Encarnar é apresentar-se a si mesmo como um corpo,
como este particular corpo, sem ser identificado com ele nem distinto dele –
sendo que identificação e distinção são operações correlatas que só tem
significado no âmbito dos objetos.
Gabriel Marcel, existencialista cristão, em Creative
Fidelity (Du Rufus à L’Invocation)
Joseph Campbell sugeria e utilizava duas chaves
básicas para a interpretação da linguagem figurada dos mitos, das parábolas e das
profecias: quando fala sobre o futuro, o mito está na verdade falando sobre o
presente; quando fala de coisas que acontecem no mundo exterior, o mito está na
verdade falando de coisas que acontecem no mundo interior. Nesse sentido, a
linguagem figurada do Apocalipse de João não aponta para eventos catastróficos
que devem abalar o mundo físico no futuro: ele fala de eventos catastróficos
que devem revolucionar o nosso mundo interior hoje mesmo.
Em Life After Death, seu polpudo empreendimento em
traçar a geografia e a história da vida após a morte no ocidente, Alan F. Segal
propõe um princípio que ao mesmo tempo complementa esses de Campbell e os
acompanha em sua lógica paradoxal: quando falam da vida após a morte, as
culturas estão na verdade falando daquilo que consideram importante nesta vida.
A vida eterna não é o que costumava ser, nem mesmo
dentro da tradição cristã. O céu já foi o retorno ao jardim do Éden, já foi a
cidadania exercida dentro dos limites da Jerusalém celeste, já foi uma vida
muito física numa versão reabilitada deste planeta, já foi um mergulhar
indistinto na rosa mística da divindade, já foi uma paz indistinguível do tédio
entre harpas e nuvens, já foi trabalho braçal e já foi existência desencarnada,
já foi um banquete e um oceano e um coro e uma aventura e um esquecimento e uma
biblioteca e um mutirão e uma plenitude e um recuperar de saudades esquecidas.
A geografia do além-túmulo alargou-se na Idade Média para poder abrigar o
purgatório; em compensação, muitos mapas recentes tem se recusado a encontrar
espaço na vida futura para o inferno. Ao longo dos séculos o conteúdo do que
esperamos encontrar na vida eterna alterou-se continuamente porque foi
acompanhando aquilo que os seres humanos consideram ter valor eterno nesta vida
– na nossa vida.
O desenho coletivo que fazemos da vida após a morte
sublinha o que acreditamos deve ser preservado eternidade adentro da
experiência deste mundo. A vida no além fala daquilo em nós mesmos que
acreditamos que deve permanecer, por isso acaba revelando aquilo que
acreditamos que somos. O que esperamos ver preservado na transição da morte é
nossa verdadeira essência, nosso eu mais fundamental: ou seja, a paisagem da
vida eterna ajuda-nos a revelar para nós mesmos os contornos da identidade.
E qual é a parte de nós que melhor nos representa,
aquela porção que merece permanecer? Se o que resta depois da morte é a faceta
mais essencial de nós mesmos, o que exatamente deve restar? O que exatamente
somos?
A resposta que os gregos da antiguidade tendiam a
apresentar a essa pergunta é a de que o que permanece é a alma. Para os antigos
gregos o corpo se corrompe e passa, mas a alma é imperecível e eterna – o que
deve ser considerado uma boa notícia, porque o corpo é a porção mais casual e
embaraçosa da experiência, e a alma é a nossa verdadeira essência. Para os
gregos, o corpo é uma prisão e um acessório e uma casca; a alma é divina e
alada e central. A alma é o que somos, por isso somente a alma sobrevive a
transição e o crivo da morte, a viagem definitiva que elimina o contingente e o
supérfluo e só deixa espaço para o essencial.
Curiosamente, a tradição cristã acabou adotando
essencialmente a resposta grega para a questão do que merece sobreviver à
morte. Para a maioria dos cristãos ao longo dos séculos, o que deve ser salvo
para a vida eterna é a alma; a preservação do corpo é raramente mencionada.
Especialmente revelador é que essa ênfase denuncia, a
partir do princípio de interpretação sugerido por Segal, que para os cristãos a
alma é aquilo que realmente somos. A visão de mundo de todas as facetas do
cristianismo popular é a de que não somos em nenhum sentido importante os
nossos corpos, do contrário a vida eterna proveria a preservação deles.
É curioso e paradoxal que a resposta grega à questão
do que essencialmente somos tenha sido adotada pela cristandade, porque a
resposta bíblica para essa mesma pergunta é muito outra. Na visão de mundo
bíblica, o corpo é muito claramente preservado para a vida eterna; ou, para
dizer de outra forma, para a Bíblia o corpo é parte essencial – em sentido nenhum
é um acessório – daquilo que realmente somos.
Os gregos falavam da vida eterna em termos de
imortalidade da alma; os judeus e os primeiros cristãos falavam da vida eterna
em termos de ressurreição do corpo. Em todos os sentidos, há um abismo de diferença
entre uma noção e a outra. Se Alan F. Segal está certo, e nossa visão da vida
após a morte revela aquela que consideramos ser nossa verdadeira identidade
nesta existência, para a Bíblia a identidade reside no corpo. Para a Bíblia, o
ser humano é indivisível do corpo; o corpo não nos contém, o corpo somos. Eu
sou o meu corpo e você o seu.
É o tipo de coisa que quando articulada soa quase
revolucionária, quase reviravolta barata de livro de Dan Brown, porque ninguém
ignora que por milênios a igreja se mostrou inimiga contumaz de tudo que diz
respeito ao corpo. O cristianismo se ocupa de pregar um modo de vida
desencarnado nesta vida, que dizer do além-túmulo, espaço antisséptico para o
qual reservamos a perfeição.
O paradoxo, claro, está em que por milênios os
cristãos têm se ocupado em salvar as suas almas e em desembaraçar-se de seus
corpos, quando a Bíblia dá a entender de muitas maneiras de que na verdade nós
somos os nossos corpos, e de que o espaço da vida eterna, longe de representar
uma oportunidade para nos livrarmos finalmente do corpo, deve ser ocasião para
abraçarmos o corpo em sua plenitude, e em regime definitivo. Para a Bíblia o
corpo estará conosco para sempre, porque ele no fim das contas é o que somos.
É claro que a Bíblia fala também de uma
bem-aventurança de corpos transformados, isto é, usa a metáfora de uma
existência corpórea aperfeiçoada, de um corpo livre dos percalços da corrupção.
Mas se essas imagens insistem na restauração do corpo e na reabilitação da
existência física é justamente porque o corpo é tão fundamental dentro da visão
de mundo bíblica.
É pelo mesmo motivo que nas narrativas dos evangelhos
Jesus se rebaixa a fazer milagres – e são, na quase totalidade dos casos,
milagres que concentram-se na reabilitação do corpo humano, e portanto da
identidade. Um milagreiro é um cara incômodo porque insiste que a realidade
física precisa ser corrigida, ou seja, que a realidade física é uma coisa
importante. No Novo Testamento o mundo dos sentidos não é uma ilusão – não é
uma tentação ou uma distração, como sugerem outras tradições.
Na postura de Jesus o mundo dos sentidos é nosso
único espaço de vida e de identidade. É por isso que Jesus perde pouco tempo
pregando a salvação de almas (no sentido incorpóreo da palavra) e investe grande
parte do seu tempo útil na reabilitação e no sustento de vidas (no sentido
integral da palavra, em que a noção de corpo é fundamental). É por isso que o
rabi pausa para dar comida, para tocar leprosos, para realinhar membros, para
despertar mortos, para aceitar massagens, para servir de travesseiro, para
fazer vinho.
É por isso que o verbo se fez carne e é por isso
porque o corpo ressuscitado de Jesus tem as cicatrizes da cruz. O corpo é
eterno, e tudo que fazemos dura para sempre, porque ele somos nós. Desta vida
tudo se leva, porque neste velho corpo carregamos tudo conosco.
O grande peso e o grande paradoxo da condição humana
não está em que este corpo mortal não tem vocação para a imortalidade, mas
precisamente no contrário: o peso de ser gente está em que tudo que o corpo
sabe experimentar é eternidade.
Diretamente da Bacia das Almas.
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