Não é preciso muito para se notar uma forte tendência obscurantista no cristianismo, ou melhor, uma forte tendência anti-intelectual. Sem dúvida, esta se manifesta em graus diferentes em suas diversas vertentes. No catolicismo apostólico romano, por exemplo, parece haver um espírito mais aberto ao pensamento, aberto à discussão séria. Talvez decorrente do glorioso trabalho dos teólogos do passado e de seu esforço em preservá-los na memória (Tomás de Aquino, por exemplo). O que não impede, no entanto, que o discurso oficial dos católicos seja bastante questionável. Ainda hoje se insiste na não utilização de preservativos. Não há, entretanto, prima facie aversão à erudição. Não é tão difícil encontrar católicos dispostos a entrarem no nebuloso e ao mesmo tempo maravilhoso caminho da filosofia, da ciência e das artes. Por vezes, o que os impele é o próprio amor a Deus.
A situação muda bastante quando nos voltamos para os protestantes. Sobretudo quando nos voltamos para os (neo)pentecostais. Aí as coisas se complicam muito, o obscurantismo praticamente se torna um item do Credo. Tomemos um exemplo: na edição da revista Ultimato de novembro/dezembro de 2008, Ricardo Quadros Gouvêa lista quarenta livros que “fizeram a cabeça dos evangélicos nos últimos quarenta anos”. Um dos comentários a esta matéria é significativo, um dos leitores diz: “A PALAVRA DE DEUS nas Escrituras, não é a ÚNICA SEMENTE que deve ser plntada [sic] na terra fértil dos corações para gerar os FRUTOS DO ESPÍRITO? Penso entender que os Escritores evangélicos mencionados na LISTA, [sic] editaram suas obras, sovre [sic] aspecto específico contido na BÍBLIA, exercitando sua hermenéutica [sic] e opinião pessoal, conscientes de que suas “obras” são MEIOS destnadas [sic] ao único FIM que é A OBRA E A DOUTRINA CRISTÃ. Não é isto?”.
O que assusta o leitor é a erudição, daí o início de seu comentário: “Conhecer a Cristo e tornar-me cidadão do Reino de Deus, [sic] EXIGE tanta erudição importada?”. Destaque-se que neste artigo estão presentes apenas livros campeões de vendagem, o que exclui praticamente todas as obras teológicas e comentários bíblicos. O que o leitor diria se se deparasse com autores como Lutero, Calvino, Karl Barth, Agostinho ou Tomás de Aquino?
O que o leitor não compreende, e não só ele, é que a doutrina cristã à qual ele se refere é resultado de dois milênios de elaboração teórica, a qual não pode ser feita “sem a estrutura filosófica que [a] sustenta”[1]. Daí decorre que mesmo a prática cristã depende do modo como se entende o cristianismo (leia também E o Verbo se fez carne). Reconheço que no Brasil há uma enorme defasagem educacional, como um número vergonhoso de analfabetos. Isso sem falar daqueles que sabem juntar letras, mas não ideias. Situação que se reflete nos cristãos brasileiros. Este problema, no entanto, se resolve com a ampliação e melhoramento do sistema educacional. O que realmente preocupa é a visão obscurantista que teme o livre pensar, ou seja, que identifica ser cristão com ser anti-intelectual. O que preocupa são pessoas como Ken Ham (leia aqui).
Não pense você que isto é inofensivo. Muitas pessoas, sobretudo os mais jovens, afastam-se da Igreja por causa desta identificação nefasta. Não há razão alguma para temer a filosofia ou a ciência, a não ser que se tenha algo a ganhar sustentado um cristianismo capenga e obtuso.
Quando nos voltamos para Agostinho, por exemplo, vemos uma posição bem diferente do que encontramos atualmente. Ele não só é favorável à erudição (eruditio), como ele faz um elogio às artes liberais (gramática, dialética, retórica, aritmética, música, geometria e astronomia), sobretudo à dialética, a disciplina das disciplinas (disciplina disciplinarum).
Se você se preocupa com a ordem – disse-lhe eu – deve retornar àqueles poemas. Pois a erudição moderada e parcimoniosa nas disciplinas liberais, Licêncio, nos torna mais resolutos, mais perseverantes e amantes mais agradáveis para abraçar a verdade, para desejá-la mais ardentemente, segui-la com mais constância e, finalmente, apegar-nos com mais doçura à vida feliz. Quando esta é mencionada, todos se levantam e como que estendem as mãos, se porventura você tem algo que lhe possa dar, a eles indigentes e acometidos de várias doenças. Mas quando a sabedoria lhes manda que consultem um médico e com paciência se deixem curar, eles voltam aos seus trapos. Contaminados por esse ardor, eles raspam a lepra dos prazeres perniciosos com mais gosto que, suportando e submetendo-se às prescrições do médico, um tanto duras e incômodas para as doenças, sejam devolvidos à saúde dos sãos e à luz. Por conseguinte, satisfeitos com o nome e sentimento do sumo Deus, contentes por assim dizer com uma esmola, vivem miseráveis, mas vivem. [...] Por enquanto dedique-se às suas musas[2].
Para Agostinho é difícil entender como pode ser feliz aquele que se recusa instruir-se.
Mas aqueles que, satisfeitos apenas com a autoridade, se aplicam com constância a uma vida de bons costumes e desejos justos, porque ou desprezam a aprendizagem ou não têm força de vontade suficiente para instruir-se nas boas disciplinas liberais, não sei como se poderia chamá-los de felizes nesta vida, mas creio firmemente que, logo que saírem deste corpo, terão maior facilidade ou maior dificuldade em libertar-se conforme tenham vivido mais ou menos retamente[3].
Quão horrorizado ficaria Anselmo de Cantuária (muitos séculos depois de Agostinho) ao ver o total desprezo pela fides quaerens intellectum (fé em busca de compreensão)? Todo o seu pensar filosófico nasceu de sua fé, seu desejo por Deus impeliu-o a buscá-lo, levou-o a pensar. Anselmo, para quem não conhece, é responsável por um dos mais belos textos da filosofia. Leiam o Proslógio[4].
Do mesmo modo que a retidão da ordem exige que creiamos os profundos artigos da fé cristã antes de presumir discuti-las pela razão, do mesmo modo parece-me negligência se não nos exercitamos, após nossa confirmação na fé, em entender o que cremos[5].
A escritura sagrada não perde importância, pois é ela quem dá testemunho de Deus. Todo o pensar está vinculado a ela. O fato de ser interpretação da escritura não faz com que deixe de ser interpretação.
A Reforma entende a escritura sagrada como único testemunho de revelação real e competente de Deus, razão por que sua doutrina quer dar a entender que Deus pode ser encontrado por nós seres humanos ali onde lhe aprouve procurar-nos. Portanto não ali onde julgamos poder buscá-lo por iniciativa nossa: Não no âmbito de nossas próprias possibilidades, sejam elas razão ou experiência, natureza ou história, universo interior ou exterior. Não ali onde nós, com a nossa sabedoria, julgamos dever falar sobre ele, mas ali onde ele falou a nós em sua sabedoria. E ele de fato falou a nós, de uma vez por todas. A respeito desse tempo perfeito – Deus dixit (Deus disse) – é a escritura sagrada quem dá testemunho, e exclusivamente ela. Por isso a proclamação da igreja cristã em sentido nenhum pode nem deve ser uma filosofia, isto é, o desdobramento de uma ideologia ou filosofia de vida qualquer, por intuição própria. Por isso a proclamação está vinculada, por ser interpretação da escritura[6].
Outro ponto positivo que poderíamos convocar a favor dos estudos é a melhoria do discurso cristão. Basta uma rápida olhada na internet, em qualquer fórum em que houver cristãos discutindo, para que se veja uma conversa sem pé nem cabeça. Uma verborragia interminável. Não é à toa que neo-ateus como Richard Dawkins provocam tanta celeuma entre cristãos. Não é preciso muito para fazê-lo.
Por fim, não pretendemos que todo cristão seja filósofo ou cientista, pois isto realmente não é requerido de nenhum cristão. Por outro lado, deve-se igualmente rejeitar a posição contrária que pretende que nenhum cristão seja filósofo ou cientista. Não é preciso dizer àquele jovem da igreja que decidiu prestar filosofia no vestibular: “Cuidado! Você vai perder sua fé”. A única fé que pode ser ameaçada pelo pensamento responsável e sincero é a fé superficial, o que não deixa de ser salutar à própria fé.
O Editor
[1] Ricardo Quadros Gouvêa em “Calvinistas também pensam: uma introdução à filosofia reformada” in Fides Reformata (São Paulo), vol. I, 1996, pp. 48-59.
[2] AGOSTINHO. A ordem, I, viii, 24.
[3] AGOSTINHO. A ordem. II, ix, 26.
[4] Este texto foi traduzido na coleção Os Pensadores. Apesar de algumas imprecisões na tradução, elas não chegam a atrapalhar o primeiro contato com a obra.
[5] ANSELMO. Cur deus homo, I, 48, 16-18.
[6] Karl Barth in “Reforma é decisão”, pp.172-173. Artigo presente em BARTH, K. Dádiva e louvor. Tradução de Walter O. Schlupp, Luís Marcos Sander e Walter Altmann. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2006.
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