Por Cleinton Gael
Karl Barth foi um teólogo nascido na Basiléia, na
Suíça, sendo um dos maiores de que se tem notícia na história da Teologia,
visto ter trazido contribuições demasiado importantes para o debate e reflexão
acadêmicos pelo viés da Teologia Dialética e da chamada Neo-ortodoxia
protestante (corrente de pensamento que tanto me encantou nos meus cinco anos
de academia teológica).
É de Barth a matriz para o chamado “pensamento
universalista”. Segundo tal pensar, grosso modo, o amor de Deus é tão intenso e
incomensurável, que não haveria a menor possibilidade de o Mal subsistir,
quando do momento da manifestação plena de tal amor. É como se, na presença do
amor magnificente de Deus, o mal fosse de todo aniquilado e o inferno saqueado
e destruído.
Lembrei-me de Barth e de meus anos de academia
teológica ao acessar o livro bíblico de Jonas e ao lançar mão de uma “frase
universalista” em um meu cartão de visitas. Relendo o livro do “profeta menor”
Jonas, certifiquei-me mais uma vez de que se trata de um libelo contra a
segregação étnica e pela universalização do acesso ao Deus criador. É
interessante notar que a pregação de Jonas, que acabou por converter os grandes
pecadores de Nínive (na época, uma “cidade cuja maldade já tinha chegado aos
céus”), longe de ter felicitado o profeta, o desencantou em demasia, pois o
mesmo estava nenhum pouco interessado em que outra etnia, que não a sua,
alcançasse a misericórdia do Deus de toda a criação.
A visão exclusivista de Jonas, no meu modesto
entender, nada mais é do que uma versão judaica antiga da atual visão
exclusivista de vários segmentos religiosos, evangélicos dentre eles. Tal visão
acabou por fazer do povo judeu um grupo perseguido, odiado e segregado por
outros e até por si mesmo. O mesmo parece estar acontecendo com todo o grupo
que, de forma segregadora e intolerante, se posiciona como uma nação “fora do mundo”.
A frase de cunho “universalista” que postei em meu
cartão de visitas diz: “A derrota cabal do Mal será que, ao abrir as portas do
inferno, ele o encontrará vazio, por causa da Cruz de Cristo”. Assim como a
conversão dos ninivitas, que tanto irritou ao profeta Jonas, por conta de seu
exclusivismo segregador, minha frase também irritou ou, no mínimo, chocou um
bom número de pessoas cristãs “piedosas”. “Mas, pastor, assim não vai ter
inferno, poxa!”. “Então, vai ser todo mundo salvo, pastor?!”.
Não nego a existência do céu e do inferno, embora
pouco eu possa falar sobre eles. Todavia, o que assusta não é o fato de a
Bíblia os fazer existentes – ainda que tenham tido as mais variadas leituras no
decorrer dos anos – mas o fato de que o inferno precisa existir; tem de ter
gente lá!
Para o profeta Jonas, os ninivitas não poderiam se
converter a Deus. Eles teriam mesmo de ser destruídos e queimados vivos! Da
mesma maneira a frase de cunho utópico cristão que postei acabou por ser lida
como um “libera geral” não-punitivo. E isso, tristemente, desencantou.
A simpatia à Neo-ortodoxia protestante me fez olhar
com bons olhos para a visão universalista de um amor que aniquila todo o mal e
instaura o bem para sempre e para todos, mas isso tem um alto preço, é óbvio.
Noutra época, levaria à fogueira!
Ainda assim, e no nível da provocação, pergunto: a
vontade de Deus poderia não ser feita? Diz a Bíblia que “a vontade de Deus é
que todos se salvem” e que essa mesma “vontade de Deus é boa, perfeita e
agradável”. A questão mais provocadora e que não calará, pois, é: Para você, é
bom, perfeito e agradável que a maioria da imagem e semelhança de Deus queime
eternamente num espaço de flagelo e dor incessantes?
Não radicalizei, refutando as ideias bíblicas de céu
e inferno, mas gostaria que, ao menos, minha frase universalista fosse lida
como uma utopia cristã a ser buscada, ainda que utopia. Pode até ser que não
aconteça, mas minha vontade também é que todos se salvem.
Via Pavablog.
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