Os cristãos do primeiro século escandalizaram o mundo
afirmando que Deus se fez carne, padeceu e morreu no corpo, e no corpo
ressuscitou. O Credo Apostólico ecoou no mundo antigo e reverbera até hoje:
Creio na ressurreição do corpo, o que acarreta uma absoluta revolução na vida
desde aqui e para a eternidade. A respeito disso, Paulo Brabo comenta a obra de
Alan F. Segal, Life After Death, que discorre sobre a geografia e a história da
vida após a morte na cultura ocidental, e também a respeito da radical diferença
entre o pensamento grego e o pensamento judaico-cristão.
Os gregos acreditavam que a essência do ser humano é
a alma. O corpo é uma prisão, disse Platão. Acreditavam que o corpo era
perecível e efêmero, diferente da alma, imperecível e eterna.
Mas a Bíblia Sagrada ensina diferente. Os primeiros
cristãos sabiam que o corpo seria preservado para a vida eterna, pois não
somente a alma, mas também o corpo é parte essencial do que somos.
Os gregos falavam da vida eterna em termos de
imortalidade da alma; os judeus e os primeiros cristãos falavam da vida eterna
em termos de ressurreição do corpo, comenta Paulo Brabo. O ser humano é
indissociável do corpo. Não é correto dizer que temos um corpo, pois na
verdade, somos um corpo. A morte física não é, portanto, a oportunidade de nos
livrarmos da prisão do corpo, pois é na ressurreição que é redimido e encontra
finalmente sua plenitude. Paulo, apóstolo, ensina que, na ressurreição do
corpo, o que é mortal é revestido de imortalidade, e o que é corruptível é
revestido de incorruptibilidade. A esperança cristã é claríssima: a morte não
implica a reencarnação, nem tampouco a dissolução do corpo (e do espírito e da
alma) no todo etéreo imaterial. A morte não é a última palavra, pois vivemos na
esperança da ressurreição: Se esperamos em Cristo apenas nesta vida, somos os
mais miseráveis dos homens, disse o apóstolo Paulo.
Não deve causar espanto, portanto, o fato de Jesus
ter dado tanta importância ao corpo. Seus milagres se concentraram na
restauração do corpo. Isso pode ser entendido de duas maneiras. Primeiro como
denúncia profética da condição humana que resulta da rejeição a Deus. As curas
de Jesus são de fato uma dramatização exterior da restauração da identidade
humana. A sabedoria judaica diz que a idolatria é um caminho de desumanização:
os ídolos têm boca, mas não falam; olhos, mas não vêem; pés, mas não andam. O
poeta bíblico diz que todos os que adoram ídolos acabam se tornando iguais a
eles, isto é, desumanizados, coisificados, sem vida. Paulo, apóstolo, diz que o
que nos confere identidade humana é o sopro divino, e que, uma vez que trocamos
a glória do Criador pela glória das criaturas – ídolos, perdemos nossa
identidade humana. Quando Jesus cura um cego, um homem mudo, um aleijado ou um
leproso, está não apenas mostrando o que nos tornamos, como também e
principalmente mostrando o que podemos e devemos nos tornar quando redimidos e
reconciliados com Deus.
As curas físicas operadas por Jesus apontam também
para o fato de que a redenção é essencialmente o resgate da plena identidade
humana, o que necessariamente implica a redenção também do corpo. Isso não
significa, como entendiam os gregos, que, ao realizar curas físicas, Jesus se
rebaixou aos cuidados do corpo. Muito ao contrário, ao curar o corpo Jesus
aponta exatamente a elevação do corpo como imprescindível constituinte da
verdadeira, ou integral, identidade do que se pode chamar humano.
Não é pouco, portanto, celebrar a Páscoa como festa
da ressurreição. Os cristãos, em todos os tempos, afirmam algo singular: cremos
que Deus se fez carne; cremos que padeceu, morreu e ressuscitou em carne;
cremos na ressurreição do corpo.
Celebrar a Páscoa como ressurreição de Jesus é
afirmar a vida em sua plenitude e o ser humano em sua totalidade. Celebrar a Páscoa
como ressurreição é afirmar o corpo como sagrado. Celebrar a Páscoa como
ressurreição é afirmar a esperança da vida eterna!
Texto de Ed René Kivitz.
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