Entre o judaísmo de Jesus e o cristianismo de Paulo
há um intervalo considerável o bastante para modificar historicamente a
configuração do modelo de organização dos futuros seguidores do Evangelho.
Intervalo tanto no sentido espaço-temporal quanto no sentido semântico.
O jovem artesão da Galileia viveu profundamente
enraizado em seu mundo, encharcado por sua cultura, no bojo de sua época. Jesus
não se esquivou da religião de seu povo nem tentou destruí-la: a maneira como
escolheu vivenciá-la é que provocou uma ruptura irremediável para os que com
ele mantinham contato. A boa notícia que Jesus anuncia refere-se à vivência da
religião como a forma mais profunda de liberdade e de amor, experimentados para
além dos parâmetros de um rito, de uma lei ou de uma história. A boa notícia é
baseada na descoberta e no anúncio de que há um Deus que nos ama antes de mais
nada, nos ama de forma despudorada e alegre, e nos ama de graça, por sua graça,
sem que haja para ele alteração no seu amor em razão do que quer que tentemos
fazer para ganhá-lo; um Deus que é como um Pai. (Por conta do revestimento
viciado dessa terminologia durante dois milênios parece não nos causar tanto
impacto que alguém se relacione com um deus chamando-o de papai, que é mais ou
menos a tradução de Abba. Diríamos então que o anúncio do Deus Paizinho de
Jesus soaria para nós como se um ex-presidiário saísse nas cidades do país
anunciando que há uma Deusa, Mãe Paciente, que nos ama graciosamente; ela quer
que espalhemos esse amor gratuito sendo todos como crianças de orfanato,
ansiosas pelo amor da Mãe, e que seremos mais apaixonados pela Vida que ela nos
dá quando tivermos a alegria de um travesti, a esperteza de um bêbado e a
espontaneidade de um malandro.)
O Reino de Deus é este tempo em que se descobre que a
vida é uma graça, que a presença ausente de Deus envolve tudo em todo tempo e
lugar e que, por isso mesmo, toda vida deve ser preservada, promovida, amada e
vivida de modo pleno. A boa notícia de Jesus é que chegara a hora em que todos
poderiam saber disso e viver conforme essa novidade. O Reino estava inaugurado.
“Viver conforme residentes do Reino” era toda a pregação de Jesus:
converter-se. Viver conforme a descoberta do amor sem condicionamentos, do amor
do Divino por nós e do nosso amor pela vida, com todas as fragilidades, com
todos os defeitos, com todas as ambiguidades.
A pregação de Jesus pressupõe a disposição de assumir
a religião como uma ética e não como um código jurídico, assumir uma forma de
vida e não um tratado dogmático. A salvação de quem aceita a realidade do Reino
não é uma decisão jurídica baseada numa troca entre iguais: é um presente que
se manifesta numa maneira de estar no mundo. E Jesus não impõe nenhum critério
para que alguém acesse o Reino, senão o da aceitação total. A crise que essa
mensagem provoca se instala justamente nos centros de poder que necessitam,
para manterem-se e se reproduzirem, da criteriosa separação, da concessão de
privilégios, da barganha de considerações. Esses centros de poder estão
encravados nas relações inter-pessoais e, portanto, estão na própria tessitura
da linguagem e da sociedade. Por isso que é provocante e assustadora, para
qualquer um que a escute, a ternura louca do Evangelho que Jesus anuncia.
Assumir aquele estilo de vida supõe a negação espontânea de todos os aparatos
de poder a que o indivíduo é educado a desejar. Esses aparatos de poder e o
desejo de possuir o poder como uma mercadoria carregam consigo a destruição da
vida e das possibilidades infinitas de viver a vida e de desejar vivê-la, sendo,
portanto, o desejo de poder o cerne da infidelidade à graça da vida.
O poder, sendo uma categoria das relações da
linguagem, passa a ser o alvo da crise que o Evangelho anunciado provoca, sem
que pra isso haja deliberações e montagem de estratégias por parte de Jesus e
de seu grupo de amigos. Jesus, pelo simples fato de viver o instante de modo
pleno e por demonstrar serena e fortemente o gozo da vida e da aceitação do
Amor Incondicional, instala o rasgão na forma de ver e de estar no mundo
daqueles que com ele mantém o mínimo contato.
A vitalidade da pregação e da vivência de Jesus
queima a alma de quem o escuta como um chamado forte de retorno à vocação da
vida que é a liberdade e a gratuidade. Assumir essa forma simples e livre de
viver, para o entendimento de Jesus, era uma tarefa que só poderia ser levada a
cabo por aqueles que se desembaraçassem de suas regras pesadas, do emaranhado
das leis que regem cada centímetro do corpo e da vida; uma tarefa para os
pequeninos, os analfabetos, os que não esperam mais nada da vida, os que
perderam a oportunidade de vencer na vida, os que não gozam da reputação
outorgada pelos outros, os viciados, os corrompidos, os desesperados, os
abobalhados, os de quem todos esperam mancadas.
Esses, por nada terem que resguardar, podem abrir-se
escancaradamente, com seus erros e com suas feridas, ao amor incondicional da
Vida e esses podem descobrir a abundante vida que surge de dentro da opressão.
Esses entendem que o caminho para salvar a alma, segundo a Boa Notícia, começa
por não pensar em salvar a alma.
Paulo, rasgado de paixão por essas novidades, arma-se
de cuidados para que a mensagem seja levada ao máximo de pessoas no menor tempo
possível e que a mensagem chegue carregada de testemunho a qualquer recanto de
qualquer povo e qualquer religião. Paulo não admite barreiras para o anúncio da
Boa Notícia do Reino. Por isso, toda a sua pregação baseia-se na universalidade
do Cristo. A categoria Cristo para Paulo invoca a pessoa de carne e osso que
foi Jesus de Nazaré e, para além, invoca o espírito da atuação de Jesus, que
deve presentificar-se em quem quer que assuma a vivência do Reino. Cristo é
Jesus em nós. Paulo preocupa-se com a eficiência da pregação do Evangelho e da
vivência do Reino, por isso pressupõe que devam ser criadas comunidades
estáveis, que se reúnam periodicamente e, para avivar a mensagem da salvação,
celebrem, isto é, ritualizem. A preocupação de Paulo, óbvio, é válida e muito
pertinente, mas não se pode deixar de ver que aqui se desenha a diferença entre
a vivência da religião segundo Jesus e segundo Paulo.
Os elementos da vida em comunidade – reuniões e
rituais – são a célula do surgimento de uma institucionalização da mensagem,
especialmente quando começa a se debater sobre a escolha de critérios para a
admissão de pessoas. As pessoas para terem acesso à vida daquela comunidade
precisam moldar-se ao seu estilo de vida, que, paulatinamente, vai se
homogeneizando. O problema aqui não é o da pureza ou impureza das pessoas que
fazem a instituição que está surgindo; este problema da separação entre puro e
impuro já fora abolido por Jesus, vide a parábola do trigo e joio. O problema
reside na formatação criteriosa para a admissão do postulante, que responde a
um código de poder instalado no miolo da linguagem e que vai se consolidando de
modo unívoco. Paulo consegue, sem dúvida, manter a vitalidade da mensagem do
Evangelho ainda diante da nascente institucionalização, mas não conseguiu
garantir que assim fosse na posteridade.
As comunidades posteriores, especialmente depois do
terceiro século, no período de decadência do Império Romano, deslumbradas com a
possibilidade de tornarem a Boa Notícia hegemônica urbi et orbi, inflaram a
prudência sensata de Paulo e minimizaram a escandalosa insensatez de Jesus, achando
melhor para os seus fins adotar um modo mais organizado e estruturado de
resguardar a mensagem; a isso corresponde a escolha criteriosa dos textos a
serem outorgados o sobrenome de Sagrados e o esforço em criar uma história de
unificação triangular, ou melhor, piramidal, de códigos, costumes e,
principalmente, de organismos. Mas, segundo uma leitura menos aparelhada dos
escritos sobre o Evangelho de Jesus, pode-se perceber uma certa dose de
voluntarismo dos escritores quando pretendem basear em Jesus a fundação de uma
instituição que deveria tomar conta de sua mensagem. Os textos em que Jesus
funda sua igreja apostólica estão dissonantes dos acontecimentos precedentes e
da trajetória da pregação da Boa Notícia. Ainda assim estes textos não
conseguem conter a voracidade com que o comportamento e as palavras de Jesus
incendeiam tudo.
A vivência de Jesus da religião não prescreve a
estrita necessidade de uma instituição para resguardar a sua Boa Notícia. Pelo
contrário, o estritamente necessário era a abolição de qualquer estrutura de
poder que tomasse para si a posse do Divino e estabelecesse o mínimo de
critério que fosse para o acesso à Liberdade e ao Amor. Nesse sentido, a Igreja
de Jesus estava presente em qualquer mínima comunidade que mais se empenhasse
em fazer como ele, em qualquer tempo e lugar, do que em preservar um possível
mito. A Igreja de Jesus – ou seja, as pessoas e as comunidades que se
empenhariam em propagar a Boa Notícia de que o Reino chegara – adota um método
parecido com a fissão nuclear em que a explosão de um átomo é a causa da
explosão dos dois átomos vizinhos e assim sucessivamente. Ou ainda, como uma
sala repleta de ratoeiras armadas, se uma ratoeira desarma e cai em cima de
outra, todas as ratoeiras da sala tendem a ser atingidas pela síndrome do
desarmamento. Isto é, a Boa Notícia do Reino baseia-se em dois meios: o anúncio
e a vivência. Viver conforme o Reino e anunciar a sua presença, sem mais. Quem
ouvisse o anúncio e para si assumisse a residência no tempo do Reino, deveria viver
conforme um residente do Reino e anunciá-lo a outros e assim por diante… É isso
que dá sentido ao koan que Jesus aplica nos seus amigos quando eles reclamam
que há pessoas fora do grupo originário que estão atuando em seu nome, isto é,
estão anunciando e vivendo conforme o Reino. Jesus responde: “Aquietem-se! Quem
não espalha o que ajunto, está ajuntando comigo.” Digamos que para nós soe
assim: “Aprendam! Quem assumiu o tempo do Reino como seu tempo, e o anuncia, e
vive conforme isso, não precisa estar babando de sentimentalismo aos meus pés,
não precisa confinar-se entre as colunas de um templo majestoso, não precisa
demonstrar que é meu amigo com palavras arrogantes e fartas de adjetivos
laudatórios, não precisa participar de rituais que em nada lhe sublima o
espírito, não precisa defender leis anacrônicas criadas em meu nome. Olhem para
eles e vejam vocês o quanto é preciso livrar-se de um peso do qual eu lhes
ajudei a se safar, e que vocês, por medo da liberdade, colocaram de novo em
suas costas.”
Descoberto em Bacia das Almas.
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