| Mark
Dever, pastor da Capitol Hill Baptist Church e diretor executivo do ministério 9Marks |
Por Mark Dever
Eu fiquei perplexo (o que não acontece muitas vezes).
Certo homem me disse que seu supervisor havia designado a ele a tarefa de
elaborar um plano para a plantação de uma nova igreja, e que quando ele orou
sobre isso, Deus o instruiu para usar as palavras de Cristo. Deixe-me
esclarecer. Ele contou que Deus ordenara que em seu planejamento para essa nova
igreja, ele deveria consultar, refletir e citar apenas palavras que Jesus havia
dito.
Esse homem era um empregado de tempo integral em uma
organização cristã. Era evidentemente cristão. Além disso, ao contrário de
outros empregados dessa organização, tinha um mestrado em teologia. Obtido em
um seminário evangélico. Lá ele foi, como nós imaginamos, treinado
cuidadosamente sobre a Bíblia e sobre teologia. Também devemos imaginar que ele
trabalhou de alguma forma liderando uma igreja local, já que agora ocupava uma
posição de muita responsabilidade. Foi essa pessoa que estava diante de mim e
me disse com sincera piedade e sinceridade verdadeira que Deus o ordenou a
consultar apenas as palavras de Cristo quando estivesse planejando uma nova
igreja.
Se você já foi ao circo e viu aquela típica entrada
dos palhaços, em que um carro minúsculo surge no meio do palco, e de dentro
dele sai uma porção de palhaços que logo se espalham pelo meio da platéia
causando risadas e até alguns sustos, você tem alguma idéia do que aconteceu na
minha cabeça quando eu ouvi isso. Mas sem a parte engraçada. “Jesus mencionou a
igreja explicitamente apenas duas vezes!”, pensei. “Há mais de 20 outros livros
no Novo Testamento que são cartas com instruções a igrejas!”, pensei. “Quem foi
que te deu tanta responsabilidade?”, pensei. “O que foi que te ensinaram no
seminário?”, pensei. “Como foi que Deus te disse isso?”, pensei. “O que mais
‘Ele’ falou?”, pensei.
E tinha mais. Eu não disse nada, em parte pela
surpresa, em parte pelo medo do que eu pudesse dizer. Após algumas perguntas
respondidas com grunhidos, decidi dizer alguma coisa simples sobre como havia
outros livros do Novo Testamento que o Espírito de Cristo inspirou
particularmente para direcionar igrejas, e que eu esperava que ele também
levasse em conta, e logo dei um jeito de sair dali. Espero que minha surpresa
diante disso tudo não tenha ficado muito evidente.
Situações como essa – e muitas outras – que
aconteceram nos últimos anos que me encorajou a refletir sobre a importância da
doutrina da suficiência da Escritura. Essa doutrina foi um dos pontos
fundamentais da Reforma Protestante. Uma das maiores disputas entre Roma e os
Reformadores era se Deus havia de fato prometido que continuaria provendo
instruções inspiradas e inerrantes através de Pedro e seus sucessores. Roma
afirmava que era isso que Jesus havia ensinado em Mateus 16. Os reformadores
negavam isso, dizendo que, pelo contrário, a Escritura por si só era suficiente
para instrução, mediante a iluminação de nossas mentes pelo Espírito Santo.
Eles ensinaram que as Escrituras são claras e suficientes. Questões importantes
seriam claras ao entendimento, não obscuras. E as Escrituras, se vistas como um
todo, seriam suficientes para nossa necessidade de orientação divina. Existem
muitas outras questões relacionadas a isso, mas o que devemos levar em conta
aqui é simplesmente que as Escrituras são suficientes.
Enquanto o protestantismo Evangélico como um todo
continuou a ensinar assim – margeado pela declaração de autoridade da igreja de
Roma e a tradição pela direita, e declarações subjetivas de autoridade da “luz
interior” de cada um pelos Quakers pela esquerda – surgiu outro pensamento em
meio ao evangelicalismo. Mais em nossa
vida prática do que na teologia escrita, surgiu a idéia de que a Palavra
escrita de Deus deve se tornar a Palavra de Deus a nós pessoalmente por meio de
algum tipo de poderoso encontro com ela ou com seu significado. Isso não
acontece em meio à leitura de textos sobre divindade, como muitos teólogos Neo-Ortodoxos
como Karl Barth imaginavam, mas prática comum e corriqueira. Lembro-me de outro
amigo que participou de um grupo evangélico de estudantes, onde ficaram por
duas horas cantando, orando sinceramente e clamando que Deus falasse com eles,
enquanto por todo esse tempo suas Bíblias ficaram fechadas em seus assentos.
Esse é o problema que a prática do “Deus me disse” com a suficiência da
Escritura. E se nossos pastores e líderes não entendem que a Escritura é
suficiente, não devemos nos surpreender os membros de nossas igrejas, em uma
sincera busca pela verdade, forem até Roma, de um lado, ou ao subjetivismo
liberal, do outro, buscando algum tipo de autoridade que seja suficiente. Os
Mórmons, em particular, se aproveitam da fraqueza dos evangélicos nesse ponto
de terem pouca instrução a respeito da suficiência da Escritura.
Essa questão é vital para nós pastores,
particularmente se formos pastores que valorizam a centralidade da exposição
bíblica em nosso ministério. Um entendimento da suficiência da Escritura é o
contexto em que afirmamos, mantemos e praticamos a centralidade da Escritura na
vida da igreja.
Vinte anos atrás, em meio à enxurrada de escritos
sobre a inerrância da Escritura, pouco foi escrito sobre a suficiência da
Escritura. Ela apareceu em escritos sobre a visão dos Reformados sobre a
Escritura. Então você podia ler um grande artigo de R. C. Sproul, “Sola
Scriptura: Crucial ao Evangelicalismo”, no livro Os Fundamentos da Autoridade
Bíblica, editado por James Montgomery Boice. Mais recentemente, Wayne Grudem
escreveu um capítulo muito bom sobre a suficiência da Escritura em sua Teologia
Sistemática. As últimas páginas são dedicadas às aplicações práticas da
doutrina, e há muita sabedoria nelas. Ele afirma claramente que “quando estamos
enfrentando problemas de genuína importância em nossa vida cristã, devemos
buscar a Escritura com a confiança que Deus nos proverá orientação através dela
para o nosso problema”.
Se vamos nos comprometer com o pastoreio das ovelhas,
levando-as à Palavra de Deus, devemos estar aptos a responder o que significa a
suficiência das Escrituras. Devemos saber, considerar, explicar e ensinar que
as Escrituras são suficientes. Eu sei que elas são. Deus me disse:
Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o
ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para
que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra. (2
Timóteo 3.16-17)
Descoberto em iPródigo.
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