Mas enquanto a maioria dos filósofos e comentaristas
contemporâneos saudava essa grande nivelação da cultura como sinal da
democratização da sociedade, Kierkegaard acreditava que ela poderia representar
um declínio na coesão social, um festim de reflexão interminável e
desinteressada, o triunfo de um curiosidade intelectual infinita mas rasa que
acabaria impedindo um compromisso profundo, significativo e espiritual com
qualquer questão particular.
“Nem mesmo um dos que pertencem ao público tem um
compromisso essencial com o que quer que seja”, Kierkegaard observava
amargamente em seu diário. De repente as pessoas começavam a interessar-se por
tudo e por nada ao mesmo tempo; todos os assuntos, não importava quão ridículos
ou sublimes, estavam sendo equalizados de tal modo que nenhuma causa importava
mais o bastante para se morrer por ela. A terra estava se tornando plana, e
Kierkegaard odiava a ideia. Para ele, todas as conversas produzidas nos cafés só
estavam levando “à abolição daquela distinção apaixonada entre ficar quieto e
falar”. E o silêncio para Kierkegaard era importante, porque “só a pessoa
essencialmente capaz de ficar quieta é capaz de falar de modo essencial”.
Para Kierkegaard, o problema com a crescente
conversação – epitomada pela “absolutamente desmoralizante existência da
imprensa diária” – era que ela existia do lado de fora das estruturas políticas
e exercia muito pouca influência sobre elas. A imprensa forçava as pessoas a
desenvolver opiniões veementes a respeito de todos os assuntos, mas raramente
motivava o impulso de agir em conformidade com elas. Com frequência as pessoas
encontravam-se tão inundadas de opiniões e de informação que acabavam adiando
indefinidamente qualquer decisão importante.
A falta de compromisso, ocasionada pela
multiplicidade de possibilidades e pela fácil disponibilidade de rápidos
paliativos espirituais e intelectuais, é que era o verdadeiro alvo da crítica
de Kierkegaard. Ele acreditava que era só fazendo compromissos – um de seus
termos favoritos – arriscados, profundos e autênticos; que era só discriminando
entre diferentes causas e lidando com os triunfos e os desapontamentos dessas
escolhas e aprendendo com as experiências resultantes, que as pessoas
alcançavam a sabedoria e enchiam suas vidas de significado. “Se você é capaz de
ser um homem, o perigo e o severo julgamento de existir irrefletidamente irá
ajudá-lo a tornar-se um” é como ele resumia a filosofia que viria a ser
conhecida como existencialismo.
Não é difícil imaginar o que Kierkegaard teria
pensado da cultura da internet dos nossos dias, dominada por um ciclo de 24
horas de sabichonice e de um compromisso fluido com ideias e relacionamentos.
“O que Kierkegaard via como a consequência de uma cobertura irresponsável e
descomprometida por parte da imprensa alcançou sua plena concretização na
internet”, escreve Hubert Dreyfus, filósofo da Universidade da Califórnia em
Berkeley. Um mundo em que professar o comprometimento pessoal com a justiça social
não requer mais do que redigir um status socialmente consciente de Facebook
teria despertado em Kierkegaard o mais profundo rancor.
Evgeny
Morozov, em The Net Delusion
Descoberto na Bacia das Almas.
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