Por Gabriele Greggersen
Gostaria de ter dado continuidade ao meu papo sobre
as Crônicas de Nárnia, mas certamente teremos mais oportunidade para isso. O
que me ocupa nos últimos meses é outra coisa. Fui surpreendida por uma nova
missão: traduzir C. S. Lewis, aquele Jack em sua melhor forma, como professor
emérito de Literatura Medieval e Renascentista Britânica. Trata-se praticamente
da tradução de sua obra acadêmica completa.
Finalmente o Brasil conhecerá outra face deste
apologista cristão, que é a do profissional acadêmico de mão cheia e
reconhecido no mundo todo por sua contribuição para a sua área de atuação. A
pergunta: “quem é que vai ler C. S. Lewis no Brasil?”, que me foi feita anos
atrás por um editor já não se aplica, pelo menos é essa a aposta. Então,
resolvi compartilhar algumas de minhas dificuldades nessa empreitada, que se me
fizeram lembrar de um dos capítulos de seu clássico “Cristianismo Puro e
Simples”, traduzido como “O Cristianismo: é difícil ou fácil?”.
Só lembrando um pouco o que Jack diz ali sobre o
Cristianismo: ele é difícil, pois não exige nada mais nada menos do que a
entrega total (do orgulho, do egoísmo, dos medos, dos sonhos, das realizações,
das razões e desrazões) e por causa das consequências disso (aprender a lidar
com os paradoxos da vida). Mas é, ao mesmo tempo, fácil e isso num sentido que
vai além das dificuldades, porque Deus faz tudo por nós: o querer e o realizar,
como por um passe de mágica, apesar de nós. É fácil também, porque o “fardo é
leve”, por mais contraditório que isso possa parecer.
Então, resolvi fazer um paralelo desse paradoxo com a
própria pessoa de C. S. Lewis, que reflete em si as contradições presentes em
toda a criação e em todo o cristão: Ler e traduzir C. S. Lewis: é difícil ou
fácil?
Vou começar pelos seus aspectos “fáceis” de ler e
traduzir sua obra: seu carisma, sua paixão pelo que sabia fazer melhor; lidar
com as letras e com os autores; e sua clareza mental; seu equilíbrio e
ponderação na argumentação; sua genialidade; sua humildade; seu respeito pelo
leitor. De uma maneira geral, o fácil é o interesse que ele despertava por
mergulhar em todos esses mundos e universos que ele apaixonadamente nos revela.
A parte difícil da tradução da obra de C. S. Lewis
são as palavras refinadas, que mal se encontram em dicionários atuais, suas
milhares de citações de milhares de autores totalmente desconhecidos para nós e
que ele conhecia como velhos amigos de colégio.
Seu conhecimento poliglota de línguas, entre elas o
Inglês Médio, língua mais morta do que o latim, que o tradutor tem que fazer
verdadeiros malabarismos para tentar decifrar. Sem falar de citações em latim,
francês, italiano, britânico saxônico e grego.
E o que mais: Lewis também erra, pelo menos para o
nosso gosto: Frases longas, com uso constante do “it” (gênero inexistente no
português) até se perder de vista a que ele se refere; uso de expressões
idiomáticas. Todas essas dificuldades fizeram vários tradutores desistiram da
ousadia de traduzir esse autor, principalmente nessas obras.
Mas não quero reclamar disso, desde que o todo da
obra seja compreensível. Os sofrimentos, eu os tomo com minha parte ínfima de
um todo bem mais precioso. O difícil mesmo é a árdua tarefa de subir nas costas
de um gigante que confessava subir nas costas de outros gigantes. Quando nelas
um dia eu subi, não fazia ideia da quantidade de costas sobre as quais ele se
erguia e percebo agora, o quanto mais ainda há por escalar acima delas.
Sou grata a Deus por essa oportunidade que, apesar
das grandes dificuldades passageiras, promete redundar numa boa colheita nessa
seara de poucos ceifeiros.
Como Jack mesmo dizia: nossa missão não é de derrubar
florestas, mas de irrigar desertos. Foi isso que Jesus fez, com suas
misteriosas parábolas e seus milagres, foi isso que fez o apóstolo Paulo, o
imitador de Cristo, é isso que fazem milhares de missionários por todo o mundo
e o que essa modesta imitadora tenta fazer, ao canalizar essas águas
refrescantes para os nossos ermos acadêmicos e cristãos. Peço as preces do
leitor para o sucesso desse desafio que certamente depende por inteiro da graça
divina e serve inteiramente para o Seu louvor.
Descoberto em Ultimato.
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