quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fé e lucidez ainda poderão comungar?


Passo pouquíssimo tempo frente à tv. Algumas vezes, enquanto procuro documentários, filmes ou noticiários, deparo-me com alguns canais religiosos. Fico ali, parado, inerte, "bobolhando", pensando em nada.

Minha esposa sempre disse: "Por que você assiste a esses programas, meu amor? Isso não te faz bem." E delicamente, toma o controle de minha mão e troca de canal - geralmente por outro semelhante: comédia ou drama. Sou agradecido porque o conteúdo e qualidade mudam radicalmente.

Pronto, meu amor. Cheguei aonde pretendia: já não consigo assistir a nenhum programa evangélico na TV. E quando digo nenhum, digo nenhum mesmo. Já consigo, sozinho, trocar o canal (isso sem tomar remédios e nem visitas ao psicanalista ou pastor - consegui sozinho mesmo, eis meu testemunho de cura e libertação). E hoje, pela tarde, foi a última vez, prometo. Não assistirei aos programas nem pra rir, nem pra chorar ou pra análise do discurso religioso. Não mais. Conto o motivo, que é pequeno, mas fora a gota d’água.

Certa mãe ligou para um programa - até então desconhecido para mim (meu Deus, mais um!). O bispo atendeu e divulgou a concentração de fé em São Paulo que será no final de semana; deu espaço para que a sua cliente fizesse o pedido de oração:
- "Meu filho teve um acidente. A perna dele está inchada."
O bispo, prontamente respondeu:
-"Vamos orar...” e ora.

Não tenho estômago para descrever a oração e dos tantos demônios do inchaço que ele cita. (Trata-se de uma cartilha generosa de demônios do inchaço, vocês não têm noção.)

Prezados leitores, será que algum dia a fé e a lucidez poderão unir suas mãos? Minha pergunta é retórica e respondo um sonoro NÃO.

Caminhamos para trás, para uma fé da magia, do engano, do inimigo do tempo e da natureza; de uma fé belicosa contra a medicina, contra a ciência, contra o fato, contra o real. Meu Deus! Como conseguem lutar contra a realidade? Por que desejar em oração o sumiço repentino do inchaço de uma perna acidentada?

O grande problema é que esse sumiço vai acontecer. É problema porque esse maldito inchaço será curado pelo próprio tempo com a ajuda de uma pomada barata; e a mãe desesperada será escrava de um sistema de fé longe, bem longe da lucidez. Ela acreditará e fará com que seus familiares creditem ao bispo, bem como à denominação, todo o louvor. Será ainda crido e divulgado que o bom negócio é lá, que a boa fé é lá, que o real e a lucidez não importam quando o brado de vitória é decretado.

Não só a igreja evangélica, mas muitos cristianismos continuam (atentem: continuam) vivendo uma fé que desconhece a lucidez.

E o que seria fé e lucidez?

Em primeiro momento, fé e lucidez para um não é o mesmo que fé e lucidez para o outro. Não comungam da mesma ideia. Enquanto um se julga lúcido, o outro condena e vice-versa.

Numa síntese, creio que a "boa fé" é daquele que tem o poder de criticá-la com lucidez. E não podemos nos esquecer que o cristianismo é a única religião secularizada. Significa que temos plenas condições de criticar a nós mesmos através dos fatos, da realidade que a Modernidade viu e nos mostrou.

Rogo a Deus para que essa autocrítica tenha espaço na mente de cada indivíduo. Só assim, teremos condições de criticar (o que nos distingue dos animais é o poder da crítica) e não mais enriquecer um império que cresce absurdamente no Brasil – esse império sim, um verdadeiro “demônio do inchaço”.

Descoberto em Nelson Lellis.

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