domingo, 1 de abril de 2012

Os cristãos ocultos do Japão



Denomina-se o Século Cristão do Japão o tempo que vai de 1549, época na qual chegou São Francisco Xavier àquelas ilhas, até 1614, em que o governo de Tokugawa deu início à perseguição contra os cristãos. Contam os documentos daquele século que o número de japoneses que abraçou o cristianismo foi muito grande, quase 300.000. No entanto, por razões políticas o governo do Japão decidiu fechar o país a toda influência estrangeira, o que significava desterrar o cristianismo e tudo o que fosse relacionado com ele: os missionários estrangeiros foram expulsos e todos os nativos convertidos eram martirizados. Parece que o número de mártires foi muito grande. Esta situação permaneceu até 1863, quando o Japão voltou a abrir-se às influências de fora, e os missionários cristãos foram admitidos novamente.

Mas quando os cristãos do Japão foram expulsos, um bom número deles se escondeu nos morros, junto com alguns de seus missionários. A perseguição aumentava e alguns dos missionários estrangeiros foram descobertos e martirizados com muitos japoneses. Quando prendiam e tinham dúvidas se eram ou não católicos, eram submetidos à prova do fumi-e: eram obrigados a pisar uma placa com a imagem de Cristo ou da Virgem Maria senão seriam martirizados; se pisassem, considerava-se que tinham apostatado de sua fé. Outros conseguiram escapar dos perseguidores e permanecer escondidos na espessa vegetação das matas japonesas.

Assim começou a existir a Igreja oculta do Japão, que durante dois séculos e meio, de geração em geração, permaneceria fiel a sua fé em Cristo. Os pais batizavam seus filhos e os educavam na fé, ensinando-lhes a doutrina cristã e as orações, sem sacerdotes que lhes administrassem os sacramentos, e com uma transmissão oral da Bíblia… Este foi um dos maiores milagres morais na história da Igreja universal, em que a fidelidade à fé foi possível graças à força do Espírito, que se mantinha sem desfalecer em milhares de japoneses. Os pais davam aos filhos sinais para que não se equivocassem, quando voltassem ao Japão os missionários da verdadeira religião… E assim foi de geração em geração.

Em 1863 voltaram ao Japão uns sacerdotes das Missões Estrangeiras de Paris, e dois anos depois já tinham construído, em Nagasaki, a Catedral de Oura, onde começaram a celebrar o culto católico. Um dia o missionário achou estranho a entrada de um grupo de camponeses japoneses naquela Igreja. Cumprimentou-os e perguntou-lhes de onde vinham. Eles lhe disseram que queriam saber se ele havia sido enviado pelo Papa de Roma. O missionário lhes assegurou que sim. Ao longo da conversa, aqueles japoneses lhe perguntaram se ele podia apresentar a esposa dele. O missionário lhes disse que era sacerdote católico, e que eles não se casavam. Continuaram conversando e, finalmente, perguntaram ao missionário se ele venerava a Virgem Maria. Em seguida os levou ao altar em que se encontrava uma imagem da Virgem com o Menino Jesus, e diante dela, os japoneses lhe disseram: Nós temos a mesma fé que você e viemos das matas onde permanecemos durante gerações, guardando a fé recebida de nossos antepassados… Eles nos deixaram estes três sinais para descobrirmos, se os missionários que viessem eram católicos ou não… Desde então, essa imagem de Nossa Senhora, conservada na Catedral de Oura, chama-se Nossa Senhora do Descobrimento.

Aqueles japoneses voltaram para as suas casas e comunicaram a boa nova aos outros. A maioria foi voltando para a Igreja católica e se apresentavam ao missionário como irmãos de uma mesma fé. Somente um pequeno grupo dos cristãos ocultos é que não quiseram reconhecer o missionário que chegara ao Japão, e permaneceram escondidos. Ainda permanecem alguns nas pequenas ilhas do sul do Japão, e são conhecidos como Kakure Crshtan, cristãos ocultos, mas pouco a pouco vão desaparecendo.

Este milagre moral da fidelidade à fé da Igreja no Japão é um dos mais impressionantes de toda a história. Sem sacerdotes, sem sacramentos, de geração em geração, aqueles japoneses cristãos se mantiveram fiéis à fé transmitida por seus antepassados, durante mais de dois séculos e meio. Aquela fidelidade, que floresceu em meados do século XIX, custara o sangue de muitos mártires.

Fernando García Gutiérrez, S.J. Publicado na Revista Jesuítas da Espanha.

Descoberto em Biblioteca do Mosteiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário