quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Quando a fé se torna idolatria

Nunca (4) foi uma boa tendência - e ela aparece em vastas áreas do protestantismo mais recente - elevar a fé à condição de termo central, de cárater ôntico, e, passando para o segundo plano o objeto essencial da teologia, fazer da fé, como verdadeiro evento salvífico, o tema da teologia, ou seja, querer compreender e praticar a teologia como pisteologia, isto é, como ciência e doutrina da fé cristã. Quem faz isso busca na Bíblia e na história eclesiástica primariamente só testemunas da fé e, quiça, heróis da fé, assume tudo o que seria preciso considerar e dizer com vistas à obra e à palavra de Deus tão-só como reflexões ou enunciados da fé, elimina - de forma tácita, ou então mediante expressa desqualificação - o que parece subtrair-se a tal método, como se no Credo da Igreja o termo credo ["creio"] como tal fosse a verdadeira confissão. Como se a pessoa, ao invés de crer em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, tivesse de crer na fé da Igreja, expressa em tais termos sublimes, e, em última análise, em sua própria fé e como se tivesse de confessar a esta! [...] A fé é a conditio sine qua non ["condição indispensável"], mas não é (como poderia chegar a sê-lo?) o objeto nem, portanto, o tema da ciência teológica. Seu verdadeiro objeto requer a fé, mas resiste à tentativa de fazê-la dissolver-se em reflexões e enunciados da fé. Quem não quiser reconhecer este fato não deverá se admirar da infrutífera labuta que, em conseqüência, se lhe tornará o trabalho teológico.

Dentre as muitas "habilidades" humanas, a capacidade de criar ídolos é uma das mais surpreendentes. A todo momento procuramos uma maneira de fugir de Deus. Até mesmo coisas que parecem totalmente ligadas a Deus podem nos afastar dele. No fim da década de 1960, Karl Barth chamava a atenção para o fato da fé se colocar no lugar do Senhor. Sem dúvida, é um pequeno deslize, mas é o bastante para que abandonemos o "objeto" de nossa adoração. Daí o interesse se voltar quase que exclusivamente para "heróis da fé'.

A partir disso, é mais fácil entender coisas como a teologia da prosperidade. Afinal de contas, quando se substitui Deus pela fé (um ídolo forjado por mãos humanas), quando não estamos mais diante do Inefável, não se teme mais usar a fé em favor de dinheiro sem fim.

Ao que me parece, boa parte do cristianismo brasileiro sofre dessa idolatria. Um exemplo perfeito e recente dessa situação é a música  do grupo Renascer Praise.


Clovis Pinho e Bpa. Sonia Hernandes e Esdras Gallo

Fé é a certeza do que não pode  se  ver
A esperança que do céu vem para acender
Chama viva em nós, que move o coração de Deus
E traz à existência até o impossível.
Fé que muda a historia de quem crê
E o tempo faz até retroceder
Pela fé tenho forças para tocar em   Deus
(Refrão)
Pela fé eu posso ver o impossível
Já me enxergo no milagre, que eu sei que vou viver
É a fé que me protege do inimigo
Pela fé eu vou eu vou lutar pela fé eu vou vencer
Pela fé em Ti Jesus, vou viver!
Aleluia Aleluia Aleluia


Por fim, pense você mesmo: este é realmente um louvor que produz temor ao Senhor? Nossa adoração realmente está voltada para Deus?

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Reflexões sobre a laicidade

Há algum meses, em sua coluna no Dom Total, Johan Konings escreveu a respeito da confusão que o tema da laicidade tem levantado em nosso país. Sua argumentação é interessante, no entanto, o professor parece não ter levado seu raciocínio até o fim, deixando algumas questões abertas. Desse modo, após seu texto acrescentamos algumas reflexões.


Reina em nosso contexto muita confusão em torno da laicidade e do “Estado laico”. Diz-se, inclusive, que a Igreja não tem o direito de “intervir”(?) na discussão do aborto ou do “casamento” (como alguns insistem em chamá-lo) de homossexuais, porque estamos num “Estado laico”. Creio que uma abordagem histórica ajudará a esclarecer as trevas que envolvem essas opiniões.


O pressuposto da terminologia do “Estado laico” é a Era Constantiniana. Esta começou no século IV d.C., quando o Imperador Constantino deu à religião cristã plena liberdade e, sobretudo, quando seu segundo sucessor, Teodósio, elevou o cristianismo a religião do reino. A partir daí, criou-se uma situação de simbiose entre Igreja e Estado.


No Ocidente europeu medieval, sobretudo com os papas Gregório VII e Bonifácio VIII, essa simbiose transformou-se numa hegemonia da Igreja sobre o Estado. Interpretando de modo um tanto particular as “duas espadas” do evangelho (Lucas 22,38), Urbano VIII declara: “Uma e outra, a espada espiritual e a temporal, estão em poder da Igreja, mas esta é usada em prol da Igreja, aquela, ao invés, pela Igreja” (cf. J. Konings, Ser Cristão, Petrópolis: Vozes, 2011, p. 47). A espada espiritual é o poder religioso próprio da Igreja, a espada temporal, o poder “secular” (político, econômico etc.) do Imperador do Sagrado Império Romano-Germânico, que deverá pôr-se a serviço da Igreja. Tal era o “ideal” político-eclesiástico da alta Idade Média...


Não é de estranhar que, alguns séculos mais tarde, certo número de príncipes do Império e outros monarcas aproveitaram os cismas na Igreja, sobretudo a Reforma Protestante, para se emancipar desse poder religioso dominante. Essa emancipação teve outras dimensões além da religiosa e política, especialmente, o Racionalismo e o Iluminismo ou Ilustração. Tudo isso preparou a Revolução Francesa, que “consagrou” a separação de Igreja e Estado: o poder religioso devia ficar confinado na “sacristia”, enquanto os “laicos” (os leigos) mandariam na Sociedade. Por isso, o Estado Republicano é chamado de “laico”, ou seja, não está sob a tutela de Igreja. Isso, na França e em outros países europeus.


E no Brasil? Até o final da Monarquia, 1889, reinou no Brasil o Padroado, ou seja, um regime em que, por “concessão” da Igreja, o Monarca tutelava, como “padrão”, a Igreja e a utilizava como elo com a sociedade civil. Era uma simbiose, mas o poder “secular” tinha mais peso que o “espiritual”, o qual, em compensação, gozava muitos privilégios. Foi só depois do Império que se instalou definitivamente o “Estado laico” republicano.


Por trás da “laicidade” está, portanto, o fundo religioso do passado: o “não-clero” defendendo-se contra o clero. Ora, os tempos mudaram. O Brasil está envolvido no fenômeno que é chamado de “secularização”, ou seja, a religião – nem o catolicismo, nem outra – não é mais um poder político que esteja em competição com o Estado. Todos os brasileiros, tanto leigos como clérigos, são “seculares”, gente “deste século”, deste mundo, desta Sociedade, com os mesmos direitos civis. Em termos jurídicos civis, ser clérigo ou não é irrelevante. Se um católico, mesmo clérigo, quer exercer poder político, há de fazê-lo como cidadão, em pé de igualdade com qualquer outro cidadão.


Vejamos algumas consequências disso, por exemplo, na discussão do aborto, quanto ao aspecto político-legal. Não trato aqui do aspecto propriamente moral e teológico, que é de outra alçada. Falando em termos políticos e legais, a Igreja não pode impedir que o Estado – se ele conseguir maioria legal para seu projeto – “despenalize” em certas circunstâncias o aborto, pelo menos, se não for contra a Constituição. A Igreja pode, sim, como instância religiosa e para seu próprio fórum, pronunciar a proibição moral. E, se na Sociedade Civil, a serviço da qual está o Estado (e não o contrário!), houver uma maioria legalmente representada que se opõe a tal despenalização, deve-se admitir, democraticamente, que não seja aprovada. Isso, não em virtude da proibição pela Igreja, mas em virtude da representação democrática de uma maioria de pessoas que se guiam por determinada convicção, assim como há outros que se guiam por outra convicção.


Não se pode dizer que os que se opõem à despenalização impõem ao Estado o poder da Igreja. Fazem apenas uso de seu direito civil. Não se pode invocar contra isso o princípio da “laicidade”, o qual, a meu ver, lembra uma época político-cultural ultrapassada. Nem se pode proibir, legalmente, que os líderes religiosos façam propaganda por sua convicção. Eles são cidadãos, têm liberdade de opinião e consciência e podem expressar sua convicção, lembrando aos seus livremente “associados” as regras de fé e moral de sua “associação”.


Isto, quanto ao aspecto político-legal. Outra é a questão religiosa e moral, que deve ser examinada nos foros da teologia moral e da ética publica. É preciso lembrar a distinção dos foros e das tarefas. A política deve, certamente, levar em conta a ética, porém visando, em primeiro lugar e especificamente, ao ordenamento viável da Sociedade.

O professor está correto em afirmar que "se um católico, mesmo clérigo, quer exercer poder político, há de fazê-lo como cidadão, em pé de igualdade com qualquer outro cidadão". Desse modo, ao fazer política o católico (ou qualquer outro religioso) não o faz enquanto católico, mas como cidadão. O que significa, por sua vez, que seu discurso deve ser racional, de modo que todos seus interlocutores possam entendê-lo e dialogar com ele. Não se pode apelar a Deus ou a qualquer outra crença que não possa ser traduzida em termos que todos possam entender e, racionalmente, dialogar.

Imaginemos que a questão a ser debatida seja o divórcio (o que, de fato, já ocorreu). Suponhamos que não haja nenhum argumento contrário ao divórcio a não ser a crença religiosa da maioria dos cidadãos. É justo que esses cidadãos imponham sua crença aos demais? Não estariam eles, nesse momento, deixando de agir como cidadãos e agindo exclusivamente como católicos? A modernidade exige que as coisas sejam separadas, por mais angustiante que isso possa ser. Religião e política são esferas autônomas, regidas por regras próprias.


Esse parece ser o caso do aborto, por exemplo. Não me parece que haja nenhum bom argumento contrário ao aborto a não ser motivos religiosos. Dessa maneira, o que o país espera de seus cidadãos é que eles sejam capazes de separar as coisas. O fato de se apoiar, enquanto cidadão, o aborto não significa que se deva, enquanto católico, aprová-lo. É uma situação difícil? Sem dúvida. Mas é isso que garante a liberdade religiosa de todas as pessoas. Nada menos do que a laicidade!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Evangélicos: entre os milhões e a irrelevância



Há algumas semanas atrás o IBGE publicou um relatório que mostrou o crescimento dos evangélicos, que já representam 22,2% da população. É possível que em 2040 estejam em pé de igualdade com os católicos. Além de muitos gritos de "aleluia!", "Deus seja louvado" e "Glória a Deus! O Brasil é de Jesus!", o que os evangélicos podem oferecer à sociedade? Qual sua relevância para o Brasil?

Uma maneira para se verificar, ao menos em linhas gerais, o papel representado pelos evangélicos no Brasil pode ser feito por meio de um rápido levantamento das questões em que costumam se envolver. Afinal de contas, é por meio das grandes questões que o público em geral define seu interlocutor.

Direitos Civis



Quando falamos de direitos civis logo lembramos dos evangélicos, um caso exemplar disso é a luta dos homossexuais em busca de igualdade. Infelizmente, esses seguidores de Cristo estão do lado errado, lutando ferozmente contra a ampliação dos direitos civis. Em geral, o que se escuta deles é que "amam o pecador, mas odeiam o pecado". No entanto, como é possível acreditar nesse amor ao pecador quando se opõem à ampliação de direitos civis básicos? Parece difícil acreditar nesse amor quando se escuta o sofrível discurso de que os homossexuais querem calar a igreja.

Aliás, mesmo que se suponha que a homossexualidade seja um pecado (não entraremos no mérito da questão aqui) isto não implica no cerceamento de direitos civis. Nada explica a aversão evangélica a homossexuais a não ser o ódio. Desse modo, o que sua prática nos mostra é que eles odeiam o pecado e o pecador. Um belo exemplo de que cristãos, justamente por seguirem a Cristo, deveriam lutar pela ampliação dos direitos civis pode ser encontrado em Martin Luther King.

Política



Os evangélicos também estão presentes na política, eles formam a chamada "Bancada Evangélica". Infelizmente, sua atuação é ausente, inexpressiva e processada deixa um pouco a desejar. Boa parte de seus integrantes responde a processos judiciais (quem não se lembra da oração da propina), apesar de todos os cultos realizados no congresso. Outro grande problema enfrentado pela frente parlamentar evangélica (FPE) é a relevância. Pense em alguma proposta importante que tenha sido feita pela FPE? Difícil, né? Além de uma porção de propostas corporativistas, como propor que as igrejas paguem menos pela energia elétrica ou a grotesca cura gay, o que eles têm feito? Infelizmente nada.

Educação


No campo da educação o esforço dos evangélicos se concentra na defesa do criacionismo em oposição à evolução (houve, por exemplo, muita festa por causa da bagunça educacional na Coréia do Sul). Sobre esse tema não é preciso dizer muito, pois muita gente séria já falou sobre isso (veja um exemplo aqui). Criacionismo não é ciência, e por isso não pode ser concorrente com a evolução, uma teoria científica. Desse modo, não há razão para que se ensine criacionismo na escola. A pretensa oposição entre fé e ciência é falsa, e só é sustentada por aqueles que desejam elevar seu conhecimento ao estatuto de absoluto (infelizmente é possível encontrar esse extremismo tanto na religião como na ciência). A ciência só se opõe a certo fundamentalismo cristão, e não à fé cristã.

Teologia



Uma das contribuições mais conhecidas dos evangélicos nesse campo é a "Teologia da Prosperidade". Basicamente, trata-se de um conjunto de princípios que afirmam que o cristão verdadeiro tem o direito de obter a felicidade integral, e de exigi-la, ainda durante a vida presente sobre a terra. Seus efeitos práticos são, no mínimo, nefastos.


A liturgia evangélica também merece destaque devido ao barulho ensurdecedor ruído produzido em seus cultos. Normalmente incomodam a muitos, mas sempre alegam que estão pregando a palavra de Deus, o que, de certo modo, parece lhes permitir infringir o silêncio alheio. Sem falar que muitas vezes falam em perseguição à igreja que prega a palavra de Deus...


Por fim, o que se constata (com tristeza) é que os evangélicos são milhões que não têm nada a dizer. Daí não ser surpreendente o crescimento dos "desigrejados". Além, é claro, da imensa quantidade de piadas.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Les Églises protestantes : l'Église réformée




Qu'est-ce que l'Église réformée ? Dans le Guide de l'identité protestante, Jean-Luc Mouton et Antoine Nouis expliquent l'origine de cette branche du protestantisme.

Commencée par Martin Luther en Allemagne au XVIe siècle, la Réforme protestante s’étend en quelques années à toute l’Europe. Les idées de Luther pénètrent en France dès les années 1520, les premiers foyers «évangéliques» s’établissent à Meaux et dans le Dauphiné sous l’impulsion de Guillaume Farel. Mais c’est bien la conversion et l’action de Jean Calvin à partir de Genève qui va structurer ces Églises réformées. Dès lors, l’Europe protestante se subdivise entre luthériens et réformés.

Mais si les deux partis se fondent sur les mêmes principes, « la Grâce seule, la Foi seule, l’Écriture seule et le Christ seul », les réformés manifestent une prééminence de la Parole au détriment des sacrements. Au plan de l’organisation de l’Église, les réformés insistent plus que les luthériens sur la structure  « synodale » de l’Église. Au plan local, le pouvoir appartient au collège des anciens (presbytes) et au pasteur. Au niveau régional ou national, les « Synodes » permettent une coordination et une mise en commun.

Les réformés ont établi depuis l’origine une « discipline » pour les pasteurs et les Églises locales. Porter témoignage de la grâce signifie aussi introduire dans le monde un mode de vie différent et conforme au message de la Bible. Calvin insiste pour sa part sur « la Seigneurie du Christ » sur le monde. En découlent pour les réformés une éthique du bien faire et la volonté de témoigner concrètement par un engagement dans le monde profane de la bonne nouvelle de Jésus-Christ.


Fonte: Réforme.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sobre levitas, apóstolos e outros modismos


Sou um professor de Teologia em crise com a dificuldade que eu e outros colegas enfrentamos nos últimos anos diante dos novos seminaristas enviados para as faculdades de teologia evangélica. Tenho trabalhado como Professor em Seminários Evangélicos desde 1991 e, tristemente, observo que nunca houve safras tão fracas de vocacionados como nos últimos três anos.

No início de meu ministério docente, recordo-me que os alunos chegavam aos seminários bastante preparados biblicamente, com uma visão teológica razoavelmente ampla, com conhecimentos mínimos de história do cristianismo e com uma sede intelectual muito grande por penetrar no fascinante mundo da teologia cristã. Ultimamente, porém, aqueles que se matriculam em Seminários refletem a pobreza e mediocridade teológica que tomaram conta de nossas igrejas evangélicas.

Sempre pergunto aos calouros a respeito de suas convicções em relação ao chamado e à vocação. Pois outro dia, um calouro saiu-se com a brilhante resposta: “não passei em nenhum vestibular e comecei a sentir que Deus impedira meu acesso à universidade a fim de que eu me dedicasse ao ministério”...

A grande maioria dos novos vocacionados chega aos Seminários influenciada pelos modismos que grassam no mundo evangélico. Alguns se autodenominam “levitas”. Outros, dizem que estão ali porque são vocacionados a serem “apóstolos”. Ultimamente qualquer pessoa que canta ou toca algum instrumento na Igreja, se autodenomina “levita”. Tento fazê-los compreender que os levitas, na antiga aliança, não apenas cantavam e tocavam instrumentos no Templo, como também cuidavam da higiene e limpeza do altar dos sacrifícios (afinal, muito sangue era derramado várias vezes por dia), além de constituírem até mesmo uma espécie de “força policial” para manter a ordem nas celebrações.

Porém, hoje em dia, para os “novos levitas” basta saber tocar três acordes e fazer algumas coreografias aeróbicas durante o louvor para se sentirem com autoridade até mesmo para mudar a ordem dos cultos. Outros há, que se auto-intitulam “apóstolos”. Dentro de alguns dias teremos também “anjos”, “arcanjos”, “querubins” e “serafins”. No dia em que inventarem o ministério de “semi-deus” já não precisaremos mais sequer da Bíblia.

Nunca pensei que fosse escrever isso, pois as pessoas que me conhecem geralmente me chamam de “progressista”. Entretanto, ultimamente, ando é muito conservador. Na verdade, “saudosista” ou “nostálgico” seriam expressões melhores. Tenho saudades de um tempo em que havia um encadeamento lógico nos cultos evangélicos, em que os cânticos e hinos estavam distribuídos equilibradamente na ordem do culto. Atualmente os chamados “momentos de louvor” mais se assemelham a shows ensurdecedores ou de um sentimentalismo meloso. Pior: sobrepujam em tempo e importância a centralidade da Palavra e da Ceia nas Igrejas Protestantes. Muitas pessoas vão à Igreja muito mais por causa do “louvor” do que para ouvir a Palavra que regenera, orienta e exige de nós obediência. Percebo que alguns colegas pastores de outras igrejas freqüentemente manifestam a sensação de sentirem-se tolhidos e pressionados pelos diversos grupos de louvor. O mercado gospel cresceu muito em nosso país e, além de enriquecer os “artistas” e insuflar seus egos, passou a determinar até mesmo a “identidade” das igrejas evangélicas. Trata-se da “xuxização” (“todo mundo batendo palma agora... todo mundo tá feliz? tá feliz!”) do mundo evangélico, liderada pelos “levitas” que freqüentemente aprisionam ideologicamente os ministros da Palavra. O apóstolo Paulo dizia que a Palavra não está aprisionada. Mas, em nossos dias, os ministros da Palavra, estão – cativos da cultura gospel.

Tenho a impressão de que isso tudo é, em parte, reflexo de um antigo problema: o relacionamento do mundo evangélico com a cultura chamada “secular”. Amedrontados com as muitas opções que o “mundo” oferece, os pais preferem ter os filhos constantemente sob a mira dos olhos aos domingos, ainda que isso implique em modificar a identidade das Igrejas. E os pastores, reféns que são dos dízimos de onde retiram seus salários, rendem-se às conveniências, no estilo dos sacerdotes do Antigo Testamento. Um aluno disse-me que, no dia em que os evangélicos tomarem o poder no Brasil acabarão com o carnaval, as “folias de rei”, os cinemas, bares, danceterias etc. Assusta-me o fato de que o desenvolvimento dessa sub-cultura “gospel” torne o mundo evangélico tão guetizado que, se um dia, realmente os evangélicos tomarem o poder na sociedade, venham a desenvolver uma espécie de “Talibã evangélico”. Tal como as estátuas do Buda no Afeganistão, o “Cristo Redentor” estará com os dias contados.

Esses jovens que passam o dia ouvindo rádios gospel e lendo textos de duvidosa qualidade teológica, de repente vêm nos Seminários uma grande oportunidade de ascensão profissional e buscam em massa os seminários. Nunca houve tanta afluência de jovens nos seminários como nos últimos anos. Em um seminário em que trabalhei, os colegas diziam que a Igreja, em breve teria problemas, pois o crescimento da Igreja não era proporcional ao número de jovens que todos os anos saíam dos Seminários, aptos para o exercício do ministério. A preocupação dos colegas era: onde colocar todos esses novos pastores? Na minha ingenuidade, sugeri que seria uma grande oportunidade missionária: enviá-los para iniciarem novas comunidades em zonas rurais e na periferia das cidades. Foi então que um colega, bastante sábio, retrucou: “Eles não querem. Recusam-se! Querem as Igrejas grandes, já formadas e estabelecidas, sem problemas financeiros”.

Na maioria dos Seminários hoje, os alunos sabem o nome de todas as bandas gospel, mas não sabem quem foi Wesley, Lutero ou Calvino. Talvez até já tenham ouvido falar desses nomes, mas são para eles, como que personagens de um passado sem-importância e sobre o qual não vale a pena ler ou estudar. Talvez por isso eu e outros colegas professores nos sintamos hoje em dia como que “falando para as paredes”. Nem dá gosto mais preparar uma aula decente, pois na maioria das vezes temos sempre que “voltar aos rudimentos da fé” e dar aos vocacionados o leite que não recebem nas Igrejas. Várias vezes me vi tendo que mudar o rumo das aulas preparadas para falar de assuntos que antes discutíamos nas Escolas Dominicais. Não sei se isso acontece em todos os Seminários, mas em muitos lugares, o conteúdo e a profundidade dos temas discutidos pouco difere das aulas que ministrávamos na Escola Dominical para neófitos.

Sei que muitos que lerem esse desabafo, não concordarão em nada com o que eu disse. Mas não é a esses que me dirijo, e sim aos saudosistas como eu, nostálgicos de um tempo em que o cristianismo evangélico no Brasil era realmente referencial de uma religiosidade saudável, equilibrada e madura e em que a Palavra lida e proclamada valia muito mais que o último CD da moda.

Rev. Carlos Eduardo B. Calvani é pastor anglicano e coordenador do Centro de Estudos Anglicanos.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Fé e conhecimento

O filósofo alemão discute como a tensão histórica entre sociedade secular e religião sofreu uma reviravolta crucial a partir dos atentados de 11 de setembro

por Jürgen Habermas


Quando a opressora atualidade nos rouba a escolha do tema, é grande a tentação de disputar qual dos Johns Waynes entre nós, intelectuais, vai sacar a arma e disparar mais rápido. Ainda há pouco os espíritos divergiam sobre um outro tema quanto à questão de se e até que ponto devemos nos submeter à auto-instrumentalização da engenharia genética ou mesmo perseguir o objetivo da auto-otimização. Quanto aos primeiros passos nesse caminho, havia se detonado entre os pregadores de uma ciência organizada e os das igrejas uma luta das potências da fé.

Um lado temia o obscurantismo e uma limitação cética, com resquícios de sentimentos arcaicos, em relação à ciência. O outro lado voltava-se contra a crença cientificista no progresso de um naturalismo cru, que sepulta a moral. Em 11 de setembro, no entanto, a tensão entre sociedade secular e religião explodiu de uma maneira totalmente diferente.

Os assassinos decididos ao suicídio que deram a aviões comerciais civis a função de armas vivas e os direcionaram contra as fortalezas da civilização ocidental foram, pelo que se soube do testamento de Atta e depois pela boca de Osama bin Laden, motivados por convicções religiosas. Para eles, os símbolos da modernidade globalizada encarnam o Grande Satã. Porém também para nós, testemunhas oculares do acontecimento "apocalíptico" na tela de TV, irrompem imagens bíblicas quando vemos repetido de modo masoquista-lascivo o desmoronamento das torres gêmeas de Manhattan. E o discurso de retaliação, com o qual não só o presidente norte-americano reagiu contra o inconcebível, adquire um tom de Velho Testamento. Como se o atentado ensandecido tivesse feito vibrar no mais íntimo da sociedade secular uma corda religiosa, por todos os lados lotaram-se as sinagogas, igrejas e mesquitas.

Essa correspondência encoberta, aliás, não se transformou em uma atitude simétrica de ódio na prece da comunidade civil-religiosa no estádio de Nova York, há algumas semanas: em meio a todo o patriotismo, não se levantou nenhuma voz pela liberação bélica do direito penal nacional.

Apesar de sua linguagem religiosa, o fundamentalismo é um fenômeno exclusivamente moderno e, portanto, não apenas um problema dos outros. Nos autores islâmicos do crime logo chamou a atenção o assincronismo entre os motivos e os meios. Aí se espelha um assincronismo de cultura e sociedade nas terras natais dos acusados, o qual só se desenvolveu devido a uma modernização acelerada e radicalmente desenraizadora. O que para nós em circunstâncias mais favoráveis podia ser experimentado pelo menos como um processo de destruição criativa não abre ali nenhuma perspectiva de compensação que se possa experimentar para a dor da desintegração de formas tradicionais de vida.

Além disso, a perspectiva de melhora das condições materiais de vida é uma só. Decisiva é a reviravolta espiritual bloqueada por sentimentos de humilhação, reviravolta que se expressa politicamente na separação de religião e Estado. Também na Europa, a quem a história reservou séculos para achar uma atitude sensível em relação à cabeça de Jano da era moderna, a "secularização" continua sendo, como se pode observar na controvérsia em torno da engenharia genética, carregada de sentimentos ambivalentes.

Ortodoxias ferrenhas existem tanto no Ocidente quanto no Orientes Médio e Extremo, entre cristãos e judeus, da mesma forma como entre muçulmanos. Quem quer evitar uma guerra entre culturas deve se lembrar da dialética inconclusa do próprio processo, ocidental, de secularização. A "guerra contra o terrorismo" não é guerra nenhuma, e no terrorismo se expressa também o choque funesto e sem palavras de mundos que, para além da violência muda dos terroristas ou dos mísseis, têm de desenvolver uma linguagem comum.



A sociedade pós-secular Diante de uma globalização que se impõe sobre mercados ilimitados, muitos de nós desejam um retorno do dado político em outra forma, não no modelo hobbesiano original do Estado de segurança globalizado, ou seja, nas dimensões de polícia, serviço secreto e aparato militar, mas como força civilizadora determinante em nível mundial. No momento, não nos resta muito mais do que a pálida esperança de uma artimanha da razão e um pouco de auto-reflexão. Pois aquele abalo da mudez rompe também os próprios domínios.

Só vamos ter a dimensão exata dos riscos de uma secularização que sai dos trilhos em certos locais quando nos estiver claro o que a secularização significa em nossas sociedades pós-seculares. É com essa intenção que retomo o velho tema "fé e conhecimento".

A palavra "secularização" teve, de início, o significado jurídico da expropriação forçada dos bens da igreja com sua cessão ao poder estatal secular. Esse significado foi vertido na íntegra para caracterizar o surgimento da modernidade cultural e social. Desde então, ligam-se à "secularização" avaliações opostas, dependendo daquilo que colocamos em primeiro plano: a bem-sucedida domesticação ("Zähmung") da autoridade eclesiástica pelo poder mundano ou o ato da apropriação ilegal. Segundo uma leitura, modos de pensar e de viver religiosos são levados à substituição por equivalentes racionais, em todo caso superiores; segundo a outra leitura, as formas de vida e pensamento modernas são objeto de descrédito como bens subtraídos ilegitimamente.

O modelo do deslocamento forçado sugere uma interpretação progressista-otimista da modernidade desencantada; o modelo da desapropriação, uma interpretação teórica que fala em decadência, em desabrigo da modernidade. Ambas as interpretações cometem o mesmo erro. Ambas vêem a secularização como uma espécie de jogo entre as forças produtivas da ciência e da tecnologia desencadeadas pelo capitalismo, de um lado, e os poderes persistentes da religião e da igreja, de outro, cujo resultado seria sempre zero. Um só pode vencer à custa do outro e, mais especificamente, segundo regras de jogo liberais, as quais privilegiam as forças impulsivas da modernidade.

Essa imagem não se ajusta a uma sociedade pós-secular que se prepara para a continuidade de existência de comunidades religiosas num ambiente de secularização incessante. Fica desfocado o papel civilizatório de um "common sense" democraticamente ilustrado, que ao mesmo tempo, em meio ao vozerio do tipo "Kulturkampf" [luta comandada por Bismark, na Alemanha, contra os católicos, entre 1871 e 1878", trilha um caminho próprio como terceiro partido entre ciência e religião. Claro que, na visão do Estado liberal, só merecem o predicado de "razoáveis" as comunidades religiosas que "por seu próprio juízo" abram mão de uma imposição violenta de suas verdades de fé e da obrigação de uma consciência militante contra os próprios adeptos e mais ainda de uma manipulação para atentados suicidas. Tal juízo se deve a uma tripla reflexão dos fiéis sobre sua posição numa sociedade pluralista.

A consciência religiosa deve, primeiramente, processar o encontro dissonante, do ponto de vista cognitivo, com outras confissões e outras religiões. Em segundo lugar, deve se ajustar à autoridade de ciências que se investem do monopólio social de conhecimento de mundo. Por fim, deve responder a premissas de um Estado constitucional que se justifique a partir de uma moral profana. Sem esse surto de reflexão, os monoteísmos desenvolvem, em sociedades modernizadas de maneira irresponsável, um potencial destrutivo.

A expressão "surto de reflexão" ("Reflexionsschub") sugere certamente a falsa idéia de um processo conduzido de maneira unilateral e inconcluso. De fato, esse trabalho reflexivo ganha uma continuação em todo novo conflito nos postos de transbordo da opinião pública democrática.

Tão logo uma questão relevante do ponto de vista existencial chegue à agenda política, tanto cidadãos fiéis quanto infiéis entrarão em choque com suas convicções impregnadas de certa visão de mundo e experimentarão, enquanto se exaurem nas estridentes dissonâncias do debate público de opiniões, o desagradável fato comprovado do pluralismo de visões de mundo. Quando tiverem de lidar com esse fato conscientes da própria falibilidade, pacificamente, portanto sem ter dilacerado o vínculo social de uma comunidade política, eles reconhecerão o que significam numa sociedade pós-secular as bases de decisão seculares fixadas por escrito na Constituição. Na contenda entre exigências do conhecimento e exigências da fé, o Estado com visão de mundo neutra cria precedentes, decisões políticas que não favoreçam, de modo algum, um dos lados. A razão pluralizada do público cidadão segue uma dinâmica de secularização somente na medida em que ela necessita, no resultado, de proporcional distanciamento de fortes tradições e conteúdos marcados por determinadas visões de mundo. Continua, porém, pronta para aprender, sem ceder sua autonomia, aberta por osmose a ambos os lados.



A ciência do senso comum Naturalmente o "common sense", que cria para si muitas ilusões em relação ao mundo, deve se deixar iluminar sem reservas pelas ciências. Mas as teorias científicas que incidem no mundo vivido ("Lebenswelt") deixam a armação de nosso saber cotidiano, a qual está engrenada com a autocompreensão de pessoas capazes para a linguagem e para a ação, essencialmente intocada. Quando aprendemos algo novo sobre o mundo e sobre nós como seres no mundo, se altera o conteúdo de nossa autocompreensão. Copérnico e Darwin revolucionaram a imagem geocêntrica e antropocêntrica de mundo. No caso, a destruição da ilusão astronômica quanto à órbita dos astros deixou no mundo vivido vestígios menores do que o desilusionamento biológico em relação à posição do homem na história natural. Descobertas científicas parecem incomodar nossa autocompreensão tanto mais quanto mais elas diretamente nos põem em xeque.

As pesquisas sobre o cérebro nos ensinam sobre a fisiologia de nossa consciência. Mas alteram com isso aquela consciência intuitiva de autoria e responsabilidade que acompanha todas as nossas ações?

Se voltarmos o olhar, com Max Weber, para os primórdios do "desencantamento do mundo", veremos o que está em jogo. A natureza é despersonalizada na medida em que lhe abrem o acesso para a observação objetivante e a explicação causal. A natureza como objeto de pesquisa científica se aparta do sistema social de referências de pessoas viventes que agem e falam umas com as outras, atribuindo-se mutuamente intenções e motivos. O que será, porém, dessas pessoas se elas pouco a pouco subsumirem a si mesmas entre descrições das ciências naturais? Aceitará o "common sense" finalmente não apenas a lição do conhecimento contra-intuitivo das ciências como também o deixar-se ser inteiramente consumido? O filósofo Winfrid Sellars levantou essa questão em 1960 (em uma famosa palestra sobre "Philosophy and the Scientific Image of Man") e respondeu-a com o cenário de uma sociedade na qual os antiquados jogos de linguagem de nosso cotidiano são revogados em favor da descrição objetivante de processos da consciência.

O ponto de fuga dessa naturalização do espírito é uma imagem científica do homem na conceituação extensional de física, neurofisiologia ou teoria da evolução que dessocializa por completo também nossa autocompreensão. Isso só pode ser plenamente alcançado, claro, se a intencionalidade da consciência humana e a normatividade de nosso agir numa tal autodescrição resultarem em uma conta exata. As indispensáveis teorias devem explicar, por exemplo, como pessoas podem seguir ou infringir regras, sejam elas gramaticais, conceituais ou morais. Discípulos de Sellar se equivocaram ao entender o experimento conceitual aporético de seu mestre como programa de pesquisa. O intento de uma modernização de nossa psicologia cotidiana sobre as bases das ciências naturais levou até mesmo a tentativas de uma semântica que quer explicar biologicamente os conteúdos do pensamento. Mas também essas abordagens mais avançadas parecem fracassar na medida em que o conceito de conveniência ("Zweckmäigkeit"), que enfiamos no jogo linguístico darwinista de mutação e adaptação, seleção e sobrevivência, é pobre demais para atingir aquela diferença de ser e dever, que defendemos quando ferimos regras, quando aplicamos um predicado incorretamente ou praticamos algo que contraria um mandamento moral.

Quando se descreve como uma pessoa fez algo que não queria e não deveria ter feito, se descreve essa pessoa, mas não como se faz com um objeto das ciências naturais. Pois na descrição de pessoas entram, implícitos, elementos da autocompreensão pré-científica de sujeitos capazes de linguagem e de ação. Quando descrevemos um processo como a ação de uma pessoa, sabemos por exemplo que estamos descrevendo algo que não somente pode ser explicado mas também, se for o caso, justificado como um processo natural. Como pano de fundo está a imagem de pessoas que podem prestar contas umas às outras, pessoas que estão desde sempre envolvidas em interações reguladas normativamente e que se encontram num universo de motivos públicos.

Essa perspectiva que levamos conosco no cotidiano explica a diferença entre o jogo linguístico da justificativa e da mera descrição. Nesse dualismo também as estratégias de explicação não-reducionistas encontram seu limite. Também elas visam afinal a descrições a partir de uma perspectiva observadora, pela qual a perspectiva participante (de que também a práxis justificadora da pesquisa se nutre) de nossa consciência cotidiana não se deixa ordenar ou subordinar. No trato cotidiano dirigimos o olhar a destinatários que tratamos por "você".

Só nessa posição perante segundas pessoas entendemos o "sim" e o "não" dos outros, as criticáveis tomadas de posição que devemos aos outros ou esperamos uns dos outros. Essa consciência de autoria obrigatoriamente responsável é o cerne de uma autocompreensão que se deduz somente da perspectiva de um envolvido, mas escapa a uma observação científica revisionária. A fé cientificista numa ciência que um dia não apenas complemente, mas destitua a autocompreensão pessoal por meio de uma autodescrição objetivante não é ciência, e sim má filosofia. Não haverá ciência que prive o "common sense" cientificamente ilustrado de, por exemplo, avaliar como nós, entre descrições de biologia molecular que tornam possíveis intervenções da engenharia genética, devemos lidar com a vida humana pré-pessoal.





A tradução de conteúdos religiosos O "common sense" está, portanto, entrelaçado com a consciência de pessoas que podem tomar iniciativas, cometer e corrigir erros. Ele afirma, perante as ciências, uma obstinada estrutura perspectiva. Essa mesma consciência de autonomia, não palpável naturalisticamente, também justifica, por outro lado, o distanciamento em relação a uma tradição religiosa de cujos conteúdos normativos nós igualmente nos nutrimos. Com sua exigência por explicações racionais, a ilustração científica parece trazer para junto de si um "common sense" que tomou lugar no edifício do Estado constitucional democrático construído segundo o direito racional.

Certamente, também o direito racional igualitário tem raízes religiosas, raízes naquela revolução do modo de pensar que coincide com a ascensão das grandes religiões mundiais. Porém essa legitimação jurídico-racional de direito e política alimenta-se de fontes da tradição religiosa há muito tempo profanizadas. Diante da religião, o "common sense" democraticamente ilustrado insiste em razões aceitáveis não apenas para adeptos de uma comunhão de fé. É por isso que por sua vez o Estado liberal desperta nos fiéis a suspeita de que a secularização ocidental poderia ser uma via de mão única que deixa a religião à margem.

O reverso da liberdade religiosa é de fato uma pacificação do pluralismo de visões de mundo, o qual teve encargos desiguais. Até agora o Estado liberal só exige dos fiéis entre seus cidadãos que dividam sua identidade em cotas de participação públicas e privadas. São elas que devem traduzir suas convicções religiosas em uma linguagem secular, antes que seus argumentos tenham a perspectiva de serem aprovados por maiorias. Assim, católicos e protestantes de hoje, quando reclamam para o óvulo fecundado fora do útero o status de portador de direitos fundamentais, tentam (talvez se precipitando) traduzir a semelhança-à-imagem-de-Deus para a linguagem secular da Lei Fundamental.

A busca de razões visando a uma aceitabilidade generalizada só não levaria a uma exclusão desleal da religião em relação à opinião pública e não subtrairia à sociedade secular os importantes recursos da instituição de sentido ("Sinnstiftung") se também o lado secular conservasse para si uma sensibilidade para o poder de articulação das linguagens religiosas. A linha que divide razões seculares e razões religiosas, em todo caso, é tênue. Por isso a fixação do controverso limite deveria ser entendida como uma tarefa cooperativa, exigindo de ambos os lados a capacidade de se colocar na perspectiva do outro.

A política liberal não pode exteriorizar o contínuo embate quanto à autocompreensão secular da sociedade, ou seja, empurrá-lo cabeça adentro nos fiéis. O "common sense" democraticamente ilustrado não é um singular, e sim descreve o estado mental de uma opinião pública de muitas vozes. Maiorias seculares não podem forçar resoluções em tais questões antes de dar ouvidos ao protesto de oponentes que se sentem feridos em suas convicções religiosas; elas devem ver esse protesto como uma espécie de veto postergador, para testar que lição podem tirar daí. Tendo em vista a origem religiosa de seus fundamentos morais, o Estado liberal deveria contar com a possibilidade de a "cultura do senso comum" (Hegel), diante de desafios inéditos, não alcançar o nível de articulação da própria história de seu surgimento.

A linguagem do mercado invade hoje todos os poros e pressiona todas as relações inter-humanas para o esquema da orientação auto-referencial às próprias preferências individuais. O laço social, que é atado a partir do reconhecimento mútuo, não se abre, no entanto, nos conceitos de contrato, de escolha racional e de maximização de lucros.

Por isso Kant não quis deixar que o imperativo categórico desaparecesse no turbilhão do auto-interesse ilustrado. Ele ampliou o livre-arbítrio para autonomia e, com isso seguindo a metafísica, deu o primeiro grande exemplo para uma desconstrução ao mesmo tempo secularizante e salvadora de verdades de fé. Em Kant a autoridade dos mandamentos divinos encontra na incondicional validação de deveres morais um eco impossível de não ser ouvido. Com seu conceito de autonomia, Kant por um lado destrói a idéia tradicional da filiação divina. Por outro, porém, ele se antecipa às consequências banais de um deflacionamento esvaziante por meio de um apossar-se crítico do conteúdo religioso. Sua tentativa posterior de traduzir o mal radical da linguagem bíblica para a linguagem da religião da razão pode nos convencer menos.

Como mostra novamente nos dias de hoje o modo sem limitações de lidar com a herança bíblica, ainda não dispomos de um conceito adequado para a diferença semântica entre o que é moralmente errado e aquilo que é definitivamente mau. O diabo não existe, mas o arcanjo rebelde continua fazendo as suas como nunca no travestido bem do monstruoso mal, mas também no irrefreado ímpeto para a retaliação que segue os passos desse mal.

Linguagens seculares que apenas eliminam aquilo que um dia foi alegado deixam irritações atrás de si. Quando o pecado se converteu em culpa, quando a transgressão contra mandamentos divinos se transformou em agressão a leis humanas, algo se perdeu. Pois ao desejo de perdão continua ligado o desejo não sentimental de desfazer o sofrimento imposto aos outros. O que antes de mais nada na verdade nos intranquiliza é a irreversibilidade do sofrimento passado, a injustiça em relação aos inocentemente maltratados, desonrados e assassinados, injustiça que ultrapassa toda escala de reparação humana possível. Perdeu-se a esperança na ressurreição, e isso deixa atrás de si um vazio notável.

O ceticismo justificado de Horkheimer contra a esperança desmedida de Benjamin no poder reparador da rememoração humana -"os abatidos estão realmente abatidos"- não desmente, com efeito, o impulso inconsciente de afinal de contas querer mudar algo no inalterável.



Passado processado As cartas trocadas entre Benjamin e Horkheimer são da primavera de 1937. Ambos, o verdadeiro impulso e o desfalecimento, prosseguiram após o Holocausto na práxis ao mesmo tempo necessária e desesperada de um "processamento do passado" (Adorno). De modo disfarçado expressa-se o mesmo impulso ainda no crescente lamento quanto à inadequação dessa práxis. Em tais momentos, os filhos e filhas infiéis da modernidade parecem acreditar ser mais culpados uns em relação aos outros e mesmo necessitarem de mais do que lhes é acessível, traduzido, da tradição religiosa, como se os potenciais semânticos desta ainda não estivessem esgotados.

A história da filosofia alemã desde Kant pode ser entendida como um processo judicial no qual se tratam essas circunstâncias inexplicadas da herança. A helenização do cristianismo havia levado a uma simbiose de religião e metafísica. Essa só torna a ser dissolvida por Kant. Ele traça uma nítida fronteira entre a fé moral da religião da razão e a fé positiva da revelação, a qual, se por um lado contribuiu para a "melhora das almas", por outro, "com seus apêndices, estatutos e preceitos... aos poucos" teria se tornado "aprisionamento". Para Hegel, isso é o puro "dogmatismo da Ilustração". Ele zomba da vitória de Pirro de uma razão que iguala vencedores -os quais são, ao espírito da nação submissa, porém, bárbaros derrotados, na medida em que ela só conserva "a supremacia segundo o domínio externo".

Em Hegel, no lugar da delimitadora entra uma razão arrecadante. Hegel faz da crucificação do filho de Deus o centro de um pensamento que quer se apossar da forma positiva do cristianismo. A antropomorfização de Deus simboliza a vida do espírito filosófico. Também o Absoluto tem de exteriorizar a si mesmo no Outro, porque só pode se experimentar como poder absoluto se se retrabalhar a partir da dolorosa negatividade da autolimitação. Desse modo, por um lado os conteúdos religiosos são suspensos na forma do conceito filosófico. Mas Hegel sacrifica a dimensão de história da salvação do futuro num processo mundial que gira em torno de si mesmo.



Conteúdo profano Discípulos de Hegel rompem com o fatalismo dessa antevisão desconsolada de um Eterno Retorno do Mesmo. Eles não querem prolongar a suspensão da religião no pensamento, e sim concretizar seu conteúdo profanizado por meio do esforço solidário. Esse patos de uma realização dessublimada do reino de Deus sobre a Terra é sustentado pela crítica da religião, de Feuerbach e Marx a Bloch, Benjamin e Adorno: "Nenhum conteúdo teológico continuará existindo intransformado; cada um deverá submeter-se à prova de migrar para o secular, profano" (Adorno).

Até então o curso da história havia mostrado, de fato, que a razão exige demais das próprias forças com um tal projeto. Como a razão assim desgastada desespera-se de si mesma, Adorno assegurou-se, ainda que somente com intenção metodológica, da ajuda do campo de visão messiânico: "O conhecimento não tem nenhuma luz senão a que brilha sobre o mundo a partir da redenção" ("Minima Moralia"). Nesse Adorno procede a frase que Horkheimer cunhou para a teoria crítica no todo: "Ela sabe que Deus não existe, mas mesmo assim acredita nele". Sob outras premissas, Jacques Derrida defende hoje uma posição semelhante. Do messianismo ele só quer reter "o mais mísero dado messiânico, que esteja despido de tudo".

A região limítrofe entre filosofia e religião é certamente um terreno minado. Uma razão que se desmente a si mesma logo acaba por cair na tentação de meramente tomar emprestados de um sacro desprovido de seu núcleo, anonimizado, a autoridade e o gesto. Em Heidegger devoção ("Andacht") sofre mutação para se tornar evocação, lembrança ("Andenken"). Mas porque o Dia do Juízo da história bíblica da salvação se volatiliza no acontecimento indefinido da história do ser, nós não ganhamos nenhum novo entendimento. Se o pós-humanismo deve se preencher no retorno dos primórdios arcaicos antes de Cristo e antes de Sócrates, soa a hora do kitsch religioso. Aí as lojas de departamentos da arte abrem suas portas para os altares de todo o mundo, para os sacerdotes e xamãs vindos de todos os pontos cardeais para a vernissage.

Diante disso, a profana, mas não-derrotista, razão tem respeito demais pelo núcleo incandescente que se reacende continuamente na questão da teodicéia para poder se aproximar da religião. Ela sabe que a desconsagração do sacro começa com aquelas religiões mundiais que desencantaram a magia, superaram o mito, sublimaram o sacrifício e revelaram o mistério. Essa ambivalência pode levá-la à atitude razoável de distanciamento em relação à religião, sem que se feche à perspectiva daquela.



O exemplo da genética Uma tal atitude também pode comandar a auto-ilustração de uma sociedade burguesa dilacerada pela luta cultural para a direção certa. A sociedade pós-secular continua o trabalho que a religião concretizou no mito, na própria religião. Certamente não na intenção híbrida de uma apropriação hostil, mas pelo interesse de reagir no próprio domínio à entropia sorrateira do escasso recurso do sentido. O "common sense" democraticamente ilustrado tem de temer também os efeitos do desdém dos meios e trivialização tagarela de todas as diferenças de peso. Sensibilidades morais que até hoje só possuíam uma expressão suficientemente diferenciada na linguagem religiosa podem encontrar repercussão geral, tão logo se coloque para algo já quase esquecido, mas implicitamente perdido, uma fórmula salvadora. Uma secularização que não aniquila se realiza no modus da tradução. É isso que o Ocidente, como potência secularizadora em nível mundial, pode aprender de sua própria história.

Assim, na controvérsia que se dá em torno da manipulação de embriões humanos, ainda há hoje muitas vozes a evocar: "Deus criou o homem à sua imagem, à sua imagem Deus o criou". Não é preciso crer que Deus, que é amor, cria em Adão e Eva seres livres, à sua semelhança, para entender o que se quer dizer com imagem-à-semelhança. O amor não pode existir sem o reconhecimento em um outro, a liberdade não pode existir sem a admissão mútua. Aquele que se encontra defronte, em forma humana, tem de ser, por sua vez, livre, para que possa retribuir o desvelo de Deus. Apesar de sua imagem-à-semelhança, esse outro certamente se apresenta ainda como criatura de Deus.

Quanto à sua origem, ele não pode ter nascido como um par de Deus. Essa criaturabilidade da símile-imagem expressa uma intuição, que em nosso contexto também pode dizer algo ao religiosamente surdo. Hegel tinha uma sensibilidade especial para a diferença entre "criatura" divina e o mero "provir" de Deus. Deus só permanece como um "Deus de homens livres" até o momento em que nós não nivelarmos a diferença absoluta entre criador e criatura. Até esse momento, aliás, a forma dada por Deus não significa uma determinação que impeça a autodeterminação humana.

Esse criador, por ser Deus criador e redentor num só, não precisa operar segundo leis da natureza, como um técnico, ou segundo as regras de um código cifrado, como um profissional de informática. A voz de Deus chamando à vida comunga/comunica ("kommuniziert") de imediato no interior de um universo moralmente sensível. Por isso Deus pode, nesse sentido, "determinar" ao homem que ele ao mesmo tempo seja capacitado para e comprometido com a liberdade. No entanto não é preciso crer nas premissas teológicas para entender a consequência que uma dependência totalmente diversa, apresentada como causal, entraria em jogo se desaparecesse a diferença suposta no conceito de criação e um par tomasse o lugar de Deus. Se um homem, então, por suas preferências interviesse na combinação casual de grupos de cromossomos maternos-paternos, sem com isso poder pelo menos contrafactualmente alegar um consenso com o outro, o afetado.

Essa leitura retoma a questão de que tratei anteriormente. Não teria o primeiro homem, que determina por vontade própria um outro homem no seu ser-assim ("Sosein") natural, de destruir também aquelas liberdades equivalentes que existem entre nascidos como pares, para assegurar a diferença entre eles?



Tradução de Marcelo Rondinelli.

sábado, 7 de julho de 2012

Só erra quem acerta


No início de 2012, meu amigo Jim postou um tópico muito interessante em seu blog ao qual, até ontem, ainda discutíamos no botequim. Claro, um puxão de orelha que incomodaria qualquer um que entende perfeitamente Deus. Já para quem tem teologia como febre, e não remédio, só mais uma situação a ser discutida.

Confesso que pouco sei sobre o assunto, mas digo com clareza que tenho uma certa afinidade com o desejo do bom Jim. Para os que gostam de pensar e que, odeiam anestesia em teologia, ai estão:

Dez coisas que gostaria que a Igreja soubesse sobre homossexualismo.

1 – Você não está sendo perseguido quando previne a perseguição dos outros.

2 – Se Jesus não mencionou um assunto em seus ensinos, não tem como ser parte dos seus mandamentos.

3 – A verdade não é como o vinho; fica melhor com a idade. Verdade assemelha-se ao maná: Você deve reconhecê-la independentemente aonde, e com quem esteja.

4 – Não é possível considerar – “privilégios especiais” – um direito que você já tem , mas impede os outros de ter.

5 – Se você prejudica alguém, sua visão religiosa não é pessoal.

6 – O casamento é uma cerimônia civil; significa um direito civil.

7 – Se colocar lenha na fogueira se tornou sua bússola moral diante de um assunto, o único que está perdido é você.

8 – Para condenar o homossexualismo com o auxílio das Escrituras, é necessário utilizar-se de toda Bíblia. Ninguém ficaria livre da prisão se obedecesse inteiramente o livro de Levíticos.

9 – Se não fizermos o melhor em nossos dias, nossos netos irão nos ver como uma vergonha. Como parte de uma geração racista.

10 – Quando Jesus Cristo proibiu julgar os outros, ele também pensava na Igreja.

Texto de Nelson Costa Jr.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Marx ou Mamom? Seu Deus é comunista ou capitalista?


Pra quem anda confundindo o Evangelho com discursos ideológicos

Por Hermes C. Fernandes

Definitivamente, não existem ideologias perfeitas. Todas têm suas virtudes e vicissitudes. Cada qual tem seu altar e seu sacrifício. O comunismo, por exemplo, sacrifica a liberdade de seus cidadãos no altar da justiça social. O capitalismo faz o inverso, sacrifica a justiça social no altar da liberdade.

Ora, se não há ideologias perfeitas, o que nos dá o direito de sacralizá-las? Não podemos diluir a mensagem do Evangelho, transformando-o num discurso ideológico. Ainda que cada uma delas tenha um ponto ou mais que coincidam com a proposta do Evangelho. Diluir uma gota de Evangelho num balde de ideologia acaba por corromper completamente seu conteúdo e subversividade originais.

Deus não é de esquerda, nem de direita. Se o Evangelho promove a justiça social, também não prescinde da liberdade individual.

Quando sacralizamos uma ideologia, geralmente, demonizamos as demais. Foi o que aconteceu com o comunismo a partir do golpe militar em 1964. Pregadores fizeram vista grossa às atrocidades cometidas pelo governo militar, enquanto identificavam o comunismo com o próprio diabo. Houve quem enxergasse um viés político-ideológico até na passagem em que Jesus descreve o juízo final, quando a humanidade será dividida em dois grupos. Os da esquerda, destinados à condenação, seriam os comunistas, enquanto que os da direita, destinados à vida eterna, seriam as nações que adotassem a ideologia importada dos EUA, a saber, o capitalismo. Igualmente, dos dois ladrões crucificados com Jesus, somente o da direita foi salvo.

Qualquer pregador que ousasse questionar a ditadura militar, corria o risco de ser preso, acusado de subversão. Há quem diga que muitos desapareceram...

Não devemos nutrir uma visão romântica de nenhuma ideologia. Em nome de todas elas, atrocidades foram cometidas.

Vamos focar as duas principais ideologias vigentes neste novo século, a saber, o comunismo (que resiste bravamente na China e em Cuba), e o capitalismo.

O comunismo, em sua essência, defende que os bens de uma sociedade deveriam ser partilhados igualmente entre todos os seus cidadãos. Isso parece coincidir com a proposta do Evangelho. Eu disse, parece. Teria o Estado o direito de apropriar-se de bens privados?

Temos um exemplo disso na Bíblia, quando um rei malévolo desejou acampar a vinha de um cidadão de Israel. Acabe conspirou contra Nabote, a fim de tomar-lhe a propriedade. É óbvio que Deus jamais apoiaria tal atitude. O mandamento que diz que não devemos cobiçar o bem alheio, bem como o mandamento que nos proibe o roubo, são uma indicação de que a vontade de Deus é que a propriedade privada seja respeitada. Também encontramos nas Escrituras leis que regulam a hereditariedade de bens (Pv.13:22).

Entretanto a Bíblia incentiva a partilha de bens, desde que seja voluntária, fruto de uma consciência grata e generosa. Foi isso que aconteceu na igreja primitiva. O que vemos ali está longe de ser uma amostra grátis do que seria uma sociedade comunista. Em vez disso, trata-se de uma demonstração de como funciona uma sociedade erigida ao redor do Trono da Graça. Trata-se, portanto, de reinismo, em vez de comunismo. A partilha jamais foi compulsória, mas provinha do fato de todos terem um só coração (At.4:32). Não havia imposição por parte dos apóstolos. Tudo era voluntário. Portanto, diferente do que propõe regimes comunistas, a partilha dos bens deve ser voluntária, tanto quanto o celibato, equivocadamente exigido pelo Vaticano aos seus sacerdotes.

Chamamos “reinismo” a ideologia que deve reger a sociedade construída a partir de uma cosmovisão do reino de Deus. Reinismo, portanto, deveria ser o modus vivendis de toda comunidade legitimamente cristã.

De acordo com Paulo, o cidadão do Reino deve trabalhar, “fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade” (Ef. 4:28). Bem diferente da proposta do capitalismo que é fazer do trabalho um meio para adquirir e concentrar bens, no reinismo somos instados a trabalhar para ter o que repartir. Assim como o comunismo, o reinismo também valoriza o trabalho muito mais que o capital. Porém, cada qual deve desfrutar do resultado de seu próprio trabalho, e não usufruir ociosamente do trabalha alheio. Somente aqueles que estiverem impossibilitados de trabalhar, ou que houver sido vítimas de alguma injustiça, devem desfrutar da partilha comunitária. “Se alguém não quiser trabalhar, que também não coma”, sentencia Paulo (2 Ts.3:10-12).

Um Estado regido pela ideologia comunista tende a ser totalitário, intrometendo-se em questões que deveriam ser mantidas na esfera privada.

Qual seria o papel do Estado de acordo com a Bíblia?

“Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus. Por isso quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. Porque os magistrados não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira contra aquele que pratica o mal. Pelo que é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa da ira, mas também por causa da consciência. Por esta razão também pagais tributo; porque são ministros de Deus, para atenderem a isso mesmo.”
Romanos 13:1-6

De acordo com este texto, o Estado recebeu de Deus autoridade para punir os malfeitores, ao mesmo tempo em que incentiva toda e qualquer boa iniciativa. Leis civis são implementadas para regulamentar a vida social. Quando estas leis são transgredidas, o Estado tem o direito de punir os transgressores. Mas não pára aí. O Estado também tem a obrigação de “louvar” quem faz o bem, o que pode ser interpretado como incentivar qualquer iniciativa que vise o bem comum. Isso pode incluir incentivos fiscais, como aqueles dados à cultura. Se o Estado extrapola sua esfera de atuação, seus cidadãos têm o direito de resisti-lo, denunciando-o e buscando sua reforma. O Estado deve servir como um facilitador de boas obras, oferecendo à sua população meios para tal. Desde infraestrutura para escoamento da produção, passando por incentivos fiscais, segurança, educação, saúde, saneamento básico, etc.

Já no Liberalismo/capitalismo, valoriza-se o capital em detrimento do trabalho. O consumo é incentivado a todo custo, a fim de manter a máquina a pleno vapor. Trata-se, portanto, de um sistema retroalimentado. O consumo estimula a produção, que por sua vez, promove a abertura de postos de trabalho. Segundo seus defensores, o resultado desta equação é a prosperidade da sociedade como um todo. Tudo parece muito bonito, até que nos deparamos com as palavras de Jesus: “Acautelai-vos e guardai-vos de toda espécie de cobiça; porque a vida do homem não consiste na abundância das coisas que possui.” (Lc. 12:15). Como, então, poderíamos endossar o espírito consumista que justifica a ideologia capitalista? Um sistema erigido sobre esta ideologia só poderia está fadado a ruir.

No capitalismo a concentração de renda também é valorizada, em franca dissonância com os princípios da Palavra de Deus.

“Ai dos que ajuntam casa a casa, dos que acrescentam campo a campo, até que não haja mais lugar, de modo que habitem sós no meio da terra!” Isaías 5:8

A justiça do reino de Deus nos impele à distribuição de renda, e não à sua concentração. Cartéis, monopólios, oligarquias, são alguns dos efeitos colaterais deste sistema capaz de corromper os valores essenciais da vida em nome do ganho.

O capitalismo também promove a exploração do trabalhador. Apesar do discurso afirmar que todos saem ganhando, não é isso que constatamos. Quem lucra, nunca se dá por satisfeito. Os detentores dos meios de produção, bem como os banqueiros e donos dos veículos de comunicação querem sempre mais, e mais, e mais.. E ao mesmo tempo, reduzir gastos, o que pode significar redução de salários, substituição de mão-de-obra humana por máquinas, etc. Investe-se em publicidade e lobby político, ao passo que reduz-se o gasto com aqueles que mantém a máquina, os empregados. Tudo em nome da eficiência e da otimização dos lucros. Não é à toa que grandes empresas de países ricos têm se mudado para países do terceiro mundo, por saberem que lá pagarão salários menores a seus empregados. O preço pago a médio e longo prazo será incalculável. E já começou a ser pago. Vide o altíssimo índice de desemprego nesses países.

Se por um lado o capitalismo promove competitividade, fazendo com que serviços e bens de consumo sejam aprimorados, por outro lado, atravancam o desenvolvimento. Dificilmente empresas petrolíferas apoiarão iniciativas que desenvolvam veículos movidos à água, por exemplo. A menos que descubram uma maneira de tirar proveito disso. Muita coisa já foi inventada, patentizada, porém, jamais chegou às mãos do consumidor, pois ameaçam produtos já consagrados. Eu mesmo conheci um professor universitário que já nos anos 80 havia desenvolvido um motor à água. Resultado: foi demitido e teve seu projeto abortado pela Universidade, que por sua vez recebeu uma enorme soma em doação da parte de certa empresa petrolífera. No sistema capitalista, tudo é movido pela ânsia do lucro.

Governos pautados nesta ideologia estão construindo sobre areia movediça. Bem fariam em dar ouvidos à advertência bíblica:

“Ai daquele que edifica a sua casa com iniqüidade, e os seus aposentos com injustiça; que se serve do trabalho do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário.” Jeremias 22:13

Tragicamente, esta ideologia demoníaca tem encontrado amparo no seio da igreja evangélica. A teologia da prosperidade é sua filha caçula. Sua mensagem, resultado da mistura de um gota de Evangelho com uma caixa d’água de discurso ideológico, tem sido responsável por tornar a igreja numa importante engrenagem do sistema, incentivando a alienação.

Todos as ideologias e seus respectivos sistemas estão fadados a desaparecer (1 Co.15:24-25; Hb.12:27-28). Por isso, perde tempo quem tenta conciliar a verdade do Evangelho com qualquer uma delas. Bom seria se déssemos ouvidos a Paulo, analisando tudo e retendo somente o que for bom. Nada de pacotes fechados!

Assim como não podemos sacralizar qualquer que seja a ideologia, também não podemos demonizá-la. Dos dois lados da trincheira ideológica há gente de bem, lutando pela justiça e pela verdade. Quem gosta de rotular os outros de maneira tendenciosa e preconceituosa está à serviço da discórdia, disseminando o ódio entre irmãos. Posso condenar uma linha de pensamento, mas isso não me dá o direito de sentenciar ou fomentar suspeitas sobre pessoas que pensem diferente de mim.

Cristãos que cerraram fileiras com a ala direita certamente o fizeram por identificarem naquela ideologia alguns elementos comuns ao Evangelho. O mesmo podemos falar dos que cerraram fileiras com a esquerda. Ambas as ideologias têm coisas em comum com a proposta do Evangelho, como também têm disparates que não podem ser ignorados. Há santos e pecadores de ambos os lados. Não sejamos tão severos... Nem tão ingênuos...

Em vez de lutarmos em nome de uma ou de outra, digladiando-nos uns com os outros, que tal lutarmos pela liberdade e pela justiça preconizadas na mensagem do Reino de Deus?

Descoberto em Cristianismo Subversivo.

Apesar de alguns equívocos, a idéia é boa. Sacralizar a política é um erro.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Les Églises protestantes : l'Église presbytérienne


John Knox



Qu'est-ce que l'Église presbytérienne ? Dans le Guide de l'identité protestante, Jean-Luc Mouton et Antoine Nouis expliquent l'origine de cette branche du protestantisme.

« Presbytérien » est le nom donné aux réformés ou calvinistes dans le monde anglo-saxon. La première Église presbytérienne est celle d’Écosse : la Réforme y fut introduite par John Knox (1513-1572) qui organisa l’Église d’Écosse sur le modèle de ce qu’il avait découvert à Genève auprès de Jean Calvin.

Les presbytériens rejettent la hiérarchie du clergé catholique (diacre, prêtre, évêque, etc.) pour lui substituer des paliers décisionnels (du local au national). Chaque communauté locale possède son propre conseil ou consistoire qui délègue des représentants auprès des instances régionales, puis nationales. Cette forme d'organisation est censée assurer une meilleure représentation des fidèles dans la direction de l'Église, généralement conduite par un collège de laïcs et de pasteurs. Sa raison d'être n'est pas en premier lieu l’instauration de démocratie mais, sur le principe du sacerdoce universel des croyants, tous les fidèles sont prêtres. Ces laïcs et pasteurs, qui assurent collégialement l’autorité en matière de foi et de discipline et président à l’organisation matérielle des communautés, sont à l’image de ceux que l’on appelle dans la première Église apostolique, les presbuteros, les anciens.

L'appellation d'Église presbytérienne, associée à l'Écosse, la distingue de l’Église d'Angleterre où l'épiscopalisme demeure avec le maintien d'une hiérarchie ecclésiastique, comme dans le catholicisme. Le presbytérianisme a donné forme aux Églises qui se nomment plus couramment Églises réformées dans le monde francophone actuel, et à la plupart des Églises évangéliques.

Fonte: Réforme.