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| Dupla criacionista distribui material de campanha num congresso político em Washington |
Caros leitores. Vou confessar uma coisa. Estou
preocupado com o criacionismo. De verdade. Até pouco tempo, eu costumava
considerar esse movimento ideológico como um fenômeno anglo-americano com
poucos reflexos no Brasil. Achava que, sobretudo, era algo que não representava
ameaça à educação científica no país. Talvez eu esteja errado.
Confesso, me surpreendi com um "tuitaço"
que conseguiu colocar a etiqueta #criacionismo entre os tópicos líderes no
Twitter nesta sexta-feira. Não acho que o Ministério da Educação jamais será
louco o suficiente para a incluir pregação religiosa nas aulas de ciência por
causa disso. O sucesso do criacionismo em se disseminar no Brasil, porém, é um
sintoma do fracasso das escolas em ensinar biologia adequadamente. A propaganda
criacionista brasileira, reconheçamos, soube aproveitar uma brecha para seduzir
boa fatia do público com uma idéia errada.
Quem acha que eu vou usar esse espaço para escrever
um libelo ateu, porém, está enganado. O que os criacionistas sempre tentam
esconder, na verdade, é uma constatação filosófica que torna suas idéias
incoerentes: a teoria da evolução de Darwin é, sim, compatível com a hipótese
da existência de Deus.
Aquilo que Darwin abalou foi uma interpretação
literal das narrativas da Bíblia. Alguns teólogos, mesmo antes do século 18, já
vinham lendo as escrituras sagradas de maneira diferente, realçando o valor
mítico e metafórico dos textos, sem tentar convencer a todos que os dinossauros
se extinguiram porque não cabiam na Arca de Noé. Uma leitura mais inteligente e
aberta da Bíblia permite hoje que muitos teístas tenham uma visão de Deus que
não requer o descarte de uma das teorias mais sólidas e comprovadas da história
da ciência, a origem das espécies por meio da seleção natural.
Hoje, quem está aderindo ao criacionismo por motivo
de fé religiosa possivelmente não leva em conta que esse movimento não é
invenção dos apóstolos de Jesus, mas sim de um ultraconservadorismo político
puritano tentando agregar poder nos EUA e na Inglaterra. Demarcar território
nas escolas fazendo lavagem cerebral com crianças em idade de aprender biologia
básica foi uma das formas que esse grupo encontrou para espalhar sua palavra em
meados do século 20.
É difícil enxergar esse contexto no Brasil, um país
onde o criacionismo chegou como chiclete com banana, uma idéia meio fora de
lugar. Na década de 1990, o ateísmo militante é quem começou a pronunciar o
nome do problema. Na época, ao insistir na exibição de provas para a
"inexistência" de Deus, autores como Richard Dawkins perderam o
respeito de filósofos e, suspeito, contribuíram mais para disseminar o
criacionismo em terras sulamericanas do que para erradicá-lo.
Aqui nos EUA, porém, o programa ideológico
criacionista ainda é bem claro, e não deixa lugar para dúvidas. Recentemente
testemunhei isso de maneira viva, e consigo até perdoar Dawkins por ter tanto
ódio no coração.
Alguns meses atrás, a sorte do ofício me levou a um
evento patrocinado por simpatizantes do Partido Republicano americano em
Washington. Batizado de "Values Voter Summit", o encontro tinha a
finalidade de reunir eleitores que buscam candidatos em sintonia com seus
valores morais.
Chegando lá, levei menos de um minuto para descobrir
de que se tratava a convenção: um desfile de idéias ultraconservadoras,
preconceitos e propostas autoritárias defendidas pela direita da direita dos
EUA. Lotando um dos saguões do hotel, diversos expositores distribuíam material
de campanha contra o planejamento familiar, pedindo a proibição do casamento gay,
defendendo leis anti-imigração, atacando o direito ao aborto, sugerindo mais
guerras contra países islâmicos, querendo menos controle para o porte de armas
e até criticando o direito de se falar línguas estrangeiras em solo americano.
Não poderiam faltar a uma festa dessas, claro, os
criacionistas.
Em uma das mesas expositoras, dois simpáticos
senhores abordavam os curiosos que passavam à deriva para pedir contribuições.
Estavam arrecadando fundos para sustentar uma "bolsa de estudos"
criacionista em Pittsburgh, Pensilvânia, um dos quartéis-generais do movimento.
O "Values Voter" era também, claro, uma ótima oportunidade de atrair
voluntários que desejassem se tornar "educadores" criacionistas.
Para quem chegasse ao evento com a idéia de que o
criacionismo é um movimento espontâneo sem interesses políticos, porém, os
expositores já deixavam seu recado. Exibiam broches com o logotipo de campanha
de Rick Santorum, pré-candidato a presidente que é o novo queridinho da extrema
direita republicana dos EUA.
Não tenho a intenção de discutir aqui se as idéias
defendidas em círculos ultra-reacionários americanos estão certas ou erradas.
Só queria mostrar que é esse o pacote ideológico onde o criacionismo prosperou
e se encontrou. Ele foi moldado para se encaixar ali. Acho justo que os
simpatizantes desse movimento exportado para o Brasil saibam o que estão
comprando.
Publicado em Blog de Ciência.

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