarações verdadeiras. O problema, em minha opinião, é menos a identificação deles da Bíblia com a Palavra de Deus do que a teoria de significado e referência que têm. Uma imagem de significado mantém os calvinistas presos. Essa imagem equaciona o significado de um texto com seu referente, isto é, com sua correspondência tradicional empírica. Sem testar as leituras, tanto subjetivas quanto objetivas na prática, os idealizadores da “tradição reformada” não são consistentes literais como dizem ser .Quando uma leitura bíblica,  social , histórica ou científica parecer problemática para seu próprio ponto de vista, eles alteram para uma leitura não literal. Ou seja, o letrismo  reformado de hoje deixa claro que muitos (por acalentados próprios, e dogmas pessoais) não despertaram do sono reformado da razão, tradição e experiência de uma época. Não entenderam que, da mesma forma que os reformadores do século XVI redimiram o texto e, dessa forma, a possibilidade de conhecimento literário, nós temos que redimir o texto em nossa época".

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Por que duvidam da evolução?

"Essa desconfiança do conhecimento científico é muito estranha, dada a nossa dependência dele no século 21. (De onde vêm os antibióticos e iPhones?) O problema parece estar ligado ao Deus-dos-Vãos, a noção de que quanto mais aprendemos sobre o mundo, menos Deus é necessário. Os que interpretam a Bíblia literalmente veem nisso uma perda de rumo. Se Deus não criou Adão e Eva e se não nos tornamos mortais após a “queda do Paraíso”, como lidar com a morte?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Jesus e a Igreja


Sapo amazônico espirra veneno


“Sim, sapos espirram veneno. Quando os estudantes dos cursos do Instituto Butantan perguntavam, a bióloga Marta Antoniazzi sempre dizia que não, mas agora terá de concordar. Ela própria ajudou a estudar o Rhaebo guttatus, um sapo da Amazônia, o primeiro anfíbio, ao menos no Brasil, que lança o veneno amarelado das glândulas do alto das costas quando se sente ameaçado por um possível agressor, ainda que seja apenas um biólogo”.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Confissão

"Deus eterno, em quem vivemos, nos movemos e existimos, cujo rosto está longe de nós por causa do nosso pecado e de cuja misericórdia temos nos afastado por causa da corrupção dos nossos corações, limpa-nos, te rogamos, de todas as nossas transgressões e livra-nos de pensamentos orgulhosos, de intrigas e desejos vãos, pois com humildade e mansidão nos aproximamos de ti, confiando somente em tua graça e encontrando em ti a nossa esperança e a nossa salvação. Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém".

Extraído do Livro de Oração Comum (p. 45)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Os espertalhões da fé

"Nenhum deles fica ruborizado pela insistência do pedido de ajuda, porque todos são pios devotos da “Teologia da Prosperidade”, uma doutrina pecuniária que faria o velho Lutero engolir cada uma das 95 teses que vomitou contra a cupidez da velha Roma". 

Reportagem de Luiz Cláudio Cunha em 10 de janeiro de 2012, Os espertalhões da fé.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O legado de Bonhoeffer

"[...] somos chamados a viver a fé em meio ao mundo criado e amado por Deus. Jesus sentava-se a mesa com amigos e inimigos, participava das festas e tradições do seu povo e nos chama a vivermos uma espiritualidade não alienada, mas participativa no mundo".

Veja mais aqui.

A nova reforma protestante

Reportagem de Ricardo Alexandre publicada em 02 de agosto de 2010 na revista Época, leia aqui.

Por que os evangélicos são tão crentes, mas tão feios?

"Vejo Jesus nos evangelhos com esse comportamento poético. Divertindo-se um pouco com a dificuldade de ser compreendido. Por alguma razão que os evangelhos não explicam, mas que o nosso breve olhar suspeita, Simão é apelidado por Jesus de pedra, Pedro. Quando ele demonstra ter alcançado o que era dito, Jesus se diverte com o trocadilho: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja.” Mas quando se atrapalha com os sentidos, nosso falastrão experimenta o mesmo trocadilho às avessas: “Pedro, tu és para mim pedra de tropeço.” Quase vejo Jesus com um riso indisfarçável no cantinho da boca". 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Isto é amor?

O vídeo abaixo sobre a morte de Dayanne Albuquerque foi postado por Edir Macedo.


Não é preciso muito para notar que a saída de Dayanne da igreja Universal é associada a sua morte. No Youtube vê-se o seguinte comentário: "ta ai, fez o que quis, esse é o resultado. Eu fico com Deus! tchau".

Nesses momentos eu me pergunto: Isto é amor? Como é possível que uma religião que nasce do amor de Deus (Jo 3.16) produza tanta falta de compaixão? O que deu errado? Este é um daqueles momentos em que não pode haver discordância (Fp 2.2); não importa o que se pensa sobre a onipotência divina ou sobre a vida de Dayanne; deveríamos, sem titubearmos, compadecermo-nos junto àqueles que sofrem. A única atitude que se pode esperar de um cristão numa situação destas é a prática do amor de Cristo. Nada mais!

"E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave". (Ef 5.2)

Consciência Vigiada

"Pouca gente conhece profundamente um testemunha de Jeová. Não é sem motivo: os membros dessa religião pregam que pouco, ou nada se aproveita da relação com membros de outras crenças. E que somente afiliados à Sociedade Torre de Vigia viverão eternamente e em paz neste planeta. Segundo o último censo do IBGE, são 1 104 886 pessoas no Brasil.

Os convertidos à Sociedade permitem que fé organize suas relações sociais, horário, vida pessoal e relações com a família. Restringem ao máximo a rede social aos membros da religião. Ou então vivem vidas duplas.

A organização manda que ninguém dirija a palavra aos desassociados. Assim, quando alguém tem o azar de pensar diferente, perde contato com quem ama, precisa reconstruir a identidade e encontrar novas ocupações.É necessário reinventar a vida. Pouca gente conhece um ex-testemunha de Jeová. Para conhecer as histórias de duas", leia Consciência Vigiada.

domingo, 1 de janeiro de 2012

O caso dos mastodontes de barriga cheia

Um artigo muito interessante sobre mega-fauna. O único ponto problemático é que o autor parece "esconder" uma parte da discussão, pois ele parte do seguinte ponto: há um fator predominante na extinção dos mastodontes, e este pode ser de duas ordens, mudança climática ou caça. Não se explica, entretanto, como se chegou a estas conclusões. Fora isso trata-se de um bom texto,  O caso dos mastodontes de barriga cheia.

Reformados ou Deformados?

"Os riscos do presentismo: uma geração sem umbigo. Sem passado não há presente e não há futuro. Sem história não há identidade. A diferença entre a anamnese dos judeus e a amnésia de cristãos. A Igreja é uma construção de dois mil anos, desde o Pentecostes, no Oriente e no Ocidente, e a Igreja Reformada é uma construção de quinhentos anos. O Pentecostes nunca foi revogado e o Espírito Santo nunca se afastou. A heresia da “apostasia universal da Igreja”. Os Reformadores do Século XVI nunca pretenderam negar o positivo do passado e criar uma nova Igreja, mas, sim, reformar desvios, equívocos e superstições. Ser um Protestante, ser um Reformado, é conhecer, valorizar e afirmar o que Deus fez na Igreja e pela Igreja antes da Reforma. O cristão maduro procura ser edificado pela História Geral da Igreja e pela História da Igreja no Brasil, começando pelo livro dos Atos dos Apóstolos".

Entrevista de Umberto Eco

Entrevista de Umberto Eco à revista Época. Confiram Umberto Eco: "O excesso de informação causa amnésia'.