Por Luis Fernando Veríssimo
Imagine que você é o Galileu e está sendo processado
pela Santa Inquisição por defender a ideia herética de que é a Terra gira em
torno do Sol e não o contrário. Ao mesmo tempo você está tendo problemas de
família, filhos ilegítimos que infernizam a sua vida e dívidas, que acabam
levando você a outro tribunal, ao qual você comparece até com uma certa
alegria. No tribunal civil será você contra credores ou filhos ingratos, não
você contra a Igreja e seus dogmas pétreos. Você receberá uma multa ou uma
reprimenda, ou talvez, com um bom advogado, até consiga derrotar seus
acusadores, o que é impensável quando quem acusa é a Igreja. Se tiver que ser
preso será por pouco tempo, e a ameaça de ir para a fogueira nem será cogitada.
No tribunal laico, pelo menos por um tempo, você estará livre do poder da
Igreja. É com esta sensação de alívio, de estar num espaço neutro onde sua
defesa será ouvida e talvez até prevaleça, que você entra no tribunal. E então
você vê um enorme crucifixo na parede atrás do juiz. Não adianta, suspiraria
você, desanimado, se fosse Galileu. O poder dela está por toda a parte. Por
onde você andar, estará no território da Igreja. Por onde seu pensamento andar,
estará sob escrutínio da Igreja. Não há espaços neutros.
Um crucifixo na parede não é um objeto de decoração,
é uma declaração. Na parede de espaços públicos de um país em que a separação
de Igreja e Estado está explícita na Constituição, é uma desobediência,
mitigada pelo hábito. Na parede dos espaços jurídicos deste país, onde a
neutralidade, mesmo que não exista, deve ao menos ser presumida, é um
contrassenso - como seria qualquer outro símbolo religioso pendurado. É
inimaginável que um Galileu moderno se sinta acuado pela simples visão do
símbolo cristão na parede atrás do juiz, mesmo porque a Igreja demorou mas
aceitou a teoria heliocêntrica de Copérnico e ninguém mais é queimado por
heresia. Mas a questão não é esta, a questão é o nosso hipotético e escaldado
Galileu poder encontrar, de preferência no poder judiciário, um território
livre de qualquer religião, ou lembrança de religião.
Fala-se que a discussão sobre crucifixos em lugares
públicos ameaça a liberdade de religião. É o contrário, o que no fundo se
discute é como ser religioso sem impor sua religião aos outros, ou como
preservar a liberdade de quem não acredita na prepotência religiosa. Com o
crescimento político das igrejas neopentecostais, esta preocupação com a
capacidade de discordar de valores atrasados impostos pelos religiosos a toda a
sociedade, como nas questões do aborto e dos preservativos, tornou-se
primordial. A retirada dos crucifixos das paredes também é uma declaração, no
caso de liberdade.
Descoberto no Estadão.
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