terça-feira, 20 de março de 2012

As igrejas dos árabes

Por Joel Pinheiro



No último sábado faleceu o Papa. Refiro-me, obviamente, ao Papa Shenouda III, primaz da Igreja Copta, comunidade de cristãos egípcios que se separou (junto com outras comunidades) do restante dos cristãos no Cisma ocasionado pelo Concílio de Calcedônia, em 451. Shenouda reinou por mais de 40 anos a Igreja egípcia, tempo no qual ela se fortaleceu e expandiu tanto em casa quanto ao redor do mundo. Um líder ao mesmo tempo carismático e contemplativo, sua morte foi lamentada por autoridades políticas e eclesiásticas ao redor do mundo, recebendo condolências de figuras como o Arcebispo de Canterbury Rowan Williams e do Papa Bento XVI (Papa, por sinal, é um título honorífico, tradicionalmente dado tanto ao primaz de Roma quanto ao de Alexandria; não representa, de forma alguma, uma tentativa de usurpação nem nada do tipo).



Os últimos anos de Shenouda III dão uma boa mostra das dificuldades e complexidades da situação política, cultural e religiosa do Oriente Médio. O Cristianismo oriental é tema pouco visível, mas é de capital importância para o futuro das sociedades e da convivência cultural e religiosa da região. E o fato que tem ficado cada vez mais patente mesmo para a grande mídia, é que a dicotomia ditadura-democracia não basta para explicar o processo pelo qual passa o Oriente Médio. As ditaduras seculares ou semi-seculares que caíram e estão em risco de cair não eram exatamente pró-cristãs ou defensoras ardorosas das minorias que existem em seus territórios; mas mantinham conflitos religiosos sob algum controle. As democracias populares que supostamente as sucederão são muito mais suscetíveis a surtos e movimentos fundamentalistas ou islamistas sem nenhum respeito por direitos e minorias tradicionais. Para se ter ideia do tipo de mentalidade que pode prevalecer, tenha-se em mente que o grão-mufti da Arábia Saudita afirmou recentemente, sem nenhum receio, que “é necessário destruir todas as igrejas” da Península Árabica.



É por isso que autoridades cristãs, como o próprio Shenouda III, eram ou muito reticentes ou mesmo contrárias às revoltas populares (que, todavia, também uniram cristãos e muçulmanos jovens e esperançosos nas ruas). O patriarca Gregórios III Laham (que é líder da Igreja Melquita, uma igreja bizantina árabe em comunhão com Roma, ou seja, parte integrante da Igreja Católica) vê na Síria de Assad, essa mesma que é capaz de brutalidades indizíveis contra manifestantes, um exemplo de convivência religiosa a ser imitado; ele pede que o Ocidente não ajude a mudar o regime, mas ajude o regime a mudar. O patriarca ortodoxo antioqueno é da mesma opinião.



Esses regimes, cuja derrubada tem sido apoiada pelas potências ocidentais, representam uma proteção a populações não-islâmicas (ou, se islâmicas, de vertentes minoritárias, como é o caso do grupo dos alawitas ao qual o próprio Assad pertence) que, sob um regime muçulmano sunita mais devoto, seriam extirpadas sem grandes remorsos, e sob um governo enfraquecido ficam à mercê de turbas fanáticas, terroristas e outros males. A título de ilustração: a população cristã do Iraque (que chegava a 1,5 milhões) caiu para menos da metade desde a invasão americana; um êxodo em massa que reflete a piora da situação para os cristãos, vítimas de terrorismos constante, embora o governo seja agora aliado do Ocidente. Já viraram corriqueiros, também, os ataques a igrejas e indivíduos cristãos egípcios desde a queda de Mubarak.



Em certo sentido, a própria existência de cristãos árabes e orientais (que se dividem em quatro grandes grupos institucionais: católicos de vários ritos, ortodoxos, pré-calcedonianos como os coptas – também chamados de ortodoxos, o que às vezes gera confusão – e assírios) é uma refutação da tese do embate civilizacional entre árabes muçulmanos e ocidentais cristãos. Para os governos ocidentais, são um inconveniente, vítimas de violação de direitos por parte (ou pela negligência) de governos aliados, radicalmente contrários à presença estrangeira em seus países e aliados da causa palestina. Pelos islamistas, são pintados como uma verdadeira quinta coluna ocidental.



Enfim, a situação é delicada, crítica e tem se deteriorado. Shenouda III foi um homem que, devotamente, liderou sua Igreja em meio a um ambiente hostil, que exige cautela e prudência constantes. É fácil criticar líderes como ele (e como os demais, sejam católicos ou ortodoxos, cujo posicionamento é o mesmo) pela subserviência aos poderes estabelecidos e ao Islã em geral (todos são unânimes em dizer que o Islã não é o problema) e pelo ânimo antiocidental e anti-Israel que frequentemente demonstram. Ao mesmo tempo, é graças a homens como esses que perdura a esperança de uma coexistência pacífica entre cristãos e muçulmanos pertencentes a uma mesma cultura.


Diretamente de Dicta&Contradicta.

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