Ora, eis que encontrando cristãos, observando-os
viver – e morrer –, conversando com eles ocasionalmente, pressentia-se como que
outro modo de ver, de se ver, de ver os outros, e de entrever o divino. Embora
os primeiros cristãos não sejam todos virgens e mártires, aos olhos dos pagãos
alguma coisa chegava a dar inveja. Havia entre aqueles cristãos como que uma
presença que eles eram os únicos a sentir. Uma presença que lhes inspirava o
comportamento, não apenas religioso. Mesmo entre eles, as relações pareciam
diferentes. Como se nunca estivessem sozinhos. Como se aquela presença
acompanhasse a todos e cada um ao longo dos seus dias e, a dar-lhes crédito,
para além da morte e por toda a eternidade. Certamente, os cultos de mistério
já prometiam a imortalidade, mas, naquele caso, sentia-se algo de mais íntimo;
uma proximidade incomum para um deus. Havia, porém, outra coisa. A se acreditar
nos cristãos, Christus se assimilara aos humanos como nenhum outro deus até
então. Um de seus textos dizia: Ele plantou sua tenda entre nós, eskénosen en
emìm. Assim, e isso era inconcebível, o deus Christus se fez homem a ponto de
assumir o sofrimento e a morte – e em que condições! E mesmo que não o
compreendessem muito bem, as pessoas descobriram, maravilhadas, que para aquele
deus um ser humano importava. A vida de cada um recebia, de repente, um
significado eterno no interior de um plano cósmico. E como era assim para todos
e cada um, a ideia de fraternidade ganhava forma, concretizando a abstrata
philantropia dos sábios. A ideia de um deus de amor implicava a de um amor sem
fronteiras. Pois, com o Cristianismo, a devoção mudou de natureza. Não era mais
uma questão de ritos a serem cumpridos em momentos determinados; as pessoas não
se safavam mais com uma vítima, ou com um pouquinho de incenso nas brasas. Era
a si próprio que se tinha de sacrificar como Christus se sacrificara. Era
preciso oferecer-se ao deus, e também aos outros, que se tornaram igualmente
irmãos para serem amados como a si mesmo. Nada fácil, mas pertubador. Tudo
isso, com o que ninguém jamais teria sonhado, tinha por que fascinar.
[Fonte: Luc Ferry e Lucien Jerphagnon, A tentação do
Cristianismo: de seita a civilização. Editora Objetiva, 2011]
Lido em Ed René Kivitz.
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