sexta-feira, 28 de outubro de 2011

E o Verbo se fez carne

Sem dúvida, a bíblia é o documento mais importante para o cristianismo. De tal modo que a maneira pela qual se entende as escrituras acaba por influenciar a própria maneira de se viver o cristianismo. Em linhas gerais, pode-se dizer que o centro da discussão é a inerrância da Bíblia. Para muitos, ainda que ela não seja essencial para a salvação, negar a inerrância das escrituras “pode eventualmente trazer prejuízos para a vida espiritual da igreja, abrindo a porta para males morais e espirituais[1]. Afinal de contas, o que se pretende dizer ao se mencionar a tal inerrância?

Creio que a Bíblia foi escrita por autores sobrenaturalmente inspirados por Deus a ponto de ser verdadeira em tudo o que afirma, e isto não somente em matérias de fé e história da salvação. Ela é livre de erros, fraude e enganos. A Escritura não pode errar por ser em sua inteireza a revelação do Deus verdadeiro. Ela não é somente uma testemunha da revelação e nem se torna revelação num encontro existencial. Ela permanece a inerrante Palavra de Deus independentemente da resposta humana[2].
Evidentemente é preciso levar em consideração possíveis equívocos dos copistas, daí a inerrância ser atribuída somente aos autógrafos[3]. Pode-se até mesmo (ainda que nem todos o façam) levar em consideração o conhecimento de cada época, ou seja, nega-se, dessa maneira, a crença em “inspiração mecânica ou em ditado divino”, como se os autores bíblicos tivessem recebido conhecimento pleno e onisciente. Livra-se, assim, do desconforto de afirmar, contra tudo e todos, que morcegos são aves[4]. Não é preciso nem mesmo fingir que não existem dificuldades interpretativas na Bíblia[5]. Bastar ser sincero e trabalhar, as coisas difíceis não se resolvem do dia para a noite.

Ao afirmar a inerrância da Bíblia não estou ignorando que, com freqüência, as teorias científicas sobre a história da terra têm sido usadas para desacreditar o relato bíblico da criação, do dilúvio e sua cosmovisão geocêntrica. Entendo, contudo, que não é correto avaliar a veracidade da Bíblia mediante padrões de verdade que são distintos do seu propósito e que se baseiam em conclusões provisórias, efêmeras e freqüentemente desmentidas a posteriori por outros estudiosos e cientistas. A Bíblia não é um livro científico, nos padrões modernos, e frequentemente se refere aos fenômenos naturais usando a linguagem descritiva do observador, como já mencionei, a qual não é cientificamente analítica.
Por fim, estou consciente de que às vezes ocorre na Bíblia o que estudiosos modernos chamariam de erros de gramática com base no que se conhece hoje do grego, hebraico e aramaico. Sei que autores bíblicos citam outras partes da Bíblia de maneira livre, que eles usam números arredondados e que relatam os mesmos eventos de diferentes perspectivas, como no caso dos Evangelhos. Essas coisas, todavia, em nada prejudicam a inerrância da Bíblia. Ela permanece plenamente confiável em tudo que afirma, uma vez que a tomemos em seus próprios termos, sem impor-lhe a camisa de força da visão de mundo moderna, moldada por pressupostos secularizados e anticristãos[6].

Se a idéia de inerrância bíblica gera tantas dificuldades, por que afirmá-la tão insistentemente, com tanto amor? Como se o ser-cristão dependesse disso? Por que a inerrância da bíblia faria parte de um possível credo fundamentalista[7]? O que realmente se defende nesta posição?

A negação da inerrância da Bíblia é típica da esquerda teológica protestante e católica(*), afetada por uma cosmovisão oriunda das filosofias e ideologias que emergiram do Iluminismo, trazidas ao Brasil por cursos de teologia oferecidos em instituições de ensino públicas ou de denominações não mais comprometidas com os itens da fé cristã histórica. Junto com a negação da inerrância geralmente vem uma postura liberal quanto a casamento, divórcio, aborto, eutanásia, sexo antes do casamento, homossexualismo, etc[8].

Voilà! Não se trata apenas de uma discussão sobre as escrituras, mas consiste também em se posicionar contra certas coisas. Os próprios defensores da inerrância da bíblia são obrigados a reconhecer que este é um tema recente, ainda que se esforcem em dizer que os primeiros cristãos pensassem como eles, apenas não formularam a questão nos mesmos termos. A tese da inerrância surge em contraposição aos liberais do século XIX e seu método histórico-crítico da bíblia. Se, por um lado, a negação da inerrância da bíblia é típica da esquerda teológica (por vezes, também esquerda política), por outro lado, a afirmação da inerrância é típica da direita teológica (por vezes, ligada à conservadora direita política). Que coisa, não! As coisas são mais complicadas do que parecem. Há muito mais coisa em discussão aqui. E como “o pensamento teórico não é possível sem a estrutura filosófica que o sustenta”[9], como bem observa Ricardo Quadros Gouvêa, discutamos um pouco de filosofia.

Um dos problemas de se assumir a bíblia como palavra literal (sem tirar nem pôr) de Deus é transformar o logos divino em logos proposicional. E, dessa maneira, transformar o verbo divino em signo. Entre a proposição e a coisa há uma cisão, como observa Agostinho em sua obra O mestre[10]. Ele procura mostrar, em seu diálogo, que há uma separação entre o signo e o significado, separação que é resultado da natureza mesma do signo, como é assinalado em dois textos: “O signo é uma coisa que, além da imagem que propõe aos sentidos, faz vir de si ao pensamento algo”[11] e “O signo é aquilo que tanto se mostra aos sentidos, como além de si mostra algo ao espírito”[12]. Em suma: “o que faz de algo um signo é o fato de se duplicar, o fato de sua presença apresentar a si mesmo e simultaneamente apresentar outra coisa”[13]. É próprio do signo significar o significado. Ora, é justamente no verbo divino que essa duplicidade se desfaz.

Tomemos, como exemplo, a proposição “Deus é justo”[14]. Acredito que poucos negariam a Deus o atributo da justiça, mas eis que surge um problema. Quando se diz “algo é X”, entende-se X como um atributo, ou seja, como algo adicionado ao sujeito. Conclui-se, então, que ao afirmar “Deus é justo” entende-se que Deus e justo não são a mesma coisa, rompendo assim sua unidade intrínseca. Ao lado de Deus seria preciso acrescentar a justiça, pois só é justo aquele que tem participação na justiça. Criamos, além de uma cisão em Deus, uma nova entidade: a justiça. Tendo em vista problemas deste tipo, nenhum teólogo cogitou considerar a bíblia como palavra literal de Deus[15]. Aliás, eles levavam muito a sério o verbo divino. Seria um verdadeiro disparate transformá-lo em palavra escrita sem maiores explicações.

Mas então, como ficamos? Devemos esquecer essa história de palavra de Deus? Afinal de contas, a inerrância da Bíblia é a única maneira de interpretá-la, não é? Estamos diante do tudo ou nada, certo? Errado!

Como pretendemos mostrar (ou ao menos esboçar), a idéia da inerrância da Bíblia é algo muito recente na história do cristianismo. Nenhum teólogo medieval, por exemplo, jamais pretendeu defender tal coisa. Eles sempre pensaram com e a partir das escrituras. Jamais pensaram em limitar o verbo divino à linguagem humana. Alguma coisa mudou! Talvez estejamos comprometidos com a modernidade mais do que gostaríamos. Vejamos.

Ao longo da maior parte da história do cristianismo a fé que está sendo requerida de você não foi requerida do cristão comum. Pense séculos; não, pense um milênio ou dois. Durante mais de mil anos foi tomado como certo que a essência do cristianismo residia em outra coisa que não aquilo que aprendemos a associar à fé.
Nos primeiros mil e quinhentos anos, ser cristão foi visto como tentar imprimir sobre a vida real as implicações da revelação; nos últimos quinhentos anos ser cristão tem sido visto como acreditar (e tentar demonstrar) que o conteúdo da revelação aconteceu na vida real[16].

A observação de Paulo Brabo é certeira, o que mudou foi a própria maneira de ser cristão. O que temos visto é o esforço cada vez maior de “acreditar (e tentar demonstrar) que o conteúdo da revelação aconteceu na vida real”.

Basta entender, e entendido isso tudo ficará claro, que durante séculos a verossimilhança da narrativa judaico-cristã não precisou ser grandemente defendida ou colocada em dúvida. Durante esse período o conteúdo da revelação bíblica foi visto por judeus e cristãos como especialmente fidedigno e singular, e assim defendido contra revelações competidoras – mas não se requeria de quem se aproximava dessa revelação uma fé no mundo sobrenatural que já não estivesse presente no cidadão comum. Ninguém se preocupava em argumentar em favor ou estabelecer a credibilidade das alegações da Bíblia, porque as pessoas em geral acreditavam por si mesmas em deuses, milagres, aparições, demônios, portentos, feitiços, revelações, divinos embates e divinas paixões, intervenções de anjos e toda sorte de outras sobreposições do mundo invisível no mundo natural.
Durante mais de mil anos, portanto, a questão da factualidade da revelação cristã raramente entrou em discussão. A esmagadora maioria das pessoas acreditava ou estava predisposta a acreditar em alguma forma de mundo sobrenatural, pelo que não se requeria delas um esforço particular para que acreditassem na ressurreição dos mortos, na concepção virginal, numa criação em seis dias ou em Jesus andando sobre as águas. Todos os homens pressupunham algum conteúdo sobrenatural; a revelação cristã apenas apresentava sua descrição do mundo sobrenatural e de seus mecanismos como especialmente fidedigna.
Ninguém se preocupava muito, como fazem hoje alguns de nós, em insistir que o planeta inteiro esteve coberto de água durante o Dilúvio, ou que em situações de grandes stress seres humanos podem de fato suar sangue, ou que se pode comprovar cientificamente que homens e dinossauros caminharam lado a lado.
Como não se requeria fé para crer-se no conteúdo da revelação cristã, o foco da vida religiosa era mantido sobre a interpretação desse conteúdo particular. Para incontáveis gerações de cristãos, na verdade, a fé consistia no exercício de pesar e aplicar na vida real as implicações da narrativa cristã[17].

A factualidade nunca foi realmente um problema, nem para a vida prática nem para o pensamento teórico. Simplesmente não era disso que se tratava. Havia e há coisas muito mais importantes. O problema é que esse mundo não existe mais, ele mudou (que o diga Rudolf Bultmann). A atual atitude cristã frente à fé não se origina na tradição cristã ou na narrativa bíblica, ela é fruto do pensamento moderno. Não é à toa que boa parte dos cristãos nos pareçam caricatos, eles partem de pressupostos modernos em defesa de um mundo que foi destruído pela modernidade (mundo que nunca foi pensado como tal por aqueles que o viveram). Uma verdadeira piada anacrônica!

A grande mudança na fé começa no Iluminismo, “também chamado, muito significativamente, de Idade da Razão – movimento que afetou irresistivelmente a ciência, a política, as artes e o comportamento da porção ocidental do planeta, consolidando as tendências do que ficaria estabelecido como era Moderna”[18]. É nesse momento que o “pensar de modo científico, racionalista e mecanicista” domina o Ocidente. É aqui que as coisas se complicam. Fomos fortemente influenciados pelas idéias racionalistas[19], a tal ponto que nosso critério de verdade mudou. A definição tomista de verdade (adequatio intellectus ad rem, adequação entre o intelecto e a coisa) foi conduzida a outro campo teórico, no qual coisa (res) se restringe àquilo que pode ser percebido pelos sentidos[20]. Desse modo, paulatinamente, verdade acabou por se identificar com factualidade. Tudo que existe pode ser medido.

Aprendemos a tomar verdade e factualidade como coisas idênticas ou inseparáveis. Hoje em dia, para nós a verdade é sempre factual – isto é, pertence ao âmbito da realidade física, podendo ser medida e atribuída a um ponto concebível do tempo e do espaço, quer submetendo-se ou sobrepujando as leis naturais, mas sempre confirmando-as. Se uma afirmação não é factual, para nós ela simplesmente não é verdade – e, talvez mais grave, não cremos que possa haver numa afirmação não-factual alguma medida de verdade. Aprendemos a contrastar verdade não apenas com mentira ou com inverdade, mas com superstição, com crença, com utopia, com ficção, com faz-de-conta – com fé[21].

Eis o que acontece agora: saímos com nosso novo critério de verdade embaixo do braço e passamos a ler a Bíblia. O que acontece?

Numa palavra, para nós verdade é o que pode ser verificado. Se a terra não foi criada em seis dias de 24 horas que poderiam ter sido medidos por um hipotético observador isento, a narrativa da criação em Gênesis 1 não diz a verdade. Se por ocasião do Dilúvio a água não cobriu comprovadamente o topo do monte Everest, e se a arca de Noé não tiver sido grande o bastante para comportar um casal de cada animal terrestre da criação, a Bíblia está faltando com a verdade. Se a virgindade de Maria por ocasião da sua concepção era de tal modo que não poderia ter sido verificada por uma criteriosa e hipotética junta médica multidisciplinar, não há verdade na alegação de Mateus de que Jesus nasceu de uma virgem. Se depois da crucificação Jesus não sofreu verificável morte cerebral seria incorreção dizer que ele ressuscitou, porque ele nunca teria estado tecnicamente morto. E assim por diante[22].

O que aconteceu? Desfiguramos a bíblia, tornamo-la anêmica. “O incrível é que de fato cremos que se essas coisas não forem factuais nada temos a aprender com elas. De fato cremos que se não forem factuais não há nelas verdade alguma”[23]. Estamos diante de um outro cristianismo, estranho, diferente daquele vivido nos 1500 anos anteriores. Dessa maneira, cientistas, céticos, ateus e cristãos se encontram do mesmo lado. Todos negam “o modo narrativo-espiritual de interpretar a realidade” O racionalismo dominou os que não crêem e os que crêem[24]. “Até mesmo os cristãos compraram a ideia de que se uma afirmação não for factual não há nela nenhuma verdade, e nessa única transação não só negamos todo o mistério que prometemos, mas nos rebaixamos a discutir a verdade nos termos de nossos antagonistas, para os quais a realidade se esgota no que há de mensurável neste mundo”[25].

A partir disso a tarefa do cristão passa a ser convencer os céticos que não acreditam no Gênesis que as histórias narradas ali aconteceram exatamente como foram narradas (há pessoas que se esforçam em crer que o mundo não tem mais de 7 mil anos). E tudo isso “porque sentimos que se nada disso for factual, ou se alguma dessas coisas não for factual, a Bíblia não é verdadeira. Que, se essas coisas não forem verdadeiras no sentido de correspondência com o mundo físico, a mensagem cristã é uma absoluta farsa e o evangelho de Jesus um engano que nada tem a nos ensinar e não tem cacife para nos transformar”[26]. Compramos o dogma da modernidade.

Ah, você acredita em um Deus espiritual, portanto, fora do mundo. Fui pego! Mas então, por que se perde tanto defendendo milagres diante daqueles que não crêem? Não seria porque se os milagres bíblicos não forem factualidades não haverá nenhuma verdade neles? “Duvidar da factualidade de um único milagre tornou-se o mesmo que duvidar da legitimidade de toda a revelação: o mesmo que duvidar do próprio Deus”. Mas e o Deus espiritual? Ora, basta olhar com atenção e facilmente se constata que de espiritual esse Deus não tem nada[27]. Imagina-se o espiritual como uma espécie de fantasma, um vento. Algo dentro do universo. Se eu dissesse que Deus é maior coisa que se pode pensar, o que você diria? Provavelmente: sim, ele é o maior de todas as coisas. Ora, colocar Deus no topo da cadeia ainda é colocá-lo na cadeia. Não é à toa que Anselmo de Cantuária construiu sua argumentação no Proslogion a partir da frase “algo tal que não se pode pensar nada maior”[28]. Evitando assim reificar Deus (puxa! esses medievais eram espertos).

Nosso literalismo, que alimentamos na esperança de preservar o conteúdo da mensagem bíblica, termina por sufocá-lo e apagá-lo por completo [...]Nosso literalismo, ao invés de preservar a mensagem, acaba por nos proteger eficazmente dela; seu papel é devidamente anular qualquer efeito que a revelação poderia ter sobre nós. Quando afirmamos que para demonstrar fidelidade à herança cristã basta crer que essas coisas aconteceram, estamos efetivamente dizendo que nenhuma delas tem implicações. O dilema da fé foi transferido de como reagir ao conteúdo da revelação para simplesmente acreditarmos nele. Deus não morreu, mas é agora indistinguível de Papai Noel. Acreditemos em fadas, se não Sininho pode morrer[29].

Tudo bem! Aceitemos (ainda que tudo isso pareça vã filosofia) que a inerrância da bíblia não é a melhor das opções, o que sobra então? Nada? Literatura? Bem, talvez algumas observações de Karl Barth possam ajudar.

Num campo de batalha (note bem: não é um gabinete, nem um palco, mas o campo de batalha da vida humana) sucedeu (note bem: sucedeu sem sombra de dúvida e em caráter irrevogável, com toda a unicidade e gravidade de um evento factual) que o inimigo (note bem: o inimigo, o outro, não o próprio ser humano, mas o contendor diferente do ser humano e oposto a ele, a lidar com ele) em supremacia extrema (note bem: ele é o mais forte, é o campeão) tomou a iniciativa (note bem: a ocorrência procede de sua intenção e desígnio, e não do ser humano) e passou a atacar (note bem: não nos perguntam se queremos entrar em disputa com ele nem de que forma, porque a contenda já está em pleno andamento). Esse evento é a revelação de Deus aos seres humanos, e quem não entendê-la como tal não sabe o que está dizendo ao levar à boca a palavra revelação. – Precisamos continuar a alegoria: Da tropa que está na vanguarda (entenda-se bem: não de um grupo de literatas e pensadores, não daqueles que têm tempo para contemplar as coisas humanas, nem tampouco de quaisquer pessoas que se ocupam com seus próprios atos e padecimentos, mas de batalhadores que estão enfrentando esse adversário cara a cara) chega o informe (note bem: não um sistema teórico nem tampouco uma apreciação estética, nem um programa de trabalho, mas um informe apressado e objetivo) comunicando esse ataque (note bem: não se trata de um comunicado sobre as condições ou o moral daquela tropa, nem tampouco ele fala da existência ou da essência do adversário, mas simplesmente se informa: ele nos atacou) ao reforço que está de prontidão na retaguarda da frente de luta (note bem: o informe não se destina a um grupo de jornalistas ou quaisquer aventureiros, e sim mais uma vez a uma tropa que, como aquela, está ali para enfrentar o inimigo). Aquela tropa já atacada pelo inimigo são os profetas e apóstolos, e seu informe para o reforço que ainda se encontra na retaguarda é a Escritura Sagrada. Não se entenderá aqueles homens nem tampouco este livro caso se entendê-los de outro modo. – Completemos o quadro: A chegada desse informe à retaguarda significa naturalmente (note bem: exclui-se de saída qualquer discussão sobre a significação prática desse informe) a necessidade (não a possibilidade, mas a necessidade que se expressa em determinadas ordens imediatas) de levantar-se, pegar as armas, reunir-se, marchar para a frente (note bem: tudo isso com rapidez e energia tanto maiores quanto maior a supremacia do inimigo a atacar, quanto mais iminente o perigo na vanguarda). Esse esforço convocado através do comunicado que chega é a igreja que ouve a Escritura Sagrada. E este momento, o momento do chamado ou seja da decisão, da resolução, da ordem e da obediência é o nosso momento, o momento da confissão. Estamos chamados a acorrer para ali onde estão os profetas e os apóstolos. Eles estão face a face com o Deus que chega. Eles nos conclamam a ir ter com eles, não em função deles mesmos, mas do Deus que vem. A equipe que os ouvir e se põe a caminho é a igreja, a igreja confessante. A igreja que seriamente pretendesse entender-se de outro modo, deixaria de ser interessante[30].

Eis uma maneira bastante interessante de entender a revelação. Como Barth diz, ela é ao menos fiel ou, em outras palavras, exegética. A revelação se dá porque Deus fala. Deus fala! E o que ele nos diz? Sobre o que ele nos fala?

1-  No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
2-  Ele estava no princípio com Deus.
3-  Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
4-  Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
14- E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. (Jo 1.1-4,14)

Eis o que ele diz: o Verbo se fez carne, e não ele se fez bíblia. A Palavra de Deus se fez homem! A revelação de Deus é Jesus! Sua misericordiosa condescendência para com a humanidade. A revelação nos fala do totalmente Outro que se coloca contra nós e ao mesmo tempo que nos diz NÃO nos diz SIM. É disso que as escrituras falam. É isso que elas testemunham. Elas testemunham a ENCARNAÇÃO da palavra de Deus. Elas testemunham um campo de batalha existencial.

Por essa razão a teologia não pode se portar como um ramo e uma aplicação da ciência histórica praticada hoje em sentido idealista, amanhã positivista, depois de amanhã em sentido cético. Não há dúvida de que os documentos da revelação se enfileiram entre os monumentos da história humana. Não há dúvida de que a sua pesquisa sempre terá que ser uma pesquisa histórica, ou seja portanto, sempre também uma pesquisa histórico-crítica. E não há dúvida de que todo pesquisador, inclusive o teólogo que pesquisa a história, sempre trará determinada premissa filosófica, por exemplo idealista ou positivista ou cética, para tratar seu objeto de investigação, isto é, em nosso caso a Bíblia, o dogma dos séculos IV e V, a Reforma. Mas, dependendo dessa premissa, esperar encontrar uma dita “verdade histórica” independente, que se reveste de dignidade última, não é o mesmo que esperar encontrar a palavra de Deus nos documentos da Igreja. Uma coisa é dar a confiança última e propriamente dita a si mesmo como idealista, positivista ou cético, na pesquisa e na interpretação dos documentos da igreja, outra coisa é dar essa confiança última e propriamente dita a si mesmo como ouvinte dessa palavra. Uma coisa é o historiador abstrair de si mesmo, em última análise, de sua qualidade de membro da igreja, outra coisa é abstrair de si mesmo, em última análise, de sua qualidade de idealista, positivista ou cético. A técnica e a metódica históricas serão as mesmas em ambos os casos, mas as questões, ou enfoques, os interesses e concomitantemente também o sentido no qual a história é investigada e interpretada serão diferentes. Quem encarar de forma absoluta a “verdade histórica” determinada por sua ideologia, ou quem mesmo identificá-la com a verdade de Deus, pode ser um grande historiador, mas como historiador teológico ele não saberá expressar-se, ao menos não com sensatez[31].

É esse testemunho do Deus-homem que torna a bíblia palavra de Deus escrita. É por isso que o método histórico-crítico não é capaz de esgotar seu sentido. Não é preciso temê-lo. Aliás, não é possível nem mesmo negá-lo seriamente. Como é possível impedir que uma ferramenta de análise textual valha para todos os textos, mas não valha para um texto específico? A bíblia não deixa de ser um texto como outro qualquer, seu caráter sobrenatural não está no texto, mas naquele de quem ela dá testemunho. Jesus é a palavra de Deus, não a bíblia.

Afirmar que o texto bíblico não pode ser interpretado pela ferramenta do método histórico-crítico é como dizer que não se trabalha com percentuais. Explico: certa vez, diante de um aumento excessivo no aluguel reclamei com a imobiliária: – Ora, veja bem, este é um aumento de 80%. É muito. Ao que a secretária me responde: – Ah, nós não trabalhamos com percentuais. Como assim? O fato dela não fazer a conta não muda nada, o aumento ainda era de 80%. Não é possível escolher o que pode ou não ser contabilizado em percentuais. Assim como não é possível dizer que um texto não pode ser lido como um texto. O que é preciso é entender o que torna a bíblia especial, ou seja, Jesus, a palavra de Deus. Com isso a bíblia não perde importância, ela encontra seu verdadeiro significado.

A Reforma entende a escritura sagrada como único testemunho de revelação real e competente de Deus, razão por que sua doutrina quer dar a entender que Deus pode ser encontrado por nós seres humanos ali onde lhe aprouve procurar-nos. Portanto não ali onde julgamos poder buscá-lo por iniciativa nossa: Não no âmbito de nossas próprias possibilidades, sejam elas razão ou experiência, natureza ou história, universo interior ou exterior. Não ali onde nós, com a nossa sabedoria, julgamos dever falar sobre ele, mas ali onde ele falou a nós em sua sabedoria. E ele de fato falou  a nós, de uma vez por todas. A respeito desse tempo perfeito – Deus dixit (Deus disse) – é a escritura sagrada quem dá testemunho, e exclusivamente ela. Por isso a proclamação da igreja cristã em sentido nenhum pode nem deve ser uma filosofia, isto é, o desdobramento de uma ideologia ou filosofia de vida qualquer, por intuição própria. Por isso a proclamação está vinculada, por ser interpretação da escritura. Nenhuma outra doutrina tem qualquer direito ou futuro dentro da igreja. Essa doutrina reformadora sobre a escritura sagrada fica compreensível de imediato para quem entende que ela parte da decisão definitivamente tomada. Ela diz que, tendo-nos Deus procurado no milagre de sua condescendência em Jesus Cristo, cujos testemunhas são os profetas e os apóstolos, todos os nossos esforços por encontrá-lo por nossa iniciativa não só perderam seu sentido, mas se provaram impossíveis. Depois que Deus falou ao ser humano, este simplesmente nem tem mais tempo para informar-se a respeito de Deus. A partir da decisão uma vez definida, a doutrina sobre a sagrada escritura realmente nem podia receber outra formulação senão aquela apresentada com muito rigor e ainda maior alegria pelos reformadores. A partir da decisão uma vez definida não podia nem pode haver a menor demanda por qualquer teologia natural[32].

A escritura sagrada é a única maneira de se chegar a Deus, ou melhor, é onde Deus se chega a nós. Ela não perde seu papel de palavra de Deus escrita, mas agora isso não significa que ela seja o próprio Verbo divino, mas sim que ela fala do grande milagre, Jesus. A palavra de Deus encarnada, ou seja, a palavra de Deus enquanto pessoa humana. Entender isso muda tudo. “A fé que se requer de mim não é a de acreditar nessa história, mas a de vulnerabilizar-me diante dela. A de deixar-me afetar. A fé passa a ser postar-me como gente diante dos desafios de uma narrativa comum de que posso incrivelmente fazer parte, o desafio de conformar-me e inconformar-me ao fato de partilhar dessa humanidade e dessa imagem de Deus, o desafio de ser quem sabe curado por essa divina perspectiva, essa divina perplexidade”[33].

Por fim, caro leitor, caso você discorde de tudo que eu disse, entenda ao menos uma coisa. Não existe a verdadeira leitura da bíblia. Toda leitura é uma interpretação que possui pressupostos. A inerrância da bíblia não é a leitura certa, mas apenas mais uma interpretação. Tenha em mente que esta posição possui pressupostos e consequências. E muitas vezes quem a defende possui outros objetivos que a simples busca da verdade divina. Por vezes, a defesa da inerrância bíblica esconde posições políticas[34]. Fique atento! Vigiai e orai!

O Editor


[1] Augustus Nicodemus Lopes in “Sobre a inerrância da Bíblia”.
[2] idem, ibidem. Grifo do autor.
[3] “Ao dizer que a Bíblia é inerrante, não estou negando que erros de copistas se introduziram no longo processo de transmissão da mesma. A inerrância é um atributo somente dos autógrafos, ou seja, do texto como originalmente produzido pelos autores inspirados por Deus. Muito embora hoje não tenhamos mais os autógrafos, pela providência divina podemos recuperar seu conteúdo, preservado nas cópias, quase que totalmente, através da ajuda de ferramentas como a baixa crítica ou a manuscritologia bíblica. A ausência dos autógrafos não torna a inerrância bíblica irrelevante, como dizem alguns. Se não temos os autógrafos para provar que eles não contêm erros, eles também não os têm para provar que contêm. Lembro que o ônus da prova é deles". idem.
[4] “Também não estou dizendo que os autores bíblicos receberam conhecimento pleno e onisciente acerca do mundo, quando escreveram. Não creio em inspiração mecânica ou em ditado divino que anulou a humanidade dos autores. Eles se expressaram nos termos e dentro do conhecimento disponível em sua época. Assim, eles descrevem que o sol nasce num lado do céu e se põe no outro, ou ainda mencionam que o sol parou no céu (Josué). No livro de Levítico se diz que a lebre rumina e que o morcego é uma ave. Sabemos que pelas convenções técnicas atuais lebres não ruminam e morcegos não são aves. Os autores bíblicos, entretanto, estavam se expressando em linguagem coloquial, fenomenológica, como observadores. E do ponto de vista do observador, o sol de fato se move no céu. E na Antigüidade, todos os animais que mexiam com a boca após comer pareciam ruminantes e tudo que tinha asas e voava era ave!”. idem.
[5] “Sei também que não posso explicar todas as dificuldades da Bíblia em termos absolutamente satisfatórios. Por exemplo, a harmonia dos Evangelhos continua sendo em parte um desafio para autores comprometidos com a inerrância bíblica, pois nem sempre se consegue achar uma explicação plena (ainda) para alguns dos problemas levantados pelas aparentes discrepâncias entre os Evangelhos e entre Crônicas e Reis. Sei, no entanto, que não posso aceitar soluções que impliquem numa diminuição da autoridade das Escrituras, sugerindo contradições ou erros. Prefiro aguardar até que mais informações nos ajudem a achar soluções compatíveis com a natureza da Escritura e sua divina origem”. idem.
[6] idem.
[8] Augustus Nicodemus Lopes in “Sobre a inerrância da Bíblia”.
[9] Ricardo Quadros Gouvêa in “Calvinistas também pensam: uma introdução à filosofia reformada” in Fides Reformata (São Paulo), vol. I, 1996, pp. 48-59.
[10] Há várias traduções em português desta obra. Por exemplo, o volume da coleção Os Pensadores dedicado a Agostinho. O diálogo De magistro é constituído por duas partes: 1) discussão sobre a linguagem (i, 1-xi, 37); 2) o Cristo, mestre interior (xi, 38-xiv, 46). Essas duas partes podem ser lidas sob outro ângulo, como propõe Novaes em A razão em excercício. Estudos sobre a filosofia de Agostinho (sobretudo pp. 27-92): 1) análise do binômio signo/coisa do ponto de vista da exterioridade; 2) análise do binômio signo/coisa do ponto de vista da interioridade. “A primeira parte examina e esgota a hipótese de a linguagem ser analisada como uma relação exterior entre o signo e seu significado, ou melhor, entre o conhecimento do signo e o conhecimento do significado. [...] Mas o diálogo mostra que esta união entre signo e significado não acontece como esperávamos: o signo engendra apenas exterioridade, e não pode por si mesmo vencer esta separação originária”. (NOVAES FILHO, A razão em exercício, pp. 43-44).
[11] “Signum est enim res praeter speciem, quam ingerit sensibus, aliud aliquid ex se faciens in cogitationem uenire”. AGOSTINHO, De Doctrina christiana, II, i, 1.Tradução de NOVAES FILHO, M., A razão em exercício, p. 44.
[12] “Signum est quod et se ipsum sensui et praeter se aliquid animo ostendi”. AGOSTINHO, De dialectica, V. Tradução de NOVAES FILHO, M., ibidem.
[13] NOVAES, ibidem.
[14] Ao contrário do senso comum, a Idade Média foi um período de grande especulação filosófica e teológica. De modo que se pode aprender muito com seus textos. Sobre o problema levantado aqui pode-se consultar a obra Monologion de Anselmo de Cantuária, sobretudo os capítulos XVI e XVII.
[15] Anselmo de Cantuária, em algum de seus livros (que eu não consigo me lembrar), chega a dizer que interpretar a Bíblia literalmente é um erro, apenas os menos capacitados o fariam.
[16] Paulo Brabo in “A fé que você não precisa ter”.
[17] idem, ibidem.
[18] idem.
[19] “O mundo que enxergamos hoje, o único mundo válido e admissível, é o da realidade física, palpável e mensurável; para ser devidamente aceito por nós, até mesmo Deus deve conformar-se a ele. Eventos sobrenaturais, se admitidos, devem ser considerados uma exceção ao fluxo natural e real das coisas; não somos mais capazes de abraçar a sério o conceito oposto, que predominava antes: de que o mundo físico é mera sombra de um mundo invisível maior e mais real”. idem.
[20] Evidentemente os filósofos da modernidade eram mais sofisticados do que isso. No entanto, ao separar sujeito e objeto (leia-se Descartes) e, assim, perder de vez o acesso à coisa (o que Kant percebeu com clareza), o mundo ficou um pouco mais pobre, e a nova ciência dominou. Afinal de contas, a ciência moderna nada mais é do que a supremacia do sujeito (recomendo que se leia o prefácio de Kant à sua Crítica da razão pura, é um dos poucos momentos em que Kant é claro) sobre seu objeto (objeto e não mais coisa).
[21] Paulo Brabo in “A fé que você não precisa ter”.
[22] idem.
[23] idem.
[24] Não quero dizer com isso que devemos abandonar a razão e a ciência (isso aliás não passa de obscurantismo), mas o que queremos dizer é que o racionalismo não esgota o que existe. Explicar o mundo por meio que não a ciência é um total contra-senso, mas querer explicar tudo cientificamente é apenas superficialidade intelectual.
[25] Paulo Brabo in “A fé que você não precisa ter”.
[26] idem.
[27] Certa vez vi na televisão um desses pastores explicando a passagem bíblica do livro de Daniel (trata-se de um texto em que se explica porque a oração de Daniel demorou para ser atendida. O anjo de Deus encontrara um anjo do mal e tivera que lutar). O pastor disse e fez mímicas mostrando que um anjo (um ser espiritual) ficou na frente do outro, impedindo fisicamente a passagem.
[28] O seguinte artigo pode ser interessante: O argumento único de Anselmo.
[29] Paulo Brabo in “A fé que você não precisa ter”.
[30] Karl Barth in “Revelação, Igreja, Teologia”, pp.181-182. Artigo presente em BARTH, K. Dádiva e louvor. Tradução de Walter O. Schlupp, Luís Marcos Sander e Walter Altmann. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2006.
[31] Karl Barth in “Revelação, Igreja, Teologia”, pp.195-196. Artigo presente em BARTH, K. Dádiva e louvor. Tradução de Walter O. Schlupp, Luís Marcos Sander e Walter Altmann. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2006.
[32] Karl Barth in “Reforma é decisão”, pp.172-173. Artigo presente em BARTH, K. Dádiva e louvor. Tradução de Walter O. Schlupp, Luís Marcos Sander e Walter Altmann. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2006.  Uma pequena correção é preciso ser feita na tradução, leia-se "[...] cujos profetas e os apóstolos são testemunhas".
[33] Paulo Brabo in “A fé que você não precisa ter”.
[34] Será coincidência que os mais ferrenhos defensores da inerrância bíblica sejam também extremamente conservadores politicamente? Negando diversas políticas emancipatórias que beneficiariam a sociedade. Durante algum tempo, por exemplo, diversos cristãos foram contra leis que facilitariam o divórcio, sem se dar conta do número absurdo de mulheres que viviam oprimidas por seus maridos. Ainda tem gente que não gosta muito da lei Maria da Penha, uma verdadeira afronta à supremacia masculina.

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