Outro dia, no táxi a caminho do Galeão, passou por mim um carro vermelho em alta velocidade. O motorista parecia um rapper latino de filme independente americano, com boné virado pra trás e imensos óculos escuros. O interior do carro emanava um funk ensurdecedor que ajudava a compor a barulhenta sinfonia da Linha Vermelha às 8h30 da manhã, em que buzinas, roncos de motores e turbinas de avião se misturam numa música que nem John Cage poderia conceber.
Depois que o carro passou, reparei num plástico enorme no vidro de trás com os dizeres: DEUS É FIEL. Não foi a primeira vez que vi a frase, claro, ela é bastante difundida, mas foi a primeira vez que refleti sobre ela. Essa frase sempre me intrigou. A que se refere, afinal de contas? Deus é fiel a quem? A Ele mesmo?Ora, se Deus, por definição é “causa necessária e fim último de tudo que existe” Ele não tem que se preocupar em ser fiel a si mesmo, pois já que está acima de todas as coisas não precisa, por definição, “não contrariar a confiança depositada”. O mesmo vale para a sua, digamos assim, ideologia, ou doutrina. Mesmo que Ele envie um planeta em rota de colisão com a Terra e destrua a vida humana por estas plagas, ainda assim continuará sendo fiel aos seus desígnios, já que estes são, também por definição, insondáveis. Portanto dizer que Deus é fiel a si mesmo é afirmar uma tremenda de uma redundância.Pode-se, por outro lado, argumentar que Deus é fiel aos que Nele crêem. Mas como todo fiel é por definição passível de ser traído, não seria errado afirmar, no caso de um crente que “abandone” Deus para flertar com o diabo, por exemplo – o que vive acontecendo -, que Deus é traído em alguns casos. Nesse caso seria tão correto afirmar que DEUS É TRAÍDO quanto que DEUS É FIEL.
Tony Bellotto faz uma pergunta simples,
quase trivial: “Deus é fiel a quem?”. Uma pergunta aparentemente tola, porém
fundamental. Como é possível dizer “Deus é fiel” sem cair na simples tagarelice?
Filosofica-teologicamente não é difícil responder,
Deus é fiel simplesmente porque ele não muda, daí que dizer “Deus é fiel” é
dizer que ele não muda. Ele é fiel a si mesmo. Tony tem razão, de certo modo afirmar
a fidelidade de Deus para consigo mesmo é ser redundante[1].
Como o próprio Bellotto percebe, essa afirmação ganha destaque quando se pensa na
esfera humana. Ao mesmo tempo que se afirma a imutabilidade divina destaca-se a
mutabilidade humana.
Aliás, todo nosso “conhecimento” sobre
Deus é proveniente do próprio Deus, ou seja, só temos algo a dizer sobre Deus
porque ele decide falar conosco. Desse modo, quando falamos de Deus, devemos ter
em mente que estamos em um diálogo. Não se trata de escrever tratados de
filosofia ou teologia. Trata-se de uma relação entre duas pessoas, nós e Jesus
(Deus).
Dessa maneira, não seria melhor deixar o
adesivo na gaveta? Não seria mais produtivo refletir sobre o fato de que a
fidelidade divina implica nossa infidelidade? Daí o reconhecimento do papel
fundamental de Jesus Cristo, pois apenas por meio dele podemos nos aproximar
novamente de Deus. Com o adesivo na gaveta e a meditação silenciosa, a frase “Deus
é fiel” poderia gerar o louvor devido a Deus e a contrição de coração daquele
que o ama.
Bem, isso me parece muito mais razoável.
[1] A questão sobre o plano divino e
sua interferência no mundo pouco nos importa aqui. Basta-nos saber que sua
fidelidade está ligada a sua imutabilidade.
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