Maria Cristina Fernandes, no Valor Econômico
A voz era de profeta do apocalipse e as imagens, de
um éden terrestre: “Terras a perder de vista, milhares de cabeças de gado,
pistas de pouso, mansão com piscina”.
Durante 26 minutos o programa da Record “Domingo
Espetacular”, que compete em audiência com o “Fantástico”, da Globo, expôs os
indícios de enriquecimento vertiginoso do bispo que comanda a Igreja Mundial do
Poder de Deus.
A denominação compete com a Igreja Universal, dona da
Record, pelos evangélicos pentecostais. Para isso, também conta com um canal de
TV, a Rede 21, arrendada do grupo Bandeirantes.
A Universal deu ao rival o mesmo tratamento que seus
bispos receberam no noticiário quando a Igreja entrou no ramo das comunicações.
Nascida da costela da Universal, a Igreja Mundial do
Poder de Deus ainda não tem a mesma penetração política de sua congênere cujo
PRB chegou ao ministério. Mas a guerra aberta entre as duas igrejas, cujo campo
de batalha são concessões públicas de um Estado laico, indica o flanco político
que lhes foi aberto.
Não foi o PT que inventou o pentecostalismo mas foi
sob a era petista que suas denominações, que falam a linguagem da prosperidade,
mais avançaram nos negócios da fé.
Tampouco foi o PT que proibiu o aborto ou inventou o
preconceito contra os homossexuais, mas a força política adquirida por essas
denominações no Congresso e fora dele tem sido um obstáculo crescente à
secularização da pauta dos direitos humanos.
Confronto de pentecostais é de corar congressistas
Também foi na era petista que as pastorais sociais
perderam rebanho para os programas sociais do governo e viram o equilíbrio de
forças na Igreja Católica pender para a pauta moralista, mais competitiva com o
avanço pentecostal.
Em comum, evangélicos e católicos ganharam terreno
sobre a política partidária no poder de mobilização social como mostrou a
campanha eleitoral de 2010. Esta semana os católicos que protestam contra
petistas-que-matam-criancinhas voltaram ao centro de São Paulo com cartazes de
fetos sendo espetados pela estrela do partido e alusões ao homossexualismo na
esfera eleitoral.
O governo Dilma Rousseff ora age afirmativamente
frente a essa pauta, como na escolha de Eleonora Menicucci para Secretaria de
Políticas para as Mulheres, ora na defensiva, como no episódio em que o
secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, desculpou-se por ter
colocado o dedo na ferida do conservadorismo pentecostal.
Esse avanço se reflete no peso que as bancadas
religiosas ganharam na pauta do Congresso. Atuam pelo poder de veto. Da mesma
forma que, nos Estados Unidos, o direito ao aborto acabou sendo decidido pela
Suprema Corte, no Brasil a união civil de homossexuais, barrada no Congresso,
só seria reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal.
Na discussão da Lei da Geral da Copa, que somou uma
Casa Civil sem autonomia a uma liderança que pegou o trem andando, foi o veto
dos evangélicos à bebida nos estádios, e não a prevalência do Estatuto do
Torcedor que moveu o pano de fundo da trapalhada.
Essas pautas suprapartidárias, encabeçadas por duas
das bancadas mais fortes do Congresso – evangélicos e ruralistas -, têm servido
ao jogo de barganha dos partidos no confronto com o governo do qual se dizem
aliados.
A aposta de que grupos minoritários dentro dos partidos
aliados podem tomar as rédeas no Congresso ainda está por se mostrar
devidamente conectada com a realidade das eleições municipais.
Não são apenas os partidos que ficam mais dependentes
do governo federal para eleger seus prefeitos. Agraciados com o tempo de
televisão no horário eleitoral gratuito, os aliados têm uma moeda de troca
importante para o partido majoritário do governo que tem a pretensão de também
ser o maior nas prefeituras.
É disso que tratam as alianças, mas o petista atento
a esse jogo continua sendo aquele que recupera sua saúde em São Bernardo.
Dilma parece mais concentrada na estratégia de colher
apoio na sociedade a sua cruzada contra os maus costumes nas relações com o
Congresso. Pela primeira vez em discurso público, a presidente expôs a
estratégia de cativar a opinião pública para enfrentar o bloqueio de seus
aliados.
Ao escolher o jeitinho brasileiro como alvo – “a
maioria dos brasileiros cansou de conviver com práticas marcadas pela lassidão
e com nossa fama de país do jeitinho” -, a presidente, marca uma diferença de
apelos feitos pelo antecessor Luiz Inácio Lula da Silva em momentos de crise
política.
Lula dirigia-se ao brasileiro que, como ele, tinha
saído de baixo e vencido na vida enfrentando ricos e poderosos – “Eles vão ter
que me aguentar”.
Com a crítica ao jeitinho, Dilma mira uma base social
difusa que tanto pode estar na classe média estabelecida quanto naqueles que
prosperam na cultura do esforço pessoal com a ajuda do Prouni e do crédito
consignado.
Ao contrário de Lula, Dilma não conta com o
entusiasmo dos movimentos sociais. Colheu ontem manifestações mais concretas de
apoio dos empresários com quem se reuniu do que dos sindicalistas que recebeu
na semana passada, embora ambos sejam igualmente sensíveis às medidas que o
governo vier a tomar contra a desindustrialização.
Ao escolher o apelo difuso contra os maus costumes,
Dilma parece apostar num apoio que se difunde para além dos meios tradicionais
de mobilização social. É uma aposta da era virtual, mas com uma base que ainda
está por ser testada.
São as igrejas pentecostais que, nos últimos anos,
têm demonstrado capacidade de mobilizar e convencer. Não apenas pelas marchas e
cultos gigantescos, mas pela capilaridade de seus pastores – cujos templos
ficam abertos de madrugada – e pela penetração de seus programas de televisão.
Se a guerra é de costumes, o confronto deflagrado no
último fim de semana entre os pentecostais faz as raposas que emparedam Dilma
no Congresso parecerem anjos.
Descoberto no Pavablog.
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