Um pouco de tomismo...
Por Joel Pinheiro
Muito comum o maravilhar-se com a ordem do cosmos e
ver, por detrás dela, uma inteligência divina. Afinal, para que todas as coisas
se encaixem tão bem, produzindo ordens desde o maior até o menor plano que a
inteligência humana alcança, deve haver algum ordenador externo.
Contudo, considerem um exemplo pequeno de ordem:
jogamos água num copo cujo interior é completamente irregular e, voilà, depois
de alguns instantes a água adquiriu o exato formato, muito complexo, do
interior do copo. Onde está a inteligência para garantir que a água adquira
precisamente esse formato, e não outro?
Sabemos que pela leis da física, ela tem que adquirir
esse formato. Muito bem; mas então precisamos de uma inteligência para garantir
as leis da física! Não tão rápido! Aquilo a que chamamos de leis da física são
expressões abstratas de como os seres se comportam. E eles se comportam de
acordo com suas naturezas, isto é, de acordo com o que são. Logo, a lei da
física não é algo exterior, imposto aos corpos, mas algo que decorre, que
emerge, de suas naturezas. Podemos discutir isso aqui também, mas me parece uma
opção bem mais parcimoniosa do que dizer que existem dois tipos de coisa
independentes: corpos e as leis, entidades imateriais, que determinam seus
movimentos, de forma que seria teoricamente possível manter os corpos idênticos
mas operando sob leis completamente diferentes.
Portanto, é da natureza da água que ela se comporte
de forma a adquirir o formato de seu recipiente. E dado que tudo é aquilo que
é, então seria impossível que a água não manifestasse essa ordem. Tendo a água
as propriedades que tem, é impossível que ela não adquira o formato do copo.
Isso vale para todos os seres. Tudo é aquilo que é.
Portanto, não importa como fosse o universo, não importa que seres existissem,
todos se comportariam de uma dada maneira e o conjunto teria uma ordem. “Quem
garante que, dando um passo para frente, não chovam donuts de chocolate vindos
do nada e que o sistema elétrico que usávamos até ontem simplesmente pare de
funcionar embora nada tenha quebrado? O universo poderia ser completamente
caótico.” Isso é ilusão verbal. Dado que a realidade é como é (ou seja, que o
universo seja composto de tais e tais seres), tais eventos são impossíveis,
pois envolvem contradições. Envolvem que, digamos, os elétrons deixem de ser
elétrons, que uma natureza seja e não seja ela mesma.
Você me dirá “Ok, mas como e por quê esses seres
existem? É preciso um Criador”. E daí concordo plenamente. O que discordo é
que, para além da existência, seja necessária uma inteligência para garantir a
ordem, pois, conforme meu argumento, dada a existência do que quer que seja, a
ordem se segue necessariamente.
Há, contudo, um motivo pelo qual acho que a ordem do
cosmos aponta (embora não prove) a existência de Deus. O motivo é um argumento
que sempre me pareceu meio fraco, mas que hoje reconsidero. Sim, o universo
necessariamente tem ordem. Mas isso não nos diz qual ordem, ou melhor, qual o
nível de ordem, ele de fato tem. A sopa entrópica final à qual nosso universo
se dirige terá uma ordem, mas comparada com a realidade de hoje em dia mais se
assemelha ao puro caos. A ordem de nosso universo não precisava ser tal como
ela é, e incluir coisas como a vida, muito menos a vida humana (negar isso é
afirmar que a matéria produz a vida humana necessariamente – o que já é, na
minha opinião, uma teologia). Aliás, chama a atenção a improbabilidade da vida
humana, que é algo substancialmente superior a tudo o mais que existe no
universo (não quer conceder a superioridade? Tudo bem, conceda pelo menos a
peculiaridade: de todos os seres do universo, o único que pensa sobre os demais
é o homem).
E há algo que fere nosso senso de justiça (no sentido
menos usual do justo como aquilo que “encaixa perfeitamente”, que faz sentido e
está no lugar certo) mais profundo em se dizer que um universo tal como o
nosso, que permite nossa existência, seja um fruto do acaso sem finalidade.
Apesar da imensa improbabilidade de estarmos aqui, aqui estamos. Claro que esse
senso não prova nada, e por isso o argumento não demonstra a existência de
Deus. Mas, se concedermos que nossa mente e nossos modos de pensar não são
completamente alheios à realidade das coisas, ele ao menos a indica.
Encontrado em Dicta & Contradicta.
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